Primeira Carta aos Tessalonicenses –

Anunciar o evangelho e doar a própria vida (1Ts 2,8) – Introdução à primeira carta aos Tessalonicenses

Por Maria Antônia Marques

Introdução

Na primeira carta aos Tessalonicenses, há expressões afetuosas, como a ternura de uma mãe “acariciando os filhos” (1Ts 2,7) ou: “Tratamos cada um de vocês como um pai trata seus filhos” (1Ts 2,11b). Impedidos de estar com a comunidade, os missionários afirmam: “Quanto a nós, irmãos, por algum tempo estivemos de vista separados de vocês, mas não de coração, e redobramos nossos esforços pelo ardente desejo de vê-los novamente” (1Ts 2,17).

Como mãe, pai e irmão, Paulo e seus colaboradores expressam forte laço familiar com a comunidade, sobretudo na primeira parte da carta (1Ts 1-3). Na segunda parte (1Ts 4-5), há orientações, palavras de encorajamento e exortações (1Ts 4-5): “Irmãos, nós lhes pedimos e encorajamos no Senhor Jesus: vocês aprenderam de nós como devem viver para agradar a Deus. Vocês já vivem assim, mas devem continuar progredindo” (1Ts 4,1); “Nós, que somos do dia, fiquemos sóbrios, revestindo a armadura da fé e do amor, e o capacete da esperança da salvação” (1Ts 5,8).

Contexto

É uma carta repleta de amor, alegria, preo­cupação e exortação! Considerando o contexto no qual a carta surgiu, compreende-se o imenso desejo dos missionários de estar com seus fiéis para “acariciar” e “encorajar”. Expulsos de Filipos, na Macedônia, por causa da perseguição da autoridade romana (1Ts 2,2), Paulo e Silas (Silvano) dirigiram-se à cidade de Tessalônica, capital da província, onde fundaram a comunidade. Aí também eles foram perseguidos, tendo de partir para Bereia, onde novamente foram ameaçados.

A perseguição só parou quando deixaram a Macedônia e chegaram a Atenas, província da Acaia, outra jurisdição romana. Em Atenas, Paulo enviou seu fiel colaborador Timóteo para verificar a situação da comunidade de Tessalônica. De volta, Timóteo encontrou Paulo em Corinto, dando-lhe a boa notícia da perseverança da comunidade e falando-lhe também sobre a tribulação e os problemas do cotidiano: “É que vocês se tornaram imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações” (1Ts 1,6).

As tribulações eram inevitáveis! Ao anunciar o evangelho de Jesus crucificado como Messias e salvador, Paulo e seus seguidores ameaçavam a sociedade escravagista, controlada pela força do império romano com a figura poderosa do imperador, messias e salvador: “O nosso evangelho não chegou a vocês apenas com palavras, mas também com poder, com o Espírito Santo, e com toda a convicção” (1Ts 1,5). No mundo escravista, o evangelho teve o poder de formar a comunidade na liberdade, na igualdade e na fraternidade. O evangelho de Jesus crucificado estava na contramão da proposta do império romano. Daí a perseguição!

A perseguição atingiu duramente Paulo, seus colaboradores e a comunidade, cujas vidas já eram bastante sofridas: a maioria dos membros da comunidade cristã de Tessalônica, como a de Corinto, era constituída por escravos. Trabalhadores braçais sem direito a cidadania, sofriam muito mais com a exploração, a violência e a humilhação: “Passamos fome e sede, estamos malvestidos, somos maltratados, não temos morada certa, e nos cansamos trabalhando com as próprias mãos” (1Cor 4,11-12; cf. 1Ts 2,9). Uma vida ameaçada! Por isso, é muito compreensível que a comunidade de Tessalônica esperasse ansiosamente pela vinda do Senhor Jesus, o dia da salvação: “Quanto a datas e momentos, irmãos, não é necessário escrever-lhes. Pois vocês sabem muito bem que o Dia do Senhor virá como ladrão à noite” (1Ts 5,1).

A vida ameaçada também faz parte da rea­lidade que experimentamos em nossa sociedade. Basta recordar algumas notícias nos meios de comunicação: “6 homens têm a mesma riqueza que 100 milhões de brasileiros juntos”; “Desemprego no Brasil atinge mais de 12 milhões”; “Dos 5 milhões de estabelecimentos rurais, a metade possui menos de 10 hectares, numa área de aproximadamente 7,9 milhões de hectares. Já os 37 maiores latifúndios possuem juntos 8,3 milhões de hectares”; “Hoje, no Brasil, temos 60 milhões de pobres e outros tantos milhões abaixo da linha de indigência”; “Onda de violência gera morte dentro e fora de presídios”; “A operação Lava Jato: fraude e corrupção na administração política”; “Desastre ambiental da Samarco”, entre tantas outras.

Má distribuição de renda, concentração da terra, desemprego, corrupção, violência, desastre ambiental, pobreza, fome, doença e morte ameaçam a vida cotidiana das pessoas. Como no tempo de Paulo, os poderosos de hoje, com sua ganância e ambição, sacrificam a vida humana e a mãe natureza: “Pois bem, sabemos que a criação inteira geme e sofre até agora com dores de parto” (Rm 8,22).

Com afeto e preocupação, Paulo e seus colaboradores escreveram a primeira carta aos Tessalonicenses, para encorajar e orientar a comunidade que estava ameaçada: “Sem cessar, lembramos a obra da fé, o esforço do amor e a constância da esperança que vocês têm no Senhor nosso Jesus Cristo, diante de Deus nosso Pai” (1Ts 1,3). É necessário fortalecer a perseverança da comunidade com a fé ativa, o amor fraterno e a esperança teimosa, como motor na caminhada, rumo à realização do projeto de Jesus crucificado e ressuscitado: para que nele nossos povos tenham vida. Junto com Paulo e seus companheiros, vamos colocar nossos pés na cidade de Tessalônica.

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Um olhar para a cidade de Tessalônica Continue lendo “Primeira Carta aos Tessalonicenses –”

Celebrar o Mistério Eucaristíco – MISSA / Liturgia da Palavra

Neste segundo artigo sobre a Missa, escrito para o Jornal do Maranhão da Arquidiocese de São Luis(MA) refletimos e apresentamos os pontos principais da liturgia da Palavra.

