Primeira Carta aos Tessalonicenses –

Anunciar o evangelho e doar a própria vida (1Ts 2,8) – Introdução à primeira carta aos Tessalonicenses

Por Maria Antônia Marques

Introdução

Na primeira carta aos Tessalonicenses, há expressões afetuosas, como a ternura de uma mãe “acariciando os filhos” (1Ts 2,7) ou: “Tratamos cada um de vocês como um pai trata seus filhos” (1Ts 2,11b). Impedidos de estar com a comunidade, os missionários afirmam: “Quanto a nós, irmãos, por algum tempo estivemos de vista separados de vocês, mas não de coração, e redobramos nossos esforços pelo ardente desejo de vê-los novamente” (1Ts 2,17).

Como mãe, pai e irmão, Paulo e seus colaboradores expressam forte laço familiar com a comunidade, sobretudo na primeira parte da carta (1Ts 1-3). Na segunda parte (1Ts 4-5), há orientações, palavras de encorajamento e exortações (1Ts 4-5): “Irmãos, nós lhes pedimos e encorajamos no Senhor Jesus: vocês aprenderam de nós como devem viver para agradar a Deus. Vocês já vivem assim, mas devem continuar progredindo” (1Ts 4,1); “Nós, que somos do dia, fiquemos sóbrios, revestindo a armadura da fé e do amor, e o capacete da esperança da salvação” (1Ts 5,8).

Contexto

É uma carta repleta de amor, alegria, preo­cupação e exortação! Considerando o contexto no qual a carta surgiu, compreende-se o imenso desejo dos missionários de estar com seus fiéis para “acariciar” e “encorajar”. Expulsos de Filipos, na Macedônia, por causa da perseguição da autoridade romana (1Ts 2,2), Paulo e Silas (Silvano) dirigiram-se à cidade de Tessalônica, capital da província, onde fundaram a comunidade. Aí também eles foram perseguidos, tendo de partir para Bereia, onde novamente foram ameaçados.

A perseguição só parou quando deixaram a Macedônia e chegaram a Atenas, província da Acaia, outra jurisdição romana. Em Atenas, Paulo enviou seu fiel colaborador Timóteo para verificar a situação da comunidade de Tessalônica. De volta, Timóteo encontrou Paulo em Corinto, dando-lhe a boa notícia da perseverança da comunidade e falando-lhe também sobre a tribulação e os problemas do cotidiano: “É que vocês se tornaram imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações” (1Ts 1,6).

As tribulações eram inevitáveis! Ao anunciar o evangelho de Jesus crucificado como Messias e salvador, Paulo e seus seguidores ameaçavam a sociedade escravagista, controlada pela força do império romano com a figura poderosa do imperador, messias e salvador: “O nosso evangelho não chegou a vocês apenas com palavras, mas também com poder, com o Espírito Santo, e com toda a convicção” (1Ts 1,5). No mundo escravista, o evangelho teve o poder de formar a comunidade na liberdade, na igualdade e na fraternidade. O evangelho de Jesus crucificado estava na contramão da proposta do império romano. Daí a perseguição!

A perseguição atingiu duramente Paulo, seus colaboradores e a comunidade, cujas vidas já eram bastante sofridas: a maioria dos membros da comunidade cristã de Tessalônica, como a de Corinto, era constituída por escravos. Trabalhadores braçais sem direito a cidadania, sofriam muito mais com a exploração, a violência e a humilhação: “Passamos fome e sede, estamos malvestidos, somos maltratados, não temos morada certa, e nos cansamos trabalhando com as próprias mãos” (1Cor 4,11-12; cf. 1Ts 2,9). Uma vida ameaçada! Por isso, é muito compreensível que a comunidade de Tessalônica esperasse ansiosamente pela vinda do Senhor Jesus, o dia da salvação: “Quanto a datas e momentos, irmãos, não é necessário escrever-lhes. Pois vocês sabem muito bem que o Dia do Senhor virá como ladrão à noite” (1Ts 5,1).

