A insustentabilidade do atual modelo de desenvolvimento (LS3)

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Continuando com o momento do ver, nesta ficha serão abordados dois tópicos de suma importância, que são referentes ao desequilíbrio do meio ambiente e ao tecido social: Perda de biodiversidade e Deterioração da qualidade de vida humana e degradação social. Ambos mostram claramente a insustentabilidade do atual modelo de desenvolvimento que prescinde da natureza e atenta contra ela. Aliados aos temas tratados na ficha anterior, percebe-se que a ação predatória sobre os recursos naturais atinge gradativamente as espécies vegetais e minerais que são úteis para a alimentação e para a medicina, interfere profundamente na vida animal, provocando a extinção de muitas delas, gerando carências que levam à migração humana e à degradação da qualidade de vida, causando uma urbanização sem planejamento, portanto desorganizada e caótica. As modernas tecnologias de comunicação social, que deveriam ser aplicadas para o crescimento e fortalecimento das relações pessoais, estão causando a degradação do tecido social, ocasionando o afastamento e o isolamento das pessoas.

Perda de biodiversidade

Reflete sobre como criar um espaço de oração com arte
Reflete sobre como criar um espaço de oração com arte

Entende-se por biodiversidade a grande variedade de formas de vida existente no planeta e compreende os ecossistemas terrestres, marinhos e os complexos ecológicos (fauna, flora, microrganismos) dos quais fazem parte. Os ecossistemas são responsáveis por criar coletivamente as bases de vida na Terra: água, oxigênio, alimentos, fontes de energia, matéria prima natural para medicamentos etc., garantindo a sustentabilidade e o equilíbrio no mundo inteiro. Assim, cada espécie tem sua função específica na natureza e a sua ausência acarreta prejuízos incalculáveis para a humanidade. Atualmente, a perda de biodiversidade, que se caracteriza pela extinção de vida vegetal e animal dentro dos ecossistemas, tem sido um dos principais problemas que acometem a Terra. Uma das principais causas está fundada no atual modelo  de desenvolvimento econômico pautado na cultura imediatista  e extrativista. O desmatamento inconsequente e as queimadas causam a perda de imensas porções de bosques e florestas, além de provocar a extinção de espécies animais e vegetais que fazem parte da perfeita cadeia alimentar, idealizada por Deus, para a subsistência de outras especieis e especialmente do homem, incluindo algumas plantas medicinais que lhe seriam úteis na cura de doenças. Infelizmente, isso acontece com frequência nas instalações de novas indústrias e usinas hidroelétricas que demandam a construção de barragens e novas estradas, e na implementação de novos tipos de cultivo, diminuindo os habitats naturais e fragmentando-os com intensidade e, também, impossibilitando a migração da fauna local, que geralmente é extinta. Embora existam alternativas que possam diminuir tais destruições, poucos países as observam, pois a exploração comercial se sobrepõe ao cuidado com as espécies.

Os estudos sobre o impacto ambiental que as empresas são obrigadas a fazer, quando suas atividades interferem no meio ambiente, até chegam a se preocupar minimamente com os efeitos degradantes no solo, na água e no ar, mas nem sempre incluem um levantamento cuidadoso da biodiversidade. Isso revela que, para muitos, a perda de algumas espécies ou de grupos animais ou vegetais não é considerada algo de vital relevância e, no Brasil, exemplos desse descaso aparecem constantemente nos noticiários que denunciam os maus tratos à natureza. Não somente no Brasil, mas por todo o mundo, a Amazônia é o foco de atenção por ser considerada o templo da maior biodiversidade do planeta e que está ameaçada pelas motosserras, pelo trator e pelo fogo que devastam a floresta para grandes projetos de: industrialização, hidrelétricas, agricultura, cultivo da soja e criação de gado, atentando contra todo o ecossistema da Bacia Amazônica. Esses projetos, infelizmente, ocasionam também a expulsão de populações nativas como de índios, camponeses e ribeirinhos, provocando revoltas e conflitos.