Por: Diac. Carlos Magno Ericeira

Dando continuidade a nossa reflexão sobre a missa vamos abordar o que podemos dizer que é a segunda parte, liturgia da Palavra.

Mistagogia A missa é um encontro da Igreja com seu Deus e Pai, por Cristo no Espírito Santo. Em consequência disso a Palavra de Deus sempre terá lugar de destaque como parte integrante e indispensável na assembleia litúrgica.

Na missa a leitura da Bíblia se reveste de solenidade, pois acredi­tamos verdadeiramente que Deus nos fala. De nossa parte, devemos procurar acolher essa palavra como comunicação de vida. As Escrituras Sagradas não serão simplesmente lidas, mas proclamadas. Tudo devemos fazer para que essas sementes caiam na terra boa do nosso coração e produzam os frutos esperados.

As leituras tiradas da Bíblia para serem feitas durante a missa obedecem a um esquema previamente estudado[1]. Aos domingos são lidos três textos, com um salmo de resposta após a primeira leitura e uma aclamação antes do Evangelho. Percebe-se certa ligação temática entre a primeira leitura e o Evangelho; já a segunda leitura reforça aspectos práticos da vida do cristão e da comunidade.
Nos dias de semana são feitas apenas duas leituras e sem preocupação com temas, pelo menos no tempo chamado comum. Os textos são lidos numa ordem sequencial e a Igreja tem a intenção de que os principais livros da Bíblia e os Evangelhos sejam apresentados aos fiéis no decorrer de todo o ano litúrgico.

A liturgia da palavra divide-se em:

  • a) Entronização da Bíblia (facultativa)
  • b) Primeira Leitura (Na vigília pascal são sete e na vigília de pentecostes são até quatro com seus respectivos salmos)
  • c) Salmo responsorial
  • d) Segunda Leitura
  • e) Seqüência (facultativa no decorrer do ano, exceto Páscoa, Pentecostes e Corpus Christi)
  • f) Aclamação do Evangelho
  • g) Evangelho
  • h) Homilia
  • i) Profissão da fé (Símbolo – somente aos domingos, festas e solenidades)
  • j) Oração dos fiéis (ou da comunidade ou universal)

 

oferta-1-loja-virtualPara cada uma das subdivisões possíveis para a liturgia da palavra teríamos mais considerações a serem feitas, que podem e devem ser abordadas em outros artigos. Salientamos ao leitor os pontos principais e esperamos que este busque maior aprofundamento sobre as questões aqui abordadas.

No próximo artigo iremos comentar sobre a terceira parte da celebração, a liturgia Eucarística.

[1] A Igreja estabeleceu, para o Rito Romano, uma sequência de leituras bíblicas que se repetem a cada três anos, nos domingos e nas solenidades. As leituras desses dias são divididas em ano A, B e C. No ano A leem-se as leituras do Ev. de Mateus; no ano B, o de Marcos  e no ano C, o de Lucas . Já o Ev. de João  é reservado para as ocasiões especiais, principalmente as grandes Festas e Solenidades. Nos dias da semana do Tempo Comum, há leituras diferentes para os anos pares e para os anos ímpares, tirando o Evangelho, que se repete de ano a ano. Deste modo, os católicos, de três em três anos, se acompanharem a liturgia diária, terão lido quase toda a Bíblia.

Nota: Esta Matéria foi editada no Jornal do Maranhão, Ano XLVII- Nº83 – Setembro de 2016.

Apresentação / Estudo sobre Amoris Laetitia

Foi realizado no Auditório da PAULUS uma apresentação / Estudo sobre a ExortaçãoAmoris laititia Apostólica pós-sinodal do Papa Francisco – Amoris Laetitia sobre o amor na família.

Assessorado pelo Diácono Carlos Ericeira, os participantes tiveram oportunidade de conhecer o contexto histórico, as atividades que antecederam a realização do sínodo e a estrutura do documento.

A síntese dos assuntos abordados neste encontro serão editadas aqui no blog CMLITURGO

 

 

Catequese e Liturgia (02)

Neste artigo continuamos a meditação sobre Catequese e Liturgia – duas faces do mesmo mistério

Mistagogia1. O Concílio Vaticano II e a catequese

O Concílio Vaticano II não tratou especificamente da Catequese, mas o pouco que disse foi suficiente para iluminar a sua caminhada até os dias atuais. O Decreto sobre a atividade missionária da Igreja, Ad Gentes, ressalta o grande valor da catequese na ação pastoral, dizendo que “o ofício dos catequistas assume máxima importância em nossos dias(…) diante da tarefa de evangelizar tantas multidões”…(17,914). Já o Decreto Christus Dominus, sobre a ação pastoral dos bispos, pede aos pastores que “Preocupem-se com a instrução catequética, que tem por fim tornar viva, explícita e operosa a fé ilustrada pela doutrina, seja administrada com diligente cuidado quer às crianças e adolescentes, quer aos jovens e mesmo adultos(…). Esta instrução se baseie na Sagrada Escritura, na Tradição, na Liturgia, no Magistério e na vida da Igreja”(14,1043).Em se tratando da necessária interação entre catequese e Liturgia, foi a Declaração sobre a Educação Cristã, intitulada Gravissimum Educationis, que mais claramente definiu o objetivo da catequese, ao afirmar que ela “ilumina e fortifica a fé, nutre a vida segundo o espírito de Cristo, leva a uma participação consciente e ativa no mistério litúrgico e desperta para a atividade apostólica”(4,1509).

2. Catequese Hoje

O papa João Paulo II escreveu um importante documento sobre a catequese, chamado Catechesi Tradendae, no qual afirma:  “A catequese está intrinsecamente ligada com toda a ação litúrgica e sacramental, porque é nos Sacramentos, e sobretudo na Eucaristia, que Cristo Jesus age em plenitude para a transformação dos homens.(…) A catequese leva necessariamente aos sacramentos da fé. Por outro lado, uma autêntica prática dos Sacramentos tem forçosamente um aspecto catequético. Por outras palavras, a vida sacramental se empobrece e bem depressa se torna um ritualismo oco, se ela não estiver fundada num conhecimento sério do que significam os sacramentos. E a catequese intelectualiza-se, se não haurir vida numa prática sacramental” (CT 23).