A vida ameaçada também faz parte da rea­lidade que experimentamos em nossa sociedade. Basta recordar algumas notícias nos meios de comunicação: “6 homens têm a mesma riqueza que 100 milhões de brasileiros juntos”; “Desemprego no Brasil atinge mais de 12 milhões”; “Dos 5 milhões de estabelecimentos rurais, a metade possui menos de 10 hectares, numa área de aproximadamente 7,9 milhões de hectares. Já os 37 maiores latifúndios possuem juntos 8,3 milhões de hectares”; “Hoje, no Brasil, temos 60 milhões de pobres e outros tantos milhões abaixo da linha de indigência”; “Onda de violência gera morte dentro e fora de presídios”; “A operação Lava Jato: fraude e corrupção na administração política”; “Desastre ambiental da Samarco”, entre tantas outras.

Má distribuição de renda, concentração da terra, desemprego, corrupção, violência, desastre ambiental, pobreza, fome, doença e morte ameaçam a vida cotidiana das pessoas. Como no tempo de Paulo, os poderosos de hoje, com sua ganância e ambição, sacrificam a vida humana e a mãe natureza: “Pois bem, sabemos que a criação inteira geme e sofre até agora com dores de parto” (Rm 8,22).

Com afeto e preocupação, Paulo e seus colaboradores escreveram a primeira carta aos Tessalonicenses, para encorajar e orientar a comunidade que estava ameaçada: “Sem cessar, lembramos a obra da fé, o esforço do amor e a constância da esperança que vocês têm no Senhor nosso Jesus Cristo, diante de Deus nosso Pai” (1Ts 1,3). É necessário fortalecer a perseverança da comunidade com a fé ativa, o amor fraterno e a esperança teimosa, como motor na caminhada, rumo à realização do projeto de Jesus crucificado e ressuscitado: para que nele nossos povos tenham vida. Junto com Paulo e seus companheiros, vamos colocar nossos pés na cidade de Tessalônica.

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Um olhar para a cidade de Tessalônica Continue lendo “Primeira Carta aos Tessalonicenses –”

Celebrar o Mistério Eucaristíco – MISSA / Liturgia da Palavra

Neste segundo artigo sobre a Missa, escrito para o Jornal do Maranhão da Arquidiocese de São Luis(MA) refletimos e apresentamos os pontos principais da liturgia da Palavra.

Por: Diac. Carlos Magno Ericeira

Dando continuidade a nossa reflexão sobre a missa vamos abordar o que podemos dizer que é a segunda parte, liturgia da Palavra.

Mistagogia A missa é um encontro da Igreja com seu Deus e Pai, por Cristo no Espírito Santo. Em consequência disso a Palavra de Deus sempre terá lugar de destaque como parte integrante e indispensável na assembleia litúrgica.

Na missa a leitura da Bíblia se reveste de solenidade, pois acredi­tamos verdadeiramente que Deus nos fala. De nossa parte, devemos procurar acolher essa palavra como comunicação de vida. As Escrituras Sagradas não serão simplesmente lidas, mas proclamadas. Tudo devemos fazer para que essas sementes caiam na terra boa do nosso coração e produzam os frutos esperados.

As leituras tiradas da Bíblia para serem feitas durante a missa obedecem a um esquema previamente estudado[1]. Aos domingos são lidos três textos, com um salmo de resposta após a primeira leitura e uma aclamação antes do Evangelho. Percebe-se certa ligação temática entre a primeira leitura e o Evangelho; já a segunda leitura reforça aspectos práticos da vida do cristão e da comunidade.
Nos dias de semana são feitas apenas duas leituras e sem preocupação com temas, pelo menos no tempo chamado comum. Os textos são lidos numa ordem sequencial e a Igreja tem a intenção de que os principais livros da Bíblia e os Evangelhos sejam apresentados aos fiéis no decorrer de todo o ano litúrgico.