Todas as espécies animais e vegetais têm valor imensurável em si mesmas e são criações divinas, portanto perfeitas, e o homem deve respeitar as suas singularidades e importância no ciclo da vida e não apenas enxergá-las como recursos exploráveis. Lamentavelmente, milhares de espécies já em extinção, não serão conhecidas por nós, e nem nossos filhos e netos poderão vê-las, e isso é consequência de atividades humanas irresponsáveis, as quais não deveriam existir no meio ambiente. Todos os elementos do ecossistema têm suma importância no ciclo da vida, até mesmo, as muitas formas de vida que passam despercebidas, mas que são de fundamental importância para o equilíbrio da natureza.

Quando um geossistema entra em estado crítico, já quase sem chances de recuperação, existe a necessidade da intervenção humana para tentar restabelecer o equilíbrio. Entretanto, muitas vezes, essa intervenção acaba criando novos problemas onde, às vezes, não existia, ocasionando a formação de círculos viciosos carregados de riscos para o meio ambiente. Sabemos, por exemplo, que muitos espécimes desaparecem de um ecossistema em decorrência do uso indiscriminado de agrotóxicos que são considerados importantes para a agricultura, mas que, na verdade, são nocivos para outras espécies. Apesar dos esforços de cientistas e técnicos, no sentido de solucionar os problemas criados, percebemos que a intervenção humana, geralmente a serviço do sistema financeiro e produtivo, agride e transforma o planeta, limitando e esgotando seus recursos, transformando-o numa terra pobre e cinzenta, ao mesmo tempo em que o desenvolvimento da tecnologia e das ofertas de consumo avançam sem encontrar limites. O homem se ilude pensando poder substituir a beleza insuprível e irrecuperável da terra por outra criada por ele. Apesar de todos os alertas sobre os desastres que vêm sendo causados na natureza, o homem parece não retroceder, ao contrário, avança cada vez mais, estragando ou destruindo novos ecossistemas, como, por exemplo, os oceanos.

dia-da-biodiversidadeO Papa Francisco alerta que: “É preciso investir muito mais na pesquisa para se entender melhor o comportamento dos ecossistemas e analisar adequadamente as diferentes variáveis de impacto de qualquer modificação importante do meio ambiente. Visto que todas as criaturas estão interligadas, deve ser reconhecido com carinho e admiração o valor de cada uma, e todos nós, seres criados, precisamos uns dos outros. Cada território detém uma parte de responsabilidade no cuidado desta família, pelo que deve fazer um inventário cuidadoso das espécies que alberga a fim de desenvolver programas e estratégias de proteção, cuidando com particular solicitude das espécies em vias de extinção”.

Deterioração da qualidade de vida humana e degradação social

Ao abrir esse tema, o Papa lembra que: “Tendo em conta que o ser humano também é uma criatura deste mundo, que tem direito a viver e ser feliz e, além disso, possui uma dignidade especial, não podemos deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo atual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas”, por isso, condena uma economia baseada na acumulação de lucros, que ignora as dimensões sociais e ecológicas da qualidade de vida.

A deterioração da qualidade de vida caracteriza-se pelo crescimento desmedido e descontrolado de muitas cidades que oferecem baixa qualidade de vida aos seus habitantes, devido à poluição ao caos urbano gerado pela concentração de construções que descaracterizam a natureza transformando-as em verdadeiras “selvas de pedra” com sérios problemas de transporte. Em muitas cidades, as grandes estruturas industriais e residenciais não funcionam adequadamente, pois geram gastos excessivos de água e energia, além de problemas de drenagem das águas de chuvas que geram alagamentos nas cidades. Bairros e loteamentos recém-construídos apresentam-se congestionados e desordenados por falta de adequada engenharia de tráfego, sem espaços verdes suficientes para depuração do ar, para a sociabilidade e o lazer. E, é importante destacar que não é conveniente e nem próprio do ser humano viver cada vez mais submerso na poluição urbana e em meio a cimento, asfalto, vidros e metais, privado do contato físico com a natureza.  De outro lado, a privatização de espaços dotados de áreas verdes e a criação de espaços residenciais “ecológicos” criam a mentalidade de que tais locais só são acessíveis a quem pode pagar, como se os pobres não tivessem direito a natureza, cabendo-lhes ocupar apenas as áreas periféricas e insalubres.