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3. O documento Catequese Renovada

Mas o grande marco na dimensão catequética, para nós, brasileiros, foi o documento 26 da CNBB, Catequese Renovada (CR). Seu impacto mudou a rota da caminhada da catequese, além de influenciar profundamente outras dimensões da pastoral da Igreja, tal foi o seu alcance. Dois números desse documento merecem destaque por refletirem a importante interação entre Catequese e Liturgia. No número 89 se lê: “Não só pela riqueza de seu conteúdo bíblico, mas pela sua natureza de síntese e cume de toda a vida cristã, a Liturgia é fonte inesgotável de Catequese. Nela se encontram a ação santificadora de Deus e a expressão orante da fé da comunidade.  As celebrações litúrgicas, com a riqueza de suas palavras e ações, mensagens e sinais, podem ser consideradas uma “catequese em ato”. Mas, por sua vez, para serem bem compreendidas e participadas, as celebrações litúrgicas ou sacramentais exigem uma catequese de preparação ou iniciação”. E o número posterior acrescenta: “A Liturgia, com sua peculiar organização do tempo (domingos, períodos litúrgicos como Advento, Natal, Quaresma, Páscoa, etc) pode e deve ser ocasião privilegiada de catequese, abrindo novas perspectivas para o crescimento da fé,  através das orações, reflexão, imitação dos santos, e descoberta não só intelectual, mas também sensível e estética dos valores e das expressões da vida cristã” (CR 90).

Artigo escrito pelo Pe. Vanildo de Paiva

Aguarde em breve iremos editar mais um artigo sobre este tema…. se você não leu o artigo nº I é só clicar aqui e prestigiar. 

Catequese e Liturgia (01)

Icone CatLitCatequese e Liturgia: duas faces do mesmo mistério

1. Um documento sobre Liturgia
Um dos documentos mais importantes do Concílio Vaticano II chama-se Sacrossanto Concílio (SC). Trata da Liturgia e foi a primeira Constituição a ser aprovada, praticamente por unanimidade, o que mostrou a urgência de mudanças nesse setor da ação da Igreja.
O ponto de partida está no resgate da centralidade do Mistério Pascal na ação litúrgica e sua prioridade sobre as exterioridades dos rituais e cerimônias. Em outras palavras, Jesus Cristo é recolocado como o centro de toda a vida cristã – e, por isso mesmo, da Liturgia – e como eixo da ação da Igreja, povo de Deus. Ele é a razão de ser do culto e da vida de todo fiel. Com Cristo, por Cristo e em Cristo, tudo adquire novo significado.

2. Celebrar os Sacramentos a partir de Jesus
Dessa visão cristocêntrica da Liturgia brota um sentido denso para a prática sacramental. Os sacramentos não podiam mais ser vistos simplesmente como remédios para situações emergenciais da vida do cristão, ou como mera conveniência social, mas como verdadeira participação da pessoa no Mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo, no qual ela também “morre e ressuscita” para uma vida nova. Infelizmente, muitos, ainda hoje, têm uma visão mágica dos sacramentos, o que denota uma deficiência na catequese de nosso povo.

Formação litúrgica sobre os livros liturgicos
Formação litúrgica 

3. A participação de todo o povo
Outra grande conquista dessa Constituição foi a participação plena, consciente e ativa de todo o povo nas celebrações litúrgicas (cf. SC 14). Foi dado por encerrado o tempo em que o povo “assistia” à missa, rezava o terço ou lia o livrinho devocional de “seu” santo favorito durante a celebração. Incentivou-se uma valorização dos ministérios diversos na Liturgia e se permitiu que cada povo pudesse celebrar usando a sua própria língua e costumes, e não mais o latim. Também há, nesse aspecto, muito por fazer, e a formação da assembléia celebrante, seja na catequese ou na própria liturgia.

4. O lugar da Palavra na vida cristã
A Palavra proclamada e explicada na Liturgia foi outro elemento que muito favoreceu esse resgate da tradição litúrgica. Não somente na celebração da missa, mas em todos os demais sacramentos, a Palavra constitui momento forte de aprofundamento da fé e de catequese do povo. Inclusive as celebrações da Palavra, permitidas e incentivadas pelo Concílio, vieram fortalecer a vida de tantas comunidades, muitas das quais não têm a oportunidade da presença do padre ou da Eucaristia. Vivem da Palavra de Deus!

5. Liturgia: fonte e ápice da vida cristã
A Igreja voltou seu olhar para a Liturgia, apontando-a como ponto de partida e ponto de chegada de toda a vida cristã (cf. SC 10). Desse modo, ela recuperou o seu posto de fonte da espiritualidade da Igreja e de “catecismo permanente”. A valorização do que se celebra – os mistérios da vida de Cristo e da vida do cristão – encontrou ênfase sobre o aparato externo dos ritos, já saturados pelo formalismo, preocupação com rubricas, alfaias e objetos litúrgicos luxuosos… Uma Liturgia mais vivencial, a partir da realidade do povo e menos instrumentalizada, que introduza o povo celebrante no profundo Mistério de Deus foi a grande proposta do Concílio!

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Artigo escrito por Pe. Vanildo de Paiva

Está reflexão continua, aguarde em breve editaremos um novo artigo sobre Catequese e Liturgia

O ser humano, guardião dos bens da criação (LS 6)

Esta Ficha apresenta a segunda reflexão sobre o julgar, presente nos tópicos três e quatro do segundo capitulo da Encíclica Laudato Si. A base dessa reflexão está na teologia da Criação, expressão do mistério do amor de Deus, pois a existência de cada uma das espécimes manifesta a ação criadora de Deus e por meio de cada uma delas Ele continua criando.

cropped-cmliturgo-3-1.jpgEsta Ficha apresenta a segunda reflexão sobre o julgar, presente nos tópicos três e quatro do segundo capitulo da Encíclica Laudato Si. A base dessa reflexão está na teologia da Criação, expressão do mistério do amor de Deus, pois a existência de cada uma das espécimes manifesta a ação criadora de Deus e por meio de cada uma delas Ele continua criando. Seguindo as pegadas da teologia bíblica, soma-se a contribuição da teologia franciscana, que explicita a relação homem e natureza de forma ampla e integral, expressa no Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis e também da teologia cósmica do Pe. Teilhard de Chardin. Ambas demostram que a realização da vocação humana se dá na profunda relação com todas as criaturas e com o universo e no esforço em preservar e reconstruir, onde se fizer necessário, as condições de vida para todos os seres. Agindo dessa forma, o ser humano estará preservando o meio ambiente, as relações e a sua própria vida.

