Apresentando a Encíclica “Laudato Si” (LS1)

A Encíclica “Laudato Si” (LS), do Papa Francisco, aborda o importante e complexo assunto da Ecologia, e foi dirigida a cada pessoa que habita o nosso planeta. Ela tem como objetivo recolocar tal debate no magistério eclesial e explicitar às “pessoas de boa vontade” que a Igreja se preocupa com todas as dimensões da vida e compartilha das angustias e tristezas presentes no mundo hodierno (GS); Para suscitar o estudo e entendimento deste documento o blog cmliturgo em parceria com a faculdade de Belo Horizonte, coloca a disposição as fichas de estudo sobre o tema. Aguardamos os seus omentários!

laudato_si A Encíclica “Laudato Si” (LS), do Papa Francisco, publicada em 25 de maio de 2015, aborda o importante e complexo assunto da Ecologia, e foi dirigida não só aos católicos, mas a cada pessoa que habita o nosso planeta. Ela tem como objetivo recolocar tal debate no magistério eclesial e explicitar às “pessoas de boa vontade” que a Igreja se preocupa com todas as dimensões da vida e compartilha das angustias e tristezas presentes no mundo hodierno (GS); especialmente aquelas que decorrem do desequilíbrio da natureza criada por Deus, tão ricamente apresentada no livro do Gênesis. Mais que isso, na mesma dinâmica do Jubileu da Misericórdia, a Encíclica faz uma profissão de fé plena de esperança nas infinitas capacidades da criatura humana que, se assim o desejar, pode reconstruir o mundo que sistematicamente tem destruído.