Os efeitos da “nova sociedade global” com suas inovações tecnológicas se fazem sentir de várias formas, como: na exclusão social, na desigualdade do fornecimento e consumo da energia e de outros serviços, na fragmentação social, no aumento da violência e no aparecimento de novas formas de agressividade social, no narcotráfico e no consumo crescente de drogas entre os mais jovens, e na perda de identidade.

Somam-se ainda as dinâmicas dos meios de comunicação de massa e do mundo digital que não favorecem o desenvolvimento da capacidade de viver com sabedoria, pensar em profundidade, amar com generosidade. O momento atual exige que esses meios se traduzam em novo desenvolvimento cultural da humanidade, e não em deterioração da sua riqueza mais profunda. Hoje o homem acumula dados e informações em abundância, que acabam gerando saturação e confusão ao invés da verdadeira sabedoria que é fruto da reflexão, do diálogo e do encontro generoso entre as pessoas. As relações reais e pessoais estão sendo substituídas por relações virtuais mediadas pela internet, perdendo-se a riqueza do encontro com o outro. Os meios atuais permitem a comunicação e a partilha de conhecimentos e afetos, mas, às vezes, também impedem o contato direto com a angústia, com o sofrimento, com a alegria do outro e com a complexidade da sua experiência pessoal. Por isso, ao lado do crescimento de tais relacionamentos, o mundo assiste ao crescimento de uma profunda e melancólica insatisfação nas relações interpessoais ou um nocivo isolamento.

Verifica-se por tais contradições que o crescimento dos últimos dois séculos, apesar do enorme avanço tecnológico em várias áreas, não significou o “crescimento social” tal como o Papa Paulo VI refletiu na Encíclica Populorum progressio (PP), um dos mais importantes documentos da DSI, referindo-se ao novo colonialismo que a economia neoliberal impunha aos países historicamente espoliados, tornando-os cada vez mais pobres, lembrando que o desenvolvimento econômico e técnico de alguns países não podia ser alcançado com a degradação ambiental e social de outros. Segundo o documento, o progresso deve gerar o desenvolvimento social para todos, e deve atingir  todos os aspectos da vida humana, em verdadeiro progresso integral e na melhoria da qualidade de vida (PP, 34). A ausência de progresso social gera uma verdadeira degradação social, uma silenciosa ruptura dos vínculos de integração e comunhão social, e uma profunda desintegração homem e natureza que, em última análise, revela uma crise sobre a razão da existência humana, de sua relação com as outras criaturas e com o seu criador.

Oxalá a reflexão da Encíclica Laudato Si possa contribuir para  que as pessoas repensem o sentido da vida e de suas relações, e que os avanços tecnológicos não as impeçam de buscar nas suas relações com o meio ambiente e com os seus semelhantes a sua identidade de ser humano.

 

Para Refletir:

1- Que ações podemos desenvolver para aumentar a consciência social sobre a importância da biodiversidade?

2 –  Qual a relação que os cristãos devem fazer entre biodiversidade e degradação social?

Orientações para a Interação:

a) Você poderá  discutir este texto, com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários logo abaixo deste texto.

Aguarde a publicação da próxima ficha:   A desigualdade que não encontra resistência  (LS4).

Ao fazer uso deste texto, favor citar a fonte:  

  • http://cmliturgo.com.br
  •  http://www.ambientevirtual.org.br.