 O mistério do universo

trigoA encíclica destaca a ecologia integral, indicando que segundo a tradição judaico cristã toda a criação é fruto do amor de Deus, segundo a qual cada criatura tem valor e razão de ser. Ela não é fruto do acaso, mas da vontade de Deus que tudo criou e “viu que tudo era bom” (Gn 1, 25).

O homem, como parte integrante da criação e primeiro beneficiário, é chamado a ser guardião da “Casa Comum”, para que possa viver e dar abrigo as outras criaturas. Para cumprir tal responsabilidade Deus dotou-o de inteligência e capacidade para descobrir a sua vocação em relação a cada ser que existe no universo, tal qual cantou São Francisco. Este caminhar vocacional ajudará o homem a se constituir como pessoa aberta à transcendência de Deus, que reconhece o significado e a beleza misteriosa de tudo o que existe no mundo, como expressão da grandiosidade do Criador. Através da liberdade, o homem escolhe construir a “apaixonante e dramática história humana” que o levará “à vida”, à salvação e ao amor, ou, pelo contrário, “à morte”, num percurso de declínio e mútua destruição (Sl 1). Na descoberta de sua vocação, a criatura humana conta com a ajuda da comunidade eclesial para encontrar o caminho para o bem, afastando o mal presente no seu coração (Caritas in Veritate, 687) No Evangelho anunciado por Jesus o mundo é casa comum de todos e para todos e toda criatura humana é chamada a guardá-lo e protegê-lo. Na antecipação do reino, o Discípulo Missionário segue o seu Mestre e Senhor e se coloca a serviço da comunhão e dos menores “quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo” (Mt 20, 25-26) (LS 82).

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Tal reflexão esta embasada na concepção de que a ciência não se opõe à fé, como muitos interpretaram na teologia criacionista (ainda não plenamente superada), que se opunha à Teologia da Criação. São João Paulo II, na Encíclica Fides e Ratio, lembrou que a ciência existe para colaborar com a fé e as duas são importantes para compreender a criação do mundo. Resgatando o pensamento do Pe. Teilhard de Chardin [1], o papa Francisco lembra que as criaturas não existem para o simples bem estar e usufruto do homem, mas como criaturas nascidas do coração de Deus e todas têm a sua razão de ser no mundo; a de contribuir na construção da pessoa humana e junto com todas as demais criaturas caminhar para “a meta comum”, que é Deus, numa plenitude transcendente onde Cristo ressuscitado tudo abraça e ilumina.

 A mensagem de cada criatura na harmonia de toda a criação

O papa destaca que para a teologia bíblica, a vida de todas as criaturas é uma mensagem de Deus pelo ser humano e ele próprio uma mensagem para os outros seres. “Todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. Alcançar essa compreensão se insere num caminho espiritual de contemplação que poucos experimentaram. Citando os bispos do Japão, o papa destaca que “Sentir cada criatura que canta o hino da sua existência é viver jubilosamente no amor de Deus e na esperança”. De outro lado, ao compreender a mensagem de Deus deixada em cada criatura, o homem se reconhece também como mensagem divina para as outras pessoas e também para os outros seres. Escolher uma vida em Deus é fazer-se sinal de comunhão e serviço a todas as criaturas de Deus. Para ilustrar esse pensamento o Papa Francisco inseriu na encíclica o cântico de São Francisco de Assis. Ao se refletir sobre este cântico, percebe-se a sensibilidade de São Francisco de Assis com a natureza e o universo, que também T. Chardin vivenciou, em sua produção teológica e na vida. Ambos deixaram se mover pelo encanto do universo como obra do amor de Deus, olhando amorosamente o mundo e todos os seres que nele habitam. Desenvolveram a espiritualidade da escuta e da atenção, do cuidado e da sensibilidade, do respeito e do amor por tudo que existe, fazendo Deus transparecer em todas as coisas. Por isso, a partir deles devemos repensar nossa relação com a criação, com a natureza, pois motiva um novo olhar sobre a Terra, mãe que acolhe, abriga e nos faz irmãos. E com São Francisco poderemos cantar o “Louvado Sejais Senhor!” pela “Igreja em saída”, cinquenta anos após o Concílio Vaticano II, em que o Papa Francisco abre a porta do Ano Santo da Misericórdia e Solidariedade, uma oportunidade para assumir e enfrentar os desafios ecológicos do nosso tempo.

No documento “A Igreja e a Questão Ecológica” os bispos brasileiros destacaram que a natureza, é também o lugar da manifestação de Deus, “o lugar da sua presença” ainda que não em plenitude. Descobrir esta presença estimula o desenvolvimento das “virtudes ecológicas”, que o Papa tem recomendado insistentemente, como modo de viver a espiritualidade cristã. Entre elas podemos citar: simplicidade, humildade, respeito e sobriedade no uso dos bens da natureza, contemplação e paz interior, alegria e serenidade, reverência, louvor e gratidão ao Criador pelos bens da criação, cuidar da criação com pequenas ações diárias e participação na construção do bem comum, ternura nas relações, solidariedade e partilha, compaixão, amor e perdão, corresponsabilidade coletiva, a auto limitação e a justa medida, virtudes que toda criatura humana deve cultivar para reconhecer o seu lugar verdadeiro e próprio, o de ser criatura, uma mensagem de Deus para todos os outros seres. Oxalá, a criatura alcance essa percepção de mensagem e mensageiro de Deus.

