Primeira Carta aos Tessalonicenses –

Anunciar o evangelho e doar a própria vida (1Ts 2,8) – Introdução à primeira carta aos Tessalonicenses

Por Maria Antônia Marques

Introdução

Na primeira carta aos Tessalonicenses, há expressões afetuosas, como a ternura de uma mãe “acariciando os filhos” (1Ts 2,7) ou: “Tratamos cada um de vocês como um pai trata seus filhos” (1Ts 2,11b). Impedidos de estar com a comunidade, os missionários afirmam: “Quanto a nós, irmãos, por algum tempo estivemos de vista separados de vocês, mas não de coração, e redobramos nossos esforços pelo ardente desejo de vê-los novamente” (1Ts 2,17).

Como mãe, pai e irmão, Paulo e seus colaboradores expressam forte laço familiar com a comunidade, sobretudo na primeira parte da carta (1Ts 1-3). Na segunda parte (1Ts 4-5), há orientações, palavras de encorajamento e exortações (1Ts 4-5): “Irmãos, nós lhes pedimos e encorajamos no Senhor Jesus: vocês aprenderam de nós como devem viver para agradar a Deus. Vocês já vivem assim, mas devem continuar progredindo” (1Ts 4,1); “Nós, que somos do dia, fiquemos sóbrios, revestindo a armadura da fé e do amor, e o capacete da esperança da salvação” (1Ts 5,8).

Contexto

É uma carta repleta de amor, alegria, preo­cupação e exortação! Considerando o contexto no qual a carta surgiu, compreende-se o imenso desejo dos missionários de estar com seus fiéis para “acariciar” e “encorajar”. Expulsos de Filipos, na Macedônia, por causa da perseguição da autoridade romana (1Ts 2,2), Paulo e Silas (Silvano) dirigiram-se à cidade de Tessalônica, capital da província, onde fundaram a comunidade. Aí também eles foram perseguidos, tendo de partir para Bereia, onde novamente foram ameaçados.

A perseguição só parou quando deixaram a Macedônia e chegaram a Atenas, província da Acaia, outra jurisdição romana. Em Atenas, Paulo enviou seu fiel colaborador Timóteo para verificar a situação da comunidade de Tessalônica. De volta, Timóteo encontrou Paulo em Corinto, dando-lhe a boa notícia da perseverança da comunidade e falando-lhe também sobre a tribulação e os problemas do cotidiano: “É que vocês se tornaram imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações” (1Ts 1,6).

As tribulações eram inevitáveis! Ao anunciar o evangelho de Jesus crucificado como Messias e salvador, Paulo e seus seguidores ameaçavam a sociedade escravagista, controlada pela força do império romano com a figura poderosa do imperador, messias e salvador: “O nosso evangelho não chegou a vocês apenas com palavras, mas também com poder, com o Espírito Santo, e com toda a convicção” (1Ts 1,5). No mundo escravista, o evangelho teve o poder de formar a comunidade na liberdade, na igualdade e na fraternidade. O evangelho de Jesus crucificado estava na contramão da proposta do império romano. Daí a perseguição!

A perseguição atingiu duramente Paulo, seus colaboradores e a comunidade, cujas vidas já eram bastante sofridas: a maioria dos membros da comunidade cristã de Tessalônica, como a de Corinto, era constituída por escravos. Trabalhadores braçais sem direito a cidadania, sofriam muito mais com a exploração, a violência e a humilhação: “Passamos fome e sede, estamos malvestidos, somos maltratados, não temos morada certa, e nos cansamos trabalhando com as próprias mãos” (1Cor 4,11-12; cf. 1Ts 2,9). Uma vida ameaçada! Por isso, é muito compreensível que a comunidade de Tessalônica esperasse ansiosamente pela vinda do Senhor Jesus, o dia da salvação: “Quanto a datas e momentos, irmãos, não é necessário escrever-lhes. Pois vocês sabem muito bem que o Dia do Senhor virá como ladrão à noite” (1Ts 5,1).

A vida ameaçada também faz parte da rea­lidade que experimentamos em nossa sociedade. Basta recordar algumas notícias nos meios de comunicação: “6 homens têm a mesma riqueza que 100 milhões de brasileiros juntos”; “Desemprego no Brasil atinge mais de 12 milhões”; “Dos 5 milhões de estabelecimentos rurais, a metade possui menos de 10 hectares, numa área de aproximadamente 7,9 milhões de hectares. Já os 37 maiores latifúndios possuem juntos 8,3 milhões de hectares”; “Hoje, no Brasil, temos 60 milhões de pobres e outros tantos milhões abaixo da linha de indigência”; “Onda de violência gera morte dentro e fora de presídios”; “A operação Lava Jato: fraude e corrupção na administração política”; “Desastre ambiental da Samarco”, entre tantas outras.

Má distribuição de renda, concentração da terra, desemprego, corrupção, violência, desastre ambiental, pobreza, fome, doença e morte ameaçam a vida cotidiana das pessoas. Como no tempo de Paulo, os poderosos de hoje, com sua ganância e ambição, sacrificam a vida humana e a mãe natureza: “Pois bem, sabemos que a criação inteira geme e sofre até agora com dores de parto” (Rm 8,22).

Com afeto e preocupação, Paulo e seus colaboradores escreveram a primeira carta aos Tessalonicenses, para encorajar e orientar a comunidade que estava ameaçada: “Sem cessar, lembramos a obra da fé, o esforço do amor e a constância da esperança que vocês têm no Senhor nosso Jesus Cristo, diante de Deus nosso Pai” (1Ts 1,3). É necessário fortalecer a perseverança da comunidade com a fé ativa, o amor fraterno e a esperança teimosa, como motor na caminhada, rumo à realização do projeto de Jesus crucificado e ressuscitado: para que nele nossos povos tenham vida. Junto com Paulo e seus companheiros, vamos colocar nossos pés na cidade de Tessalônica.

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