O Clamor da Mãe terra (LS 2)

Essa Ficha dá início às reflexões contidas no Capítulo I da Encíclica Laudato Si(LS). Nele, o Papa Francisco apresenta uma análise da realidade sobre as questões ambientais e humanas e adverte sobre a eminência de um colapso dos recursos naturais, gerado pela forma predatória como o homem tem tratado a terra. Esse é o momento do “ver”. O texto destaca que as principais causas da atual crise ecológica, que traz sérios prejuízos à sobrevivência, decorrem da busca de crescimento econômico ilimitado baseado na exploração do planeta com recursos naturais cada vez mais limitados. Convida a todos para deter a atenção ao que está acontecendo com a casa comum, e faz um apelo à tomada de consciência, no sentido de repensar a sociedade e o agir sobre a terra a partir dos seguintes pontos: poluição, mudanças climáticas, escassez da água, perda da diversidade, deterioração da qualidade de vida humana, degradação social e desigualdade planetária. E questiona: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão crescendo?” As três primeiras realidades críticas abordadas na LS: poluição, mudanças climáticas, e a questão da água, serão os temas abordados dessa segunda Ficha de estudo.

laudato_si A Campanha da Fraternidade de 2011 da CNBB (Fraternidade e a Vida no Planeta  “A criação geme em dores de parto” Rm 8,22), nos recorda que a terra é gestadora dos seres vivos, dos seres humanos, homem e mulher, e que sem ela a vida seria impossível. Em razão disso, é chamada Mãe Terra. São Francisco também a comparou com uma mãe que acolhe os filhos em seus braços, os quais, através de gestos e atitudes de gratidão, louvor, esperança e responsabilidade, compartilham a existência. A Mãe Terra, movida pela ação de Deus, pela energia de suas entranhas e pela boa convivência,  entre os seres vivos de todos os ecossistemas, vegetais, animais e minerais, constitui o meio ambiente, onde todas as formas de vida se adaptaram ao clima e às adversidades naturais de cada região. Do equilíbrio da atmosfera,  de uma temperatura adequada, dependem a vida humana e toda a biodiversidade.

O modelo de desenvolvimento existente, pautado na exploração dos recursos naturais produz poluição, aquecimento e mudanças climáticas. Isso provoca desequilíbrio no  ecossistema, compromete a vida de várias espécies e traz sérias repercussões na sobrevivência de populações autóctones e dependentes da natureza, promove a desigualdade e, consequentemente, a concentração de riqueza e poder, sem falar da degradação e da destruição do meio ambiente e das condições de vida sobre a Terra. Essa realidade denuncia uma injustiça e uma perversidade contra a Mãe Terra e contra seus filhos que foram  e continuam  sendo explorados, os quais pedem clemência e justiça, pois sendo de todos e para todos, a Terra deve ser respeitada e vista em função  de um desenvolvimento benéfico, que promova a sustentabilidade e o bem comum.

No que diz respeito à poluição, o Papa lembra que ela é resultado da mentalidade do fácil acesso aos bens e da cultura do descarte que,  além de poluir, colabora para que a Terra, nossa Casa Comum, se transforme cada vez mais num imenso depósito de lixo. A falta de uma cultura voltada para o bem comum faz com que as pessoas efetuem seus descartes sem responsabilidade, deixando seus lixos nas ruas, nos terrenos vazios, nos riachos e na natureza. Além dos resíduos domésticos  há os  comerciais, os clínicos, os eletrônicos e os  industriais, que podem ser tóxicos e/ou radioativos e produzirem um efeito de bioacumulação nos organismos dos moradores de áreas limítrofes. E junta-se a isso, os poluentes atmosféricos causados pelo transporte, pelas descargas de substâncias que contribuem para a acidificação do solo e da água, pelos fertilizantes, inseticidas, fungicidas, pesticidas e agrotóxicos em geral que, ao serem inalados, produzem efeitos maléficos à saúde, particularmente dos mais pobres, provocando milhões de mortes prematuras.