Nota

[1] Pierre de Teilhard de Chardin (1881-1955), foi um padre jesuíta francês, de formação científica (paleontólogo e geólogo), filósofo e teólogo que rompeu fronteiras entre a ciência e a fé, com sua teoria evolucionista. Em 1922 foi acusado de negar o dogma do pecado original e foi proibido de ensinar teologia. Transferido para a China, continuou suas pesquisas, sempre destacando que a fé não contradizia a ciência. Somente em 1981, 26 anos depois de sua morte, a Igreja reconheceu seu valor, incorporando seus escritos no magistério eclesial, seu pensamento permeia um dos documentos mais importantes do Concílio Vaticano II, a Gaudium et Spes; também a Encíclica Fides e Ratio demonstra a importância da ciência para a fé. O papa Bento XVI também fez referências à sua teologia e o Papa Francisco a cita explicitamente na LS.

 

 

 Para Refletir

1) Qual o sentido da vida humana na Teologia da Criação? Como resgatá-lo em meio aos desafios ecológicos da atualidade?

2) Reflita sobre o Cântico da Criaturas, de São Francisco. Qual a frase que mais chama a sua atenção?

Orientações para a Interação:

a) Você poderá discutir este texto, presencialmente, com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários.

Aguarde a publicação da próxima ficha: – Jesus Cristo o verdadeiro sentido da comunhão universal (LS-7)

 Ao fazer uso deste texto, favor citar a fonte.

cmlturgo.com.br

avf@arquidiocesecampinas.com

 

Deus criou a Terra para a Vida (LS – 5)

Essa Ficha aborda os dois primeiros tópicos do 2º Capítulo da LS, “O Evangelho da Criação”, que dão inicio ao momento do julgar a realidade apresentada nas fichas anteriores, à luz da fé, apresentando o olhar teológico sobre a ecologia.

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Essa Ficha aborda os dois primeiros tópicos do 2º Capítulo da LS, “O Evangelho da Criação”, que dão inicio ao momento do julgar a realidade apresentada nas fichas anteriores, à luz da fé, apresentando o olhar teológico sobre a ecologia. Eles revelam o esforço do Papa Francisco em fazer  a  Igreja  dialogar com o mundo, tal como propôs a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, ao mostrar que a fé não se opõe à ciência, antes, ela revela o olhar cristão sobre as questões que afetam a ecologia. Através das ciências bíblicas e da teologia da criação, o Papa faz uma releitura das narrações bíblicas e articula três elementos: a dignidade de cada pessoa humana; a pessoa como ser relacional com Deus, com o próximo e com a terra; e a responsabilidade de cada pessoa diante da criação, para destacar que a vocação do ser humano dada por Deus não foi a de se constituir senhor da natureza, mas como cuidador das maravilhas criadas, para que ele e seus semelhantes tenham vida plena.

A luz que a fé oferece

Para a complexa crise ecF.108ológica e as suas múltiplas causas (cf. Fichas de estudo editadas anteriormente LS1, LS2, Ls3 e LS4) o Papa sugere que é preciso reconhecer que as soluções não podem vir de uma única maneira de interpretar e transformar a realidade. É preciso recorrer às diversas riquezas culturais dos povos, à arte e à poesia, à vida interior e à espiritualidade, e às tradições religiosas, especialmente à judaico cristã. Aponta que, para construir verdadeiramente uma ecologia que permita reparar tudo o que tem sido destruído no planeta, é preciso somar a contribuição das ciências, das diversas formas de sabedoria das culturas e das religiões e, por isso, ele  apresenta  a teologia cristã,  que ilumina e ajuda a compreender os desafios relacionados à ecologia. No Evangelho de Mateus 5, 13, Jesus chama  os discípulos de “sal da terra e luz do mundo”! Assim, o olhar do cristão sobre a Ecologia também deve ter uma motivação que nasce da fé comprometida, que testemunha a natureza como obra de Deus, o único senhor do Mundo. Não há outro.

A sabedoria das narrações bíblicas

Na releitura do Livro de Gênesis e do Novo Testamento, o Papa  compreende a criação como obra trinitária, cumprida pelo Pai, através do Filho, no sopro do Espírito Santo. Todo o universo, criado por Deus e também habitado pela sua presença, está destinado à salvação. A Encíclica oferece uma visão global da tradição judaico-cristã, na qual três elementos importantes da teologia da criação podem ser verificadas nas narrativas bíblicas.

O primeiro, ensina que cada ser humano possui dignidade porque é criado por amor, feito à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26), concebido no seu coração como alguém querido, amado e necessário, capaz de se conhecer e comunicar, de se possuir e de livremente se doar.

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O segundo elemento é a capacidade do ser humano de entrar em comunhão, com Deus, com outras pessoas (CIC 357) e com a terra, como um ser relacional que se constrói justamente na busca do sentido de sua vida em Deus, no outro e na sua interação com a natureza. Porém, estas três relações vitais foram rompidas pelo pecado, quando o homem interpretou o “dominar a terra” no sentido de fazer-se senhor absoluto dela, explorando  e destruindo ao seu bel prazer, não percebendo que Deus o convidara para “cultivar e guardar” a natureza. Isso transformou a relação ser humano e natureza num conflito (Gn 3, 17-19), devido à  pretensão do ser humano de ocupar o lugar de Deus, e na recusa de reconhecer-se como criatura limitada. Hoje, o pecado manifesta-se com toda a sua força de destruição nas guerras, nas várias formas de violência e abuso, no abandono dos mais frágeis, nos ataques contra a natureza. Lembrando o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, da Igreja Ortodoxa, o Papa Francisco destaca que a destruição da biodiversidade  é “um crime contra a natureza, contra nós mesmos e um pecado contra Deus” (LS, 8).

Por fim, o terceiro elemento da teologia da criação é a responsabilidade humana diante da criação, que consiste em cultivar, ato de servir e trabalhar a terra, que implica respeitá-la, não explorá-la sem medida, com o compromisso de torná-la um lugar habitável e agradável para todos. No mesmo sentido, guardar significa velar por, ou seja, preocupar-se com, e isso, perante uma terra que é de Deus, implica que o ser humano, dotado de inteligência e liberdade, precisa respeitar as leis da  natureza e os delicados equilíbrios entre as relações dos seres deste mundo. Deve tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para sua sobrevivência, mas com o dever de protegê-la, cuidá-la, administrá-la e preservá-la, numa relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza, e assim garantir o potencial da sua fertilidade para as gerações futuras.