A liturgia da palavra divide-se em:

  • a) Entronização da Bíblia (facultativa)
  • b) Primeira Leitura (Na vigília pascal são sete e na vigília de pentecostes são até quatro com seus respectivos salmos)
  • c) Salmo responsorial
  • d) Segunda Leitura
  • e) Seqüência (facultativa no decorrer do ano, exceto Páscoa, Pentecostes e Corpus Christi)
  • f) Aclamação do Evangelho
  • g) Evangelho
  • h) Homilia
  • i) Profissão da fé (Símbolo – somente aos domingos, festas e solenidades)
  • j) Oração dos fiéis (ou da comunidade ou universal)

 

oferta-1-loja-virtualPara cada uma das subdivisões possíveis para a liturgia da palavra teríamos mais considerações a serem feitas, que podem e devem ser abordadas em outros artigos. Salientamos ao leitor os pontos principais e esperamos que este busque maior aprofundamento sobre as questões aqui abordadas.

No próximo artigo iremos comentar sobre a terceira parte da celebração, a liturgia Eucarística.

[1] A Igreja estabeleceu, para o Rito Romano, uma sequência de leituras bíblicas que se repetem a cada três anos, nos domingos e nas solenidades. As leituras desses dias são divididas em ano A, B e C. No ano A leem-se as leituras do Ev. de Mateus; no ano B, o de Marcos  e no ano C, o de Lucas . Já o Ev. de João  é reservado para as ocasiões especiais, principalmente as grandes Festas e Solenidades. Nos dias da semana do Tempo Comum, há leituras diferentes para os anos pares e para os anos ímpares, tirando o Evangelho, que se repete de ano a ano. Deste modo, os católicos, de três em três anos, se acompanharem a liturgia diária, terão lido quase toda a Bíblia.

Nota: Esta Matéria foi editada no Jornal do Maranhão, Ano XLVII- Nº83 – Setembro de 2016.

Catequese e Liturgia (02)

Neste artigo continuamos a meditação sobre Catequese e Liturgia – duas faces do mesmo mistério

Mistagogia 1. O Concílio Vaticano II e a catequese

O Concílio Vaticano II não tratou especificamente da Catequese, mas o pouco que disse foi suficiente para iluminar a sua caminhada até os dias atuais. O Decreto sobre a atividade missionária da Igreja, Ad Gentes, ressalta o grande valor da catequese na ação pastoral, dizendo que “o ofício dos catequistas assume máxima importância em nossos dias(…) diante da tarefa de evangelizar tantas multidões”…(17,914). Já o Decreto Christus Dominus, sobre a ação pastoral dos bispos, pede aos pastores que “Preocupem-se com a instrução catequética, que tem por fim tornar viva, explícita e operosa a fé ilustrada pela doutrina, seja administrada com diligente cuidado quer às crianças e adolescentes, quer aos jovens e mesmo adultos(…). Esta instrução se baseie na Sagrada Escritura, na Tradição, na Liturgia, no Magistério e na vida da Igreja”(14,1043).Em se tratando da necessária interação entre catequese e Liturgia, foi a Declaração sobre a Educação Cristã, intitulada Gravissimum Educationis, que mais claramente definiu o objetivo da catequese, ao afirmar que ela “ilumina e fortifica a fé, nutre a vida segundo o espírito de Cristo, leva a uma participação consciente e ativa no mistério litúrgico e desperta para a atividade apostólica”(4,1509).

2. Catequese Hoje

O papa João Paulo II escreveu um importante documento sobre a catequese, chamado Catechesi Tradendae, no qual afirma:  “A catequese está intrinsecamente ligada com toda a ação litúrgica e sacramental, porque é nos Sacramentos, e sobretudo na Eucaristia, que Cristo Jesus age em plenitude para a transformação dos homens.(…) A catequese leva necessariamente aos sacramentos da fé. Por outro lado, uma autêntica prática dos Sacramentos tem forçosamente um aspecto catequético. Por outras palavras, a vida sacramental se empobrece e bem depressa se torna um ritualismo oco, se ela não estiver fundada num conhecimento sério do que significam os sacramentos. E a catequese intelectualiza-se, se não haurir vida numa prática sacramental” (CT 23).