A preocupação com o meio ambiente há muito tempo está na pauta de vários documentos, mensagens e discursos pontifícios. Embora ainda num contexto religioso, ela aparece num discurso do Papa Pio XII a agricultores italianos em 1946 e depois em algumas de suas rádio mensagens. Paulo VI a retoma em várias ocasiões na perspectiva da justiça social e a partir de João Paulo II ela aparece com mais ênfase no seio da Igreja, até obter sua especificidade no Compêndio da Doutrina Social da Igreja (CDSI), publicado em 2004, no capítulo décimo denominado Salvaguardar o
Ambiente.
Nessa época a preocupação ambiental já encontrava ressonância no mundo secular com as discussões promovidas pela ONU sobre a Ecologia, na segunda Conferência das Nações Unidas (1992) sobre o Ambiente e o Desenvolvimento, também conhecida como “Cúpula da Terra” ou “Eco-
92”, realizada no Rio de Janeiro, e que teve como objetivo despertar a sociedade para os graves problemas causados pelo homem ao meio ambiente. Mais recentemente, em 2012, conhecida como “Rio +20”, a Conferência das Nações Unidas discutiu sobre o “Desenvolvimento Sustentável”, e em 2015, a “Conferência das Partes” “COP-21” discutiu sobre as mudanças climáticas. Isso vem mostrar a preocupação com o tema que o Papa Francisco retoma e desenvolve numa das mais relevantes
Encíclicas dos últimos tempos, a ponto de ser considerado um dos grandes interlocutores mundiais nos debates sobre as questões ambientais. Ainda que o Papa não tenha se apresentado como um expert, contou com a colaboração de eminentes cientistas e excelentes conhecedores do assunto, que o ajudaram a produzir um texto muito profundo sobre a relação entre os pobres e a fragilidade do planeta; a convicção de que tudo está interligado no mundo; a busca de novos meios para entender a economia e o progresso; o valor do ser humano no mundo; o sentido humano da ecologia; a crítica à cultura do descarte, entre outros temas que têm despertado o interesse de muitos que acreditam na construção de um mundo mais justo e solidário.
Na Encíclica LS, o papa Francisco explicita, de um modo mais amplo e profundo, sobre a responsabilidade de todos em cuidar da integridade da casa comum, e isso está no centro/âmago da mensagem cristã. Evangelizar é comprometer-se com a defesa e promoção da vida. Por extensão, cuidar do mundo, é cultivar posturas de cuidado, é cuidar do outro, sobretudo daqueles que mais precisam, daqueles que estão fragilizados e sofrem com as injustiças do mundo, os prediletos de
Deus. Cuidar é também um ato de louvor, pois quem cuida da Casa Comum, louva o criador e Senhor da vida. Sendo um documento eclesial, o Papa recorda os vários ensinamentos e as intervenções do Magistério eclesial católico sobre a questão ambiental, os ensinamentos dos últimos
papas e evoca os belos ensinamentos de São Francisco de Assis, sobre o cuidado, o amor e o respeito por tudo que existe, expressos no “Cântico das Criaturas”, o qual empresta o nome para a Encíclica.
laudato 22Sendo um homem do diálogo, o papa recorda o ensinamento em favor do meio ambiente do Patriarca ortodoxo Bartolomeu I, de Constantinopla, chamado de “patriarca verde” e a ação de tantos homens de bem, de várias religiões, que lutaram e ainda lutam, para que a Casa comum seja cuidada e preservada. E, sendo um bispo latino-americano, carrega em sua bagagem da vida, uma forte influência da teologia produzida nessa região que, desde a década de 1990, luta pela bandeira da preservação ambiental, defendendo a integração das ecologias ambiental, econômica e social.
A Encíclica LS contém seis capítulos que seguem a metodologia da teologia latino-americana do Ver-Julgar-Agir e Celebrar. No momento do ver, o papa apresenta a realidade dos problemas climáticos gerados pela aquecimento global; a crise hídrica e a poluição de nascentes e rios; o problema da perda ou destruição da biodiversidade causado pelo uso de defensivos agrícolas e pelo desmatamento indiscriminado, que comprometem a cadeia alimentar de várias espécies; pela pesca e pela caça predatórias; tudo contribuindo para degradar o meio ambiente e comprometer a qualidade de vida humana. Termina sua análise, manifestando seu estranhamento com o silêncio e/ou a indiferença de muitos, característica presente nas sociedades pós modernas.
O momento do julgar está dividido em três partes distintas: na primeira, o papa recorre à Sagrada Escritura, para destacar os textos que fazem alusão à obra da Criação e para refletir sobre o anúncio do Reino manifestado por Jesus e de seu convite aos discípulos missionários. Jesus é o Novo Adão
(Novo Homem) que reconstrói, com sua paixão-morte-ressurreição os laços que o pecado do velho homem rompeu. Jesus propõe o Reino como o novo Paraíso onde tudo era bom. Na segunda parte, recorre à tradição e ao magistério eclesial, recordando que a criação é um dom destinado ao bem comum e que, por isso, precisa ser preservado. Nessa parte do texto é possível verificar a influência da teologia franciscana, que enaltece o encontro com Deus através da natureza e de seus elementos, lembrando o que Santo Agostinho ensinou: que Deus teria escrito dois Livros, sendo que o primeiro deles foi a criação a natureza, a vida. Porque as pessoas não “souberam ler” a criação, o Livro da Vida, Deus inspirou os autores sagrados a escreverem o segundo Livro, a Bíblia, que narra a história