Quanto ao clima, o Papa lembra que, ao queimar as fontes de energias fósseis (carvão, petróleo, gás), a indústria produtivapapa-franciscolibera cada vez  mais o gás carbônico na forma de dióxido de carbono, que ao se juntar com outros gases, na atmosfera, como o gas metano e o óxido nitroso, produzem poluentes gasosos que comprometem o equilíbrio natural. Eles diminuem a capacidade dos seres vivos de absorverem gases saudáveis e comprometem a quantidade de gases que retem o calor da atmosfera. Além disso, isso provoca o aumento da temperatura da Terra e as mudanças climáticas como: a poluição do ar, as secas e estiagens, as chuvas abundantes com enchentes, as inundações e deslizamentos de terra, os furacões, as ondas de calor intensas, o derretimento de gelo das calotas polares, o aumento no nível da água dos oceanos, a desertificação, as queimadas e os incêndios florestais etc. Considerando que também outros fatores, como: vulcanismo, ciclo solar, variações da órbita e do eixo terrestre, têm contribuído para o aumento da temperatura global, estudos científicos indicam que a maior parte do aquecimento das últimas décadas é devido à alta concentração de gases com efeito de estufa, emitidos sobretudo por causa da atividade humana, principalmente pelo desflorestamento para finalidade agrícola.

Essas mudanças climáticas são um problema global, com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas e, atualmente, constituem um dos maiores desafios para a humanidade, e provavelmente, seus impactos recairão nas próximas décadas sobre os países em vias de desenvolvimento. Elas afetam a vida de muitas pessoas, cujos meios de subsistência como a agricultura, a pesca e a caça dependem, exclusivamente, das reservas naturais, pois animais e vegetais nem sempre conseguem adaptar-se a grandes mudanças e, geralmente, são condenados à extinção afetando os recursos produtivos dos mais pobres dessas regiões afetadas, que migram com grande incerteza quanto ao futuro da sua vida e dos seus filhos. A temperatura da Terra já está com um grau acima daquela do período pré-industrial, por isso o acordo da 21ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, de Paris (Dez 2015), COP 21, chegou a um consenso entre as 192 nações de fazer de tudo para não ultrapassar dois graus na temperatura mundial. Isso significa que será preciso esforços de cada nação, e entre seus governos, para controlar o aumento da temperatura média, contribuindo com ações mais efetivas no enfrentamento das causas.

laudato 22O terceiro ponto abordado pela encíclica é a séria questão da água e a sua qualidade disponível aos mais pobres, que frequentemente são acometidos por doenças relacionadas a ela. Esse foi o foco da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016 (Casa Comum: nossa responsabilidade”: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” Am 5,24) que abordou o tema do saneamento básico. A água potável, fruto da obra perfeita de Deus, sempre esteve disponível para o consumo de toda a humanidade, porém, devido à falta de respeito do homem com a natureza, que contaminou as nascentes e rios, e a alteração no ciclo das águas causada pelas mudanças climáticas,  atualmente, em muitos lugares, a procura de água excede a oferta, e traz graves consequências. Grandes cidades sofrem a falta de água e, além disso, sua escassez provoca o aumento no custo dos alimentos e de vários produtos que dependem de seu consumo. Em alguns lugares, cresce a tendência para se privatizar esse recurso natural, tornando-o uma mercadoria sujeita às leis do mercado. O Papa Francisco lembra, profeticamente, que o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, e que o clima é um bem comum, um bem de todos e para todos, e que ambos proporcionam condições essenciais para a vida.