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3. O documento Catequese Renovada

Mas o grande marco na dimensão catequética, para nós, brasileiros, foi o documento 26 da CNBB, Catequese Renovada (CR). Seu impacto mudou a rota da caminhada da catequese, além de influenciar profundamente outras dimensões da pastoral da Igreja, tal foi o seu alcance. Dois números desse documento merecem destaque por refletirem a importante interação entre Catequese e Liturgia. No número 89 se lê: “Não só pela riqueza de seu conteúdo bíblico, mas pela sua natureza de síntese e cume de toda a vida cristã, a Liturgia é fonte inesgotável de Catequese. Nela se encontram a ação santificadora de Deus e a expressão orante da fé da comunidade.  As celebrações litúrgicas, com a riqueza de suas palavras e ações, mensagens e sinais, podem ser consideradas uma “catequese em ato”. Mas, por sua vez, para serem bem compreendidas e participadas, as celebrações litúrgicas ou sacramentais exigem uma catequese de preparação ou iniciação”. E o número posterior acrescenta: “A Liturgia, com sua peculiar organização do tempo (domingos, períodos litúrgicos como Advento, Natal, Quaresma, Páscoa, etc) pode e deve ser ocasião privilegiada de catequese, abrindo novas perspectivas para o crescimento da fé,  através das orações, reflexão, imitação dos santos, e descoberta não só intelectual, mas também sensível e estética dos valores e das expressões da vida cristã” (CR 90).

Artigo escrito pelo Pe. Vanildo de Paiva

Aguarde em breve iremos editar mais um artigo sobre este tema…. se você não leu o artigo nº I é só clicar aqui e prestigiar. 

Catequese e Liturgia (01)

Icone CatLitCatequese e Liturgia: duas faces do mesmo mistério

1. Um documento sobre Liturgia
Um dos documentos mais importantes do Concílio Vaticano II chama-se Sacrossanto Concílio (SC). Trata da Liturgia e foi a primeira Constituição a ser aprovada, praticamente por unanimidade, o que mostrou a urgência de mudanças nesse setor da ação da Igreja.
O ponto de partida está no resgate da centralidade do Mistério Pascal na ação litúrgica e sua prioridade sobre as exterioridades dos rituais e cerimônias. Em outras palavras, Jesus Cristo é recolocado como o centro de toda a vida cristã – e, por isso mesmo, da Liturgia – e como eixo da ação da Igreja, povo de Deus. Ele é a razão de ser do culto e da vida de todo fiel. Com Cristo, por Cristo e em Cristo, tudo adquire novo significado.

2. Celebrar os Sacramentos a partir de Jesus
Dessa visão cristocêntrica da Liturgia brota um sentido denso para a prática sacramental. Os sacramentos não podiam mais ser vistos simplesmente como remédios para situações emergenciais da vida do cristão, ou como mera conveniência social, mas como verdadeira participação da pessoa no Mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo, no qual ela também “morre e ressuscita” para uma vida nova. Infelizmente, muitos, ainda hoje, têm uma visão mágica dos sacramentos, o que denota uma deficiência na catequese de nosso povo.

Formação litúrgica sobre os livros liturgicos
Formação litúrgica 

3. A participação de todo o povo
Outra grande conquista dessa Constituição foi a participação plena, consciente e ativa de todo o povo nas celebrações litúrgicas (cf. SC 14). Foi dado por encerrado o tempo em que o povo “assistia” à missa, rezava o terço ou lia o livrinho devocional de “seu” santo favorito durante a celebração. Incentivou-se uma valorização dos ministérios diversos na Liturgia e se permitiu que cada povo pudesse celebrar usando a sua própria língua e costumes, e não mais o latim. Também há, nesse aspecto, muito por fazer, e a formação da assembléia celebrante, seja na catequese ou na própria liturgia.

4. O lugar da Palavra na vida cristã
A Palavra proclamada e explicada na Liturgia foi outro elemento que muito favoreceu esse resgate da tradição litúrgica. Não somente na celebração da missa, mas em todos os demais sacramentos, a Palavra constitui momento forte de aprofundamento da fé e de catequese do povo. Inclusive as celebrações da Palavra, permitidas e incentivadas pelo Concílio, vieram fortalecer a vida de tantas comunidades, muitas das quais não têm a oportunidade da presença do padre ou da Eucaristia. Vivem da Palavra de Deus!