de amor de Deus pelo seu povo. Sem negar os tratados teológicos, o papa propõe a singeleza da prática cristã de Francisco, que sempre viveu  em harmonia com a natureza e chamou cada elemento de seu irmão e sua irmã. Finalmente, na terceira parte, analisa os sintomas que ele classificou como a raiz humana da crise socioambiental. Segundo ele, a globalização impôs a técnica como um novo paradigma que compromete a defesa da vida; e a a sociedade atual vive uma crise do antropocentrismo, ao entender que o homem moderno se acha altamente capaz de tudo, inventar e criar, e ao mesmo tempo se mostra frágil e incapacitado para superar conflitos advindos das relações humanas, principalmente aqueles fundamentados em relações de poder. Concluindo o julgar, apresenta o desafio de construirmos o que ele denominou de Ecologia Integral, que ultrapasse a mera conservação das espécies em extinção, e englobe todas as dimensões do viver humano: a economia, a política, a sociabilidade, a cultura e a justiça.
No momento do agir, o papa elenca uma série de orientações para o agir nos níveis pessoal, comunitário, nacional e internacional, destacando a importância do diálogo e da transparência na sociedade, buscando soluções que envolvam o bem comum. Nessa dinâmica, o Papa destaca a
importância das religiões e da educação na construção de novas sociedades, especialmente no que diz respeito ao diálogo com as ciências.
Na reflexão desse tópico é bastante conveniente refletir sobre as alternativas que inúmeros grupos e organizações têm sugerido na linha de desenvolvimento sustentável, que e insira o homem a partir de uma concepção de mundo biocêntrica e holística, e de uma economia solidária que vise o desenvolvimento e a integração social e respeite os ciclos da
natureza. O contato com essas experiências demonstram que a construção de outro mundo que seja includente e respeite o meio ambiente não só é possível, como viável economicamente.
No último momento, do celebrar, o papa lembra a importância da espiritualidade na vida humana, marcada por uma real conversão e por novas atitudes sociais e pessoais, que apontem para outro estilo de vida. Ela reconstrói os laços das criaturas com seu criador, revelando ao homem sua incompletude e a necessária busca do outro. Tal espiritualidade aponta que o ser humano é parte da natureza e não senhor e dono, pois dela depende a vida humana. Essa espiritualidade terá, portanto, a missão de reconstruir os laços entre a humanidade e o ambiente.
Seguindo o texto da Exortação Apostólica Evangelli Gaudium (EG), retoma os valores simples e fundamentais da relação do homem consigo mesmo, com os outros, com a sociedade e com a natureza, na construção da civilização do amor, características presentes nos pobres de Deus, não simplesmente pelo estado da pobreza, mas da bem-aventurança porque confiam única e exclusivamente no Senhor. Trata-se, portanto, de um nova proposta de olhar a vida com os olhos do Criador, o que ele denomina de “conversão ecológica”, e que contribui para a formação de uma nova consciência de cidadão e de cristão.
Esta vivência, no âmbito da comunidade eclesial, se torna sinal da Trindade, da comunhão perfeita entre aqueles que acreditam num mundo mais justo, como sinal do Reino definitivo que busca recompor a criação. Nela, a vivência dos Sacramentos, especialmente a Comunhão, nos une ao
Criador e dá a certeza da presença bondosa e amorosa de Jesus Cristo que se entregou na Cruz para salvar a todos, e manifesta a misericórdia do Pastor que vai atrás da ovelha perdida, ou do Pai misericordioso que acolhe o filho pródigo arrependido.
Este é o desafio proposto aos Discípulos de Jesus, de serem alegres testemunhas e anunciadores da Boa Nova do Reino de Deus a todas as criaturas que compõem o mundo (Mc 16,15-20). Alegres como Maria, a “Rainha da Criação” e primeira evangelizadora, no seu canto de louvor ao criador, agradecida por ter sido escolhida para trazer ao mundo o autor da vida, o Verbo de Deus. Por tudo isso, o Papa conclama o mundo “a um debate que una a todos, porque o desafio ambiental que vivemos, e as suas raízes humanas dizem respeito e tem impacto sobre todos nós”… “Espero que esta Carta Encíclica, que se insere no Magistério Social da Igreja, nos ajude a reconhecer a grandeza, a urgência e a beleza do desafio que temos pela frente”. (LSs 14, 15).
Que a reflexão proposta nas Fichas de Estudo seja momento para louvarmos e agradecermos pela vida, o maior dom de Deus e assim podermos, como Francisco de Assis, no Cântico do Irmão Sol, cantar “Louvado Seja, meu Senhor…”.
Para Refletir
1) Qual a importância da reflexão sobre a Ecologia na Evangelização?
2) Que perspectivas podem emergir para práticas pastorais mais ecológicas?
Orientações para a Interação:
a) Você poderá discutir este texto, com seus amigos na comunidade.
b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários do texto publicado.

Aguarde a publicação da próxima ficha:  O clamor da mãe Terra (LS2)

OBS: Ao fazer uso deste texto, favor citar a fonte.

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