Tríduo Pascal, tempo salutar para uma profunda vivência do âmago da fé

Por: Diac. Carlos Magno Ericeira




Celebrando a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus que o Cristo realizou quando, morrendo, destruiu a nossa morte e ressuscitando renovou a vida. O tríduo pascal[1], momento do ano litúrgico em que se traz presente e se realiza o mistério da páscoa do Cristo, constitui-se o centro[2] do próprio ano, mas, também de toda a vida e fé das comunidades cristãs. Este inicia-se com a missa vespertina da ceia do Senhor (quinta-feira santa), tem seu cume na solene vigília “mãe de todas as santas vigílias”[3] (sábado) e encerra-se na tarde do domingo da ressurreição (cf. CNBB 43 pag. 48), três momentos entrelaçados e inseparáveis de uma mesma realidade que a Igreja celebra, saboreando na vitória de Jesus a nossa própria vitória.
Momento anual tão esperado na vida de cada cristão e das comunidades, portanto, precisa ser bem celebrado, mas, para que isto ocorra é necessário uma compreensão (mesmo que mínima) de seu sentido e valor; Retomar detalhes históricos, indicações dos documentos, estudos dos textos bíblicos, sugestões litúrgicas e homiléticas ajudam na contextualização e possibilitam a comunidades e equipes litúrgicas solenizar o período central do Ano litúrgico, por outro lado, os que irão desempenhar serviços e ministérios, façam uma prévia preparação (com vivências, leitura orante e laboratórios) que os introduza no mistério celebrado e assim possam mais plenamente conduzir a Igreja reunida em assembleia a participação plena, ativa e frutuosa.
Dentro deste contexto, façamos uma breve memória e vejamos algumas sugestões que possam iluminar a realização deste especial momento em nossas comunidades:
Páscoa (verbo grego paschein – padecer, sofrer), festa que o povo da antiga aliança celebrava em torno da mesa, onde comendo o cordeiro pascal (pesah) faziam memória da passagem da escravidão para a liberdade (cf. Ex 12, 21-23.27b.29-39), tradição herdada por Jesus e que posteriormente por Ele foi redimensionada em um sentido pascal de sua passagem para o mundo do Pai (cf. 1 Cor 11,23-26). Com sua sua glorificação e ascensão nossos pais e mães da fé se reuniam para fazer a memória e gradualmente a tradição apostólica ao longo da história estruturou as celebrações para que as comunidades pudessem tornar celebre este momento, a Ceia do Senhor, (momento em que o Senhor pelo o pão e vinho partilhados sinaliza a cumplicidade e reciprocidade que o leva a entrega-se total até o fim e derramar seu sangue por nós) antecipa sacramentalmente sua morte e ressurreição e institui o sacramento da eucaristia, do sacerdócio e do mandamento do Amor. “Desejei ardentemente comer convosco esta ceia pascal antes de sofrer” (Lc. 22,15)
Páscoa, expressada na tristeza e no luto que a cruz (do latim cruce) = instrumento de tortura, dor, angústia, escândalo e sofrimento) representava no tempo de Jesus, mas, que pela a sua ação salvifica se tornou sinal de esplendor, vitória e júbilo. Cruz que ao ser venerada e meditada ganha profundo e salutar significado, mas não nos deixa inertes, pelo contrário, revela um sentido sobrenatural para o sofrimento humano e a infinita misericórdia do Pai, “Completo na minha carne – diz o Apóstolo Paulo, ao explicar o valor salvífico do sofrimento — o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja.: e São João Paulo II exorta em sua carta apostólica “tal é o sentido do sofrimento: verdadeiramente sobrenatural e ao mesmo tempo humano; é sobrenatural, porque se redica no mistério divino da Redenção do mundo; e é também profundamente humano, porque nele o homem se aceita a si mesmo, com a sua própria humanidade, com a própria dignidade e a própria missão.” (n 31)[4].
É nesta perspectiva que entramos na sexta e a cruz entra em nossas assembleias para ser aclamada e adorada.
Páscoa, da vigilância, da real transformação, conversão e revelação, onde nós (cristãos e cristãs) ritualmente realizamos o que vivenciamos e com Cristo atravessamos das trevas a luz, da morte a vida. “noite que não conheces trevas, espantas todo sono e nos leva a velar com os anjos; noite pascal, por todo o ano esperada” (Santo Asterio de Amaséia) momento em que a comunidade na sua intimidade, simplicidade e fraternidade é introduzida no evento que a constitui e a fundamenta – a ressurreição de Jesus Cristo. “Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremos e nele exultemos” (Sl 118)