A Encíclica mostra e ensina que a responsabilidade está relacionada o cuidado que o ser humano deve ter nas relações consigo, com o outro, com Deus e com a terra, e da percepção de sua vocação. A narração teológica do conflito entre Caim e Abel (Gn 4,9-12) demonstra como o descuido no relacionamento com o próximo pode destruir os outros relacionamentos. Diante da maldade generalizada presente  no coração humano, da qual  Caim se constitui como um importante exemplo (Gn 6,13), Deus decide abrir um caminho de salvação através de Noé, que ainda se mantinha íntegro e justo, e dá à humanidade a possibilidade de um recomeço, pois, basta existir pelo menos um ser humano bom para que haja esperança. Quando as relações são negligenciadas, quando a justiça deixa de habitar a terra, a Bíblia diz que a vida de todos está em perigo.  É nessa perspectiva que os vários códigos de leis devem ser interpretados, pois eles foram criados para proteger a vida dos indefesos, inclusive dos menores seres vivos (Dt 22,4.6; Ex 23,12). Isso pode ser verificado nas Escrituras Sagradas, sobre a lei do Shabbat (Gn 2,2-3; Ex 16,23; 20,10), e sobre o jubileu, um ano de perdão universal (Lv 25,10). Essa legislação assegurava o equilíbrio e a equidade nas relações e ao mesmo tempo um reconhecimento de que a dádiva da terra com os seus frutos pertence a todo o povo e que devia ser partilhado, especialmente com os pobres, as viúvas, os órfãos e os estrangeiros.

laudato 22Nessa mesma perspectiva, o livro dos Salmos e da Sabedoria recordam que todos os seres vivos têm um valor próprio diante de Deus, e que o ser humano é chamado a respeitar a terra e a louvar a Deus, o sábio Criador, porque eterno é o seu amor (Sl 136/135,6). Também nos escritos dos profetas, que anunciavam a vontade de Deus e denunciavam a injustiça dos homens pois, para eles, o Deus que criou o mundo é o mesmo que salva da escravidão do pecado e convida o povo a viver na liberdade e na justiça, recordando o projeto do amor a todas as criaturas e apontando que cada uma tem o seu valor e o seu significado (Is 40,28-b29; Jr 32,17.21).

O Papa utiliza dessas narrações do Antigo Testamento, para demonstrar a convicção atual de que tudo está inter-relacionado e que o autêntico cuidado com a própria vida e com as relações com os outros, com Deus e com a natureza são inseparáveis da fraternidade, da justiça e da fidelidade.

Para Refletir:

1)   Em que sentido esta Ficha pode nos ajudar a compreender  melhor o lugar da criatura humana na criação de Deus?

2)  Como cristãos, nossa fé tem nos impulsionado a cuidar e melhorar  nossas relações com Deus, com a natureza e com os irmãos? Como?

Orientações para a Interação:

a) Você poderá discutir este texto, presencialmente, com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários no final da página.

Aguarde a publicação da próxima ficha: – O ser humano, guardião dos bens da criação (LS6)

Ao fazer uso deste texto, favor citar a fonte.

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A desigualdade que não encontra resistência (LS4).

A quarta Ficha de estudo sobre a Encíclica Laudato SI aponta a íntima ligação entre desigualdade planetária e degradação socioambiental, nas quais os mais pobres são os que mais sofrem, o que se constituí um grave pecado social.

A quarta Ficha de estulaudato_sido sobre a Encíclica Laudato SI aponta a íntima ligação entre desigualdade planetária e degradação socioambiental, nas quais os mais pobres são os que mais sofrem, o que se constituí um grave pecado social. As reações a este estado de degradação são tímidas, se comparadas com as dos defensores da manutenção desta conduta exploratória. Ao mesmo tempo, se constata a radicalidade de opiniões: de um lado, a defesa a todo custo, do mito do progresso; de outro, a condenação a todo e qualquer tipo de intervenção do homem no meio ambiente. Abordando estes três tópicos designados como “Desigualdade planetária”, “Fraqueza das reações” e “Diversidade de opiniões”,
que completam o capítulo I, a Encíclica encerra o momento do Ver.

 Desigualdade Planetária

Recordando a Carta Pastoral dos bispos da Bolívia sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano, o Papa considera que a degradação ambiental e a desigualdade social, se revelam uma grave desigualdade planetária, que atinge de forma maiF107s grave os pobres  El universo, dom de Dios para la vida, 17), privados de condições econômicas que garantem o acesso à alimentação, à água potável e ao saneamento básico para a sua sobrevivência. Além disso, eles são as maiores vítimas de acidentes causados pela intervenção do homem na natureza, como foi o caso do vazamento de óleo tóxico que aconteceu na Petroperu, na bacia do Rio Marañon, em janeiro de 2016, que trouxe consequências para todo o bioma da Amazônia e, também, do rompimento da barragem do Fundão (MG), em novembro de 2015, que contaminou o Rio Doce, cujo material poluente se estendeu por cerca de duzentos quilômetros.

Corporações internacionais têm seus interesses econômicos voltados para a Amazônia, cujo ecossistema abriga reservas mundiais de florestas, de minerais, da fauna e da flora com grande diversidade biológica; contrariamente a isso, as populações nativas da região são ignoradas por não terem esses mesmos interesses e não conseguirem que seus territórios sejam demarcados, legalizados e reconhecidos. Os bispos da América Latina e do Caribe, reunidos em Aparecida, como profetas da vida, insistem que, “nas intervenções sobre os recursos naturais, não predominem os interesses de grupos econômicos que arrasam irracionalmente as fontes de vida, em prejuízo de nações inteiras e da própria humanidade” (Documento de Aparecida 471). O Papa Francisco lembra que “não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social” e também, como a justiça e a caridade devem integrar esses debates, pois é preciso ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres (LS 49).