5. Liturgia: fonte e ápice da vida cristã
A Igreja voltou seu olhar para a Liturgia, apontando-a como ponto de partida e ponto de chegada de toda a vida cristã (cf. SC 10). Desse modo, ela recuperou o seu posto de fonte da espiritualidade da Igreja e de “catecismo permanente”. A valorização do que se celebra – os mistérios da vida de Cristo e da vida do cristão – encontrou ênfase sobre o aparato externo dos ritos, já saturados pelo formalismo, preocupação com rubricas, alfaias e objetos litúrgicos luxuosos… Uma Liturgia mais vivencial, a partir da realidade do povo e menos instrumentalizada, que introduza o povo celebrante no profundo Mistério de Deus foi a grande proposta do Concílio!

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Artigo escrito por Pe. Vanildo de Paiva

Está reflexão continua, aguarde em breve editaremos um novo artigo sobre Catequese e Liturgia

Celebrar o Mistério Eucaristíco – MISSA / Ritos Iniciais

Por: Diac. Carlos Magno Ericeira

Muito embora o assunto que iremos abordar já seja de conhecimento da maioria, é conveniente retratá-lo para que se possa chegar aquela tão sonhada ação frutífera almejada pela liturgia, pois a “Liturgia é uma ação sagrada, através da qual, com ritos, na Igreja e pela Igreja, se exerce e prolonga a obra sacerdotal de Cristo, que tem por objetivos a santificação dos homens e a glorificação de Deus.” (SC 7).

capa do JM mês de agosto
capa do JM mês de agosto

O Rito romano é o rito mais difundido em todo o mundo católico, e geralmente mais conhecido, embora, existam vários outros ritos reconhecidos. A Missa (como costumamos intitular a celebração Eucarística) tem dois grandes momentos, a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística, precedidas por Ritos iniciais e seguidas pelos Ritos Finais; é regido pelo missal romano promulgado em 1970 e revisto em 1975 e 2002, fruto da reforma litúrgica do Concílio Ecumênico Vaticano II este livro na parte denominada Introdução Geral do Missal Romano (IGMR) traz as explicações e indicações (regras) para cada um dos momentos da celebração.
Interligadas entre si, com inicio e fim as partes acima sublinhadas formam a espinha dorsal deste momento celebrativo da comunidade cristã. Neste artigo de forma breve vamos voltar nossa atenção para os ritos iniciais, que tem como objetivo principal transformar indivíduos em povo celebrante, formar a assembleia orante, fazer com que as pessoas entrem no clima de celebração, corpo de Cristo animado pelo Espírito Santo, conduzindo a Assembleia Cristã a uma comunhão para ouvir e meditar a Palavra de Deus e celebrar e louvar o Memorial da nossa Salvação. Divide-se em:
 Monição
 Procissão e Canto de Entrada
 Beijo do altar
 Incensação do altar
 Saudação e Acolhida
 Ato Penitencial – Senhor tende piedade (Kyrie Eleison)
 Hino de Louvor (somente aos domingos, festas e solenidades, exceto na Quaresma e no Advento)
 Oração do dia (Oração coleta)

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Formada a assembleia que vai participar da missa, o presidente da celebração (um presbítero ou um bispo) dirige-se para o presbitério com os outros ministros e acólitos. Saúda o altar com a vénia, inicia com o Sinal da Cruz, segue-se o ato penitencial (na forma de confissão ou tríplice invocação a Cristo, Kyrie), em que todos os participantes pedem a Deus o perdão por seus pecados, para melhor celebrarem a Eucaristia.
Nos Domingos (exceto no Advento e na Quaresma) ,solenidades e festas, reza-se ou canta-se o Hino de Louvor (Glória a Deus nas Alturas). Por fim, o presidente convida todos à oração dizendo Oremos e diz a oração coleta pela qual apresenta a Deus todas as intenções do povo celebrante, e concluindo assim os ritos Iniciais.
No próximo artigo iremos comentar sobre a liturgia da Palavra.