Toda essas realidades levantadas na LS, pelo Papa Francisco, causam inquietação, e exige de todos uma tomada de consciência, do quanto cada um deve assumir para si, não só espiritualmente como também na prática, a responsabilidade  pessoal daquilo que acontece ao mundo, pois cada um, não só pode como deve fazer a sua parte, conscientizar-se e ajudar os outros a serem melhores no que diz respeito ao cuidado com a Casa Comum, no seu meio e junto aos seus.

É preciso ouvir o clamor da Mãe Terra, junto ao clamor dos seus filhos e filhas, que estão sofrendo com os impactos climáticos e ambientais mais evidentes como: dos povos que estão perdendo o seu território com o aumento do nível do mar, como é o caso de países constituídos em ilhas; dos que veem desaparecer rapidamente geleiras e neves nos altos das cordilheiras, como é o caso dos povos dos Andes, na América do Sul; dos migrantes refugiados, pela destruição de suas cidades, pela guerra de poderes; dos novos migrantes climáticos devido às secas prolongadas e desertificação, procurando lugar para viver com mínima dignidade; das pessoas que vivem em áreas de risco nas cidades, para onde foram empurradas pelos grileiros, grandes proprietários, donos de agronegócios;  das comunidades inteiras de indígenas do Peru ao Brasil, dizimadas por doenças e pelo desmatamento, com tribos prestes a desaparecer frente ao avanço do capital e da mercantilização da vida; dos que sofrem ou morrem pelas ondas de calor, como na Índia e no Oriente Médio (Irã e Iraque); do povo brasileiro, com as fortes estiagens no Sudeste e as piores secas no Nordeste. E ainda, as vítimas da corrupção e da violência ligadas ao progresso assentado no produtivismo, na exploração da Amazônia, na mineração indiscriminada, na construção das hidrelétricas que expulsa os ribeirinhos, de barragens improvisadas  (caso de Mariana-MG); tudo isso contribuindo para a destruição da ordem e da harmonia na criação e da integridade da casa comum, instalando o colapso ambiental.

Na LS, a humanidade é chamada a reconhecer que é parte da família universal e a viver em comunidade com nossa Mãe Terra. Cabe aos seres humanos tomarem consciência da necessidade de mudança nos estilos de vida, nas formas de  produzir e de consumir, para combater praticas que produzem o aquecimento  e, repensar o custo desse progresso sob o qual vivemos, bem como as empresas que lucram com isso. O sistema industrial de produção e consumo precisa adotar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos e para as gerações futuras. Isso exige limitar o uso de recursos não renováveis, moderando o consumo, maximizando o aproveitamento, reutilizando e reciclando materiais. Torna-se urgente o desenvolvimento de políticas capazes de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE), substituindo os combustíveis fósseis por fontes alternativas de energia renováveis como a solar, a eólica, do movimento das águas, dos lixos e resíduos orgânicos (biomassa).

Reflete sobre a comunicação pela ação litúrgica.
Reflete sobre a comunicação pela ação litúrgica.

Segundo a Carta da Terra: é preciso reduzir, reusar e reciclar, reflorestar, respeitar e rejeitar o apelo ao consumo e tudo que possa poluir o ar a fim de impedir o aquecimento global, afinal toda a comunidade de vida deve ser “cuidada com compreensão, compaixão e amor” (Carta da Terra 1,2), afinal, “as gerações que nos sucederão têm o direito a receber um mundo habitável e não um planeta de ar contaminado” (Documento da Conferência de Aparecida,n.471).

 

 Para Refletir:

  1. Que sinais de desequilíbrio a Mãe Terra está emitindo nos dias de hoje?
  2. De que forma a reflexão sobre o aquecimento global e a questão da água apresentadas pelo Papa Francisco contribuem para o cuidado da “Casa Comum”?

Orientações para a Interação:

a) Você poderá  discutir este texto, com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários logo abaixo deste texto.

Aguarde a publicação da próxima ficha:                       A insustentabilidade do atual modelo de desenvolvimento (LS3).

Ao fazer uso deste texto, favor citar a fonte:  

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