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Segundo o Papa, para muitos, a solução dos problemas sociais do mundo não está no enfrentamento da pobreza, mas no controle da natalidade, inclusive, condicionada à ajuda econômica internacional aos países em desenvolvimento e considera essa atitude como uma forma de não enfrentar o problema, pois não leva em conta outras causas, como a desigualdade provocada pelo consumismo exacerbado e seletivo. Os desequilíbrios comerciais com consequências no âmbito ecológico, o uso desproporcional e não consciente dos recursos naturais, e as exportações de matérias primas para satisfazer os mercados dos países industrializados são exemplos de fatores que contribuíram para a criação de uma “dívida ecológica”, particularmente entre os hemisférios do Norte e do Sul. O grande consumo praticado nos países ricos (do Norte) tem repercussões negativas nos países mais pobres (do Sul), veja-se, por exemplo, o caso das toneladas do lixo eletrônico descartadas na África, resultado do consumo dos países da Europa. Há ainda o fato das empresas multinacionais cujas filiais, em outros países, (ou sucursais) poluem indiscriminadamente o meio ambiente porque em seus países de origem as leis são mais rígidas e não permitem esse comportamento. Se a dívida externa de países pobres transformou-se em um instrumento de controle, o mesmo ainda não se dá com a dívida ecológica. “É necessário que os países desenvolvidos resolvam esta dívida uma vez que eles possuem fontes de energia não poluentes e renováveis e podem até fornecer recursos aos que necessitam de políticas e programas de desenvolvimento sustentável” (LS, 52).

 A fraqueza das reações

O Papa Francisco declara a sua preocupação com a fraqueza da reação da política internacional diante da atitude de submissão à tecnologia e às finanças postas acima do meio ambiente, conforme demonstram as cúpulas mundiais, demonstrando que o interesse econômico tende a prevalecer sobre o bem comum.

Apesar de haver crescido a sensibilidade ecológica das populações, isso ainda não é suficiente para mudar hábitos de consumo que violentam o meio ambiente. Além disso, há o crescimento de uma ecologia superficial que leva à irresponsabilidade, dando a entender que as coisas não são graves e o planeta pode subsistir por muito tempo nas condições atuais, um modo de não reconhecer os problemas ambientais e adiar decisões. O Papa alerta que as desigualdades devem causar-nos indignação e perplexidade e que a indiferença, os interesses pessoais e o egoísmo tendem a piorar os problemas socioambientais. Na Evangelii Gaudium (EG), já afirmava sua preocupação com os interesses do mercado acima de tudo: “qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta” (EG, 56).

 A diversidade de opiniões

Ao ver toda essa situação, que demonstra a falta de resistência às desigualdades, também se reconhece que já surgem tentativas de possíveis soluções. Entretanto, há uma diversidade de opiniões extremadas, pois existem aqueles que defendem o mito do progresso, acreditando que tudo poderá se resolver somente pela técnica, sem considerações éticas; e outros, que desenvolvem o pensamento de que, uma vez que o ser humano é o causador da degradação e do comprometimento do ecossistema mundial, são favoráveis a impedir essa intervenção através da redução de sua presença no planeta. Somente por meio de um diálogo global permeado de solidariedade será possível chegar a respostas plausíveis, diante de problemas tão amplos e complexos.

Na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Cúpula da Terra Eco 92, países emergentes enfrentaram a pressão internacional por reconhecerem o quanto os países industrializados poluíram o planeta para se desenvolverem durante os séculos XIX e XX. Dez anos depois, a ONU realizou a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável em Joanesburgo (África do Sul), a qual, apesar do aparente interesse, pouco se avançou, pois os países ricos não desejaram abrir mão de seu estilo de vida e exploração dos recursos. O Acordo de Paris é considerado o maior tratado da história da ONU e prevê uma série de compromissos dos países participantes pautados na redução do aquecimento global e do desmatamento.

A Encíclica conclui que a missão da Igreja “é promover o debate honesto entre os cientistas, respeitando a diversidade de opiniões” (LS, 61). A esperança cristã afirma a existência de uma saída, uma resistência à destruição, pois os seres humanos são capazes de cuidar da casa comum que o Criador lhes entregou para que “a cultivasse e a guardasse” (Gn2, 15).

Para Refletir:

1) Por que, para resolver os problemas do meio ambiente, a abordagem ecológica deve ser associada a uma abordagem social?

2) Como cada um de nós pode contribuir para que mais pessoas lutem contra a desigualdade no planeta?

Orientações para a Interação:

a) Você poderá  discutir este texto, presencialmente,  com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários logo abaixo deste texto.

Aguarde a publicação da próxima ficha: – Deus criou a terra para  a vida  (LS5).

 

Ao fazer uso deste texto, favor citar a fonte.

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Celebrar o Mistério Eucaristíco – MISSA / Ritos Iniciais

Por: Diac. Carlos Magno Ericeira

Muito embora o assunto que iremos abordar já seja de conhecimento da maioria, é conveniente retratá-lo para que se possa chegar aquela tão sonhada ação frutífera almejada pela liturgia, pois a “Liturgia é uma ação sagrada, através da qual, com ritos, na Igreja e pela Igreja, se exerce e prolonga a obra sacerdotal de Cristo, que tem por objetivos a santificação dos homens e a glorificação de Deus.” (SC 7).

capa do JM mês de agosto
capa do JM mês de agosto

O Rito romano é o rito mais difundido em todo o mundo católico, e geralmente mais conhecido, embora, existam vários outros ritos reconhecidos. A Missa (como costumamos intitular a celebração Eucarística) tem dois grandes momentos, a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística, precedidas por Ritos iniciais e seguidas pelos Ritos Finais; é regido pelo missal romano promulgado em 1970 e revisto em 1975 e 2002, fruto da reforma litúrgica do Concílio Ecumênico Vaticano II este livro na parte denominada Introdução Geral do Missal Romano (IGMR) traz as explicações e indicações (regras) para cada um dos momentos da celebração.
Interligadas entre si, com inicio e fim as partes acima sublinhadas formam a espinha dorsal deste momento celebrativo da comunidade cristã. Neste artigo de forma breve vamos voltar nossa atenção para os ritos iniciais, que tem como objetivo principal transformar indivíduos em povo celebrante, formar a assembleia orante, fazer com que as pessoas entrem no clima de celebração, corpo de Cristo animado pelo Espírito Santo, conduzindo a Assembleia Cristã a uma comunhão para ouvir e meditar a Palavra de Deus e celebrar e louvar o Memorial da nossa Salvação. Divide-se em:
 Monição
 Procissão e Canto de Entrada
 Beijo do altar
 Incensação do altar
 Saudação e Acolhida
 Ato Penitencial – Senhor tende piedade (Kyrie Eleison)
 Hino de Louvor (somente aos domingos, festas e solenidades, exceto na Quaresma e no Advento)
 Oração do dia (Oração coleta)