(artigo publicado no Jornal do Maranhão Ano XLVII – Nº82 – agosto 2016 / arquidiocese de São Luis (MA)

CELEBRAR COM CRIANÇAS

Aqui refletimos sobre a inserção das crianças no ambiente religioso, especialmente o contexto celebrativo do mistério Pascal de Cristo.

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Diac. Carlos Magno de R. Ericeira

É responsabilidade do Pai, da mãe, do padrinho e da madrinha as primeiras experiências de fé das crianças, por isso a preocupação de realizar uma preparação, por mais breve que seja, para que estes se conscientizem de seu papel e responsabilidade na educação religiosa de seus filhos e afilhados. Este elo pelo qual geralmente a grande maioria das pessoas são iniciadas em uma experiência religiosa deve culminar em um ato celebrativo, seguindo o seu Mestre, que, “abraçando… abençoava” os pequeninos (Mc 10,16). A Igreja, portanto, tem o dever de cuidar das crianças, principalmente as batizadas para que cresçam em comunhão com Cristo e seus irmãos e não pode abandona-las em uma situação, entregues a si mesmas.

Cel. da Palavra com crianças
Cel. da Palavra com crianças

O Concílio Ecumênico Vaticano II que já na Constituição sobre a Sagrada Liturgia (SC) falara sobre a necessidade de uma adaptação da liturgia para os diversos grupos, após sua conclusão começou a considerar, com maior empenho, como as crianças poderiam participar mais facilmente da liturgia. Em 1973 foi aprovado um diretório para missas com crianças, levando em consideração os ecos das áreas de psicologia e pedagogia e os estudos e experiências de atividades e celebrações realizadas com jovens.

Após 4 décadas ainda se conhece pouco sobre este diretório que se desenvolve em três capítulos: 1º) como iniciar as crianças e prepará-las para a Eucaristia; 2º) como acolher as crianças nas celebrações com adultos; 3º) como conduzir  a celebração quando a missa tem na maioria crianças. É preciso criar condições para que as crianças vivam a sua fé. Como dissemos, a começar pelos pais, depois o ministro ordenado, presidentes de celebração, os catequistas, a comunidade.

Alguns pontos podemos e devemos considerar nesta área: a) Iniciar a criança no valor do silêncio, como momento precioso para acolher a palavra de vida; b) Introduzir a criança no canto; c) Valorizar a celebração da Palavra.
Por outro lado, o Diretório enfatiza também que a Catequese precisa ter também uma dimensão humana: aprender valores, saber conviver com os outros, agradecer, pedir perdão…. atitudes que também são exercitadas na celebração.

Inf. A Palavra Viva - ficha de estudo sobre a Cel. da Palavra de Deus.
Inf. A Palavra Viva – ficha de estudo sobre a Cel. da Palavra de Deus.

A participação deste público requer uma atenção especial, por isso eis algumas sugestões: EM CELEBRAÇÔES DE ADULTOS – 1. As crianças menores podem ser reunidas em um lugar próximo adequado e voltarem para a Bênção final; 2. Em outro local, as crianças participam de uma Liturgia da Palavra mais adequada e voltam para a Liturgia Eucarística ou 3. Dá-se atividades adequadas para a sua mais efetiva participação (ex. coleta, etc). Esta última tem se mostrado ser a mais adequada para a nossa realidade. EM CELEBRAÇÕES SOMENTE COM CRIANÇAS. 1- Evitar discursos e palavras rebuscadas e de difícil entendimento, buscar uma linguagem acessível a faixa etária da assembleia reunida; 2 – Os adultos presentes, estão ali para rezar junto com as crianças e não para fiscalizá-las. Celebrar com as crianças é ir com elas ao encontro do Senhor que nos reúne, nos revela, se nos oferta e se nos dá na Sagrada Comunhão; 3 – A música vocal e instrumental bem preparada e adaptada é de grande importância: a melodia não deve se sobrepor à letra, nem os instrumentos à voz, nem o coral à assembleia. Não basta assistir, é preciso participar, ou seja, fazer parte. O uso de imagens e símbolos visuais é também ponto de destaque, que precisam ser usados. Que nada se imponha, mas que esteja a serviço do essencial. O espaço também contribui para a melhor participação.