Algumas sugestões para dinamizar a celebração
Quinta-feira santa – O local assume um tom festivo, com flores, velas, insenços, etc. Onde for oportuno pode-se retomar o costume judaico do acendimento das velas e para sinalizar esta pertença usa-se a menorá (candelabro de sete velas) e come-se ervas amargas. É importante dar a celebração uma dimensão de refeição e ceia, por isso se for oportuno sem que cause distorções e ou inconvenientes na comunidade, aconselha-se que: a) organize-se a nave da Igreja em sentido circular para favorecer que as pessoas possam se reunir em tono da mesa (altar); b) atendendo ao que é recomendado na SC 55, a comunhão sob duas espécie, especialmente neste dia, seja prevista com tudo o que for necessário para realizá-la inclusive se possível com a utilização de pães ázimos no lugar das hóstias; c) de forma sóbria e serena, pensar e organizar o altar para adoração eucarística, esta por sua vez não deve se prolongar pela noite inteira para nao se sobrepor a vigília (ponto alto) e nem cansar demasiadamente as pessoas.
Sexta-feira santa – aqui a liturgia assume o tom do despojamento e simplicidade, o altar desnudo é sinal de luto e dor da comunidade, o silêncio ocupa o lugar mais importante na mística da celebração. Para a dinâmica da celebração é importante além de garantir os elementos acima propostos, uma boa leitura da paixão com distribuição de tarefas e ensaios prévios; cuidados com a oração universal obedecendo os intervalos e os momentos de silêncio e para a adoração da cruz prever um crucifixo grande coberto, ladeados por dois ministros com velas.
Vigília Pascal – Dar a esta noite uma dimensão cósmica, universal com abertura ecumênica, alargando as fronteiras e comunhão especialmente com as outras Igrejas e culturas. É importante pensar bem e preparar os diversos elementos e momentos destas celebração: a) para a liturgia da luz e do fogo, preparar a fogueira, prever o círio e velas para todos os participantes; b) a cruz poderá neste dia ser coberta de flores e intronizada durante a proclamação pascal (exultet); c) na liturgia da palavra com vivencias previas e mantendo na integra o seu conteúdo é possível agregar recursos narrativos e cênicos; d) onde for acontecer a celebração dos sacramentos de iniciação prever o que for necessário, porém, mesmo que não haja seria enriquecedor organizar uma solene entrada da água a ser colocada na pia batismal antes da renovação do batismo; e) A vigília também tem uma dimensão de refeição e se for oportuno é bom reforçar os elementos da ceia com pães azimos e comunhão sob duas espécies e após a celebração um ágape fraterno.
Domingo da Ressurreição – primeiro dia da semana, (= dominus, dia do Senhor). Dia primordial para os cristãos “o dia do Senhor, o dia da Ressurreição, o dia dos cristãos, é nosso dia. Por isso é chamado dia do Senhor: porque é neste dia quando o Senhor subiu vitorioso junto ao Pai. Se os pagãos o chamarem dia do sol, também o fazemos com gosto; porque hoje amanheceu a luz do mundo, hoje apareceu o sol de justiça cujos raios trazem a salvação” (CIC, 1166).
(CIC 2175)[5] – “O Domingo distingue-se expressamente do sábado, ao qual sucede cronologicamente, cada semana, e cuja prescrição ritual substitui, para os cristãos. Leva à plenitude, na Páscoa de Cristo, a verdade espiritual do Sábado judaico e anuncia o repouso eterno do homem em Deus. Com efeito, o culto da lei preparava o mistério de Cristo, e o que nele se praticava prefigurava, de alguma forma, algum aspecto de Cristo (1Cor 10,11)”.
Assim para todos os domingos (páscoa anual e semanal) a celebração terá ares de festa com as características próprias de seu tempo.
Eis o tempo! Celebrá-lo em Espírito e verdade é para nós mas que uma simples memória histórica é ver acontecer “á Páscoa do Cristo na Páscoa da gente….” é expressar a misericórdia do Pai e acreditar em um mundo renovado, ré-justiçado e ressuscitado, onde, o equilíbrio natural e social da ‘casa comum’ se transfigure em um mundo de irmãos. Feliz Páscoa para todo o universo!

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[1] cf. IGMR 19
[2] cf. IGMR 18 – ibid., n106
[3] Santo Agostinho, Sermão 219: PL 38,1088
[4] Carta apostólica “Salvifici Doloris” João Paulo II
[5] CIC – Catecismo da Igreja Católica