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Formada a assembleia que vai participar da missa, o presidente da celebração (um presbítero ou um bispo) dirige-se para o presbitério com os outros ministros e acólitos. Saúda o altar com a vénia, inicia com o Sinal da Cruz, segue-se o ato penitencial (na forma de confissão ou tríplice invocação a Cristo, Kyrie), em que todos os participantes pedem a Deus o perdão por seus pecados, para melhor celebrarem a Eucaristia.
Nos Domingos (exceto no Advento e na Quaresma) ,solenidades e festas, reza-se ou canta-se o Hino de Louvor (Glória a Deus nas Alturas). Por fim, o presidente convida todos à oração dizendo Oremos e diz a oração coleta pela qual apresenta a Deus todas as intenções do povo celebrante, e concluindo assim os ritos Iniciais.
No próximo artigo iremos comentar sobre a liturgia da Palavra.

(artigo publicado no Jornal do Maranhão Ano XLVII – Nº82 – agosto 2016 / arquidiocese de São Luis (MA)

CELEBRAR COM CRIANÇAS

Aqui refletimos sobre a inserção das crianças no ambiente religioso, especialmente o contexto celebrativo do mistério Pascal de Cristo.

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Diac. Carlos Magno de R. Ericeira

É responsabilidade do Pai, da mãe, do padrinho e da madrinha as primeiras experiências de fé das crianças, por isso a preocupação de realizar uma preparação, por mais breve que seja, para que estes se conscientizem de seu papel e responsabilidade na educação religiosa de seus filhos e afilhados. Este elo pelo qual geralmente a grande maioria das pessoas são iniciadas em uma experiência religiosa deve culminar em um ato celebrativo, seguindo o seu Mestre, que, “abraçando… abençoava” os pequeninos (Mc 10,16). A Igreja, portanto, tem o dever de cuidar das crianças, principalmente as batizadas para que cresçam em comunhão com Cristo e seus irmãos e não pode abandona-las em uma situação, entregues a si mesmas.

Cel. da Palavra com crianças
Cel. da Palavra com crianças

O Concílio Ecumênico Vaticano II que já na Constituição sobre a Sagrada Liturgia (SC) falara sobre a necessidade de uma adaptação da liturgia para os diversos grupos, após sua conclusão começou a considerar, com maior empenho, como as crianças poderiam participar mais facilmente da liturgia. Em 1973 foi aprovado um diretório para missas com crianças, levando em consideração os ecos das áreas de psicologia e pedagogia e os estudos e experiências de atividades e celebrações realizadas com jovens.

Após 4 décadas ainda se conhece pouco sobre este diretório que se desenvolve em três capítulos: 1º) como iniciar as crianças e prepará-las para a Eucaristia; 2º) como acolher as crianças nas celebrações com adultos; 3º) como conduzir  a celebração quando a missa tem na maioria crianças. É preciso criar condições para que as crianças vivam a sua fé. Como dissemos, a começar pelos pais, depois o ministro ordenado, presidentes de celebração, os catequistas, a comunidade.

Alguns pontos podemos e devemos considerar nesta área: a) Iniciar a criança no valor do silêncio, como momento precioso para acolher a palavra de vida; b) Introduzir a criança no canto; c) Valorizar a celebração da Palavra.
Por outro lado, o Diretório enfatiza também que a Catequese precisa ter também uma dimensão humana: aprender valores, saber conviver com os outros, agradecer, pedir perdão…. atitudes que também são exercitadas na celebração.

Inf. A Palavra Viva - ficha de estudo sobre a Cel. da Palavra de Deus.
Inf. A Palavra Viva – ficha de estudo sobre a Cel. da Palavra de Deus.

A participação deste público requer uma atenção especial, por isso eis algumas sugestões: EM CELEBRAÇÔES DE ADULTOS – 1. As crianças menores podem ser reunidas em um lugar próximo adequado e voltarem para a Bênção final; 2. Em outro local, as crianças participam de uma Liturgia da Palavra mais adequada e voltam para a Liturgia Eucarística ou 3. Dá-se atividades adequadas para a sua mais efetiva participação (ex. coleta, etc). Esta última tem se mostrado ser a mais adequada para a nossa realidade. EM CELEBRAÇÕES SOMENTE COM CRIANÇAS. 1- Evitar discursos e palavras rebuscadas e de difícil entendimento, buscar uma linguagem acessível a faixa etária da assembleia reunida; 2 – Os adultos presentes, estão ali para rezar junto com as crianças e não para fiscalizá-las. Celebrar com as crianças é ir com elas ao encontro do Senhor que nos reúne, nos revela, se nos oferta e se nos dá na Sagrada Comunhão; 3 – A música vocal e instrumental bem preparada e adaptada é de grande importância: a melodia não deve se sobrepor à letra, nem os instrumentos à voz, nem o coral à assembleia. Não basta assistir, é preciso participar, ou seja, fazer parte. O uso de imagens e símbolos visuais é também ponto de destaque, que precisam ser usados. Que nada se imponha, mas que esteja a serviço do essencial. O espaço também contribui para a melhor participação.

Com estas dicas e a partir da vivência de cada comunidade, aos poucos vai-se criando um espaço onde elas (as crianças) se identificam e sentem-se participantes do mistério celebrado de uma forma que só elas podem relatar.

Por Diac. Carlos Magno Ericeira

(Artigo publicado no Jornal do Maranhão, Ano XLVII - Nº 81 - Julho de 2016)