Com estas dicas e a partir da vivência de cada comunidade, aos poucos vai-se criando um espaço onde elas (as crianças) se identificam e sentem-se participantes do mistério celebrado de uma forma que só elas podem relatar.

Por Diac. Carlos Magno Ericeira

(Artigo publicado no Jornal do Maranhão, Ano XLVII - Nº 81 - Julho de 2016)

PENTECOSTES – renovação da confirmação

O Pe. Gregório Lutz, faz uma reflexão sobre a confirmação do Espírito como força renovadora em nossa vida e na Igreja Um convite para reacender a chama missionária adquirida no batismo.

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Gostamos de tudo que é novo.
A palavra  “novo” é como que uma força mágica. Tudo deve ser novo: O vestido e a camisa, a casa e o carro, até o sabor do café.  Nada se vende, se não é novo; pelo menos a embalagem deve ser nova. Também em outros campos da nossa vida, aquilo que é novo exerce uma atração fascinante: As novas descobertas, as novas conquistas no campo da ciência, da técnica, da medicina. Tudo deve renovar-se constantemente. A Igreja não é isenta desta euforia do novo: Renovação bíblica, renovação litúrgica, renovação carismática…
E esta tendência para tudo que é novo, não é recente, não é moderna. Lembremos só que Jesus selou com seu sangue um novo testamento, uma nova aliança; nós somos o novo Israel, o novo povo de Deus.
Na liturgia o desejo de renovação e a exortação para se renovar são fortes e frequentes. O sentido de toda ação litúrgica, de comemorar ou fazer memória, de atualizar ou tornar presente um fato histórico passado, não é no fundo também um renovar?
Mas, também num sentido explícito e formal a liturgia realiza e celebra renovação: Renovação das promessas batismais, especialmente na Vigília pascal: “Terminados os exercícios da Quaresma, renovemos as promessas do nosso batismo”. Na Missa do Crisma, o bispo se dirige aos presbíteros com estas palavras: “Filhos caríssimos,  … quereis renovar  as promessas que um dia fizestes perante o vosso bispo e o povo de Deus?” Sempre mais  entendem-se também os jubileus do casamento ou da profissão religiosa como renovação de um compromisso uma vez assumido. Que tudo isso é legítimo e de maneira alguma novidade, nos mostra a 2ª carta de São Paulo a Timóteo (1,6): “Eu te exorto a reavivar o dom de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos”.
Estas palavras, que evidentemente dizem respeito ao sacramento da ordem, poderiam ser literalmente  aplicadas também ao sacramento da Confirmação. Ora, que dia do ano seria mais indicado para tal renovação do sacramento da Confirmação do que a festa de Pentecostes? Sem dúvida, Pentecostes, a festa em que comemoramos a vinda do Espírito Santo sobre a Igreja nascente, se presta melhor do que qualquer outro dia para renovar também o dom do Espírito que nos foi dado no sacramento da Confirmação.
É claro que as formas desta renovação podem ser as mais diversas, desde um momento comemorativo dentro da missa festiva de Pentecostes ou numa hora do Ofício Divino, até uma celebração própria. Não existem limites para a criatividade dos que querem reavivar o grande Dom de Deus. O Lecionário da Missa nos abre profusamente o tesouro da Sagrada Escritura de textos sobre o Espírito Santo.
Como todas as renovações de um sacramento, também esta não se deve restringir à celebração litúrgica, mas devemos celebrar aquilo que estamos vivendo e a festa da renovação nos deve dar força para vivermos com novo fervor e mais intensidade a vida daquele Espírito que renova a face da terra.

(texto de autoria do Pe. Gregório Lutz)

   Perguntas para reflexão pessoal ou em grupo:
1. Como vivi minha confirmação desde que fui crismado?
2. Como posso renovar minha “vida no Espírito”?
3. Como e com que elementos rituais eu gostaria de celebrar a renovação do sacramento da Crisma que recebi?

Vestes Litúrgicas

  1. 1- História das vestes litúrgicas

1.1. Origem: as vestes civis do império romano. Até sec. V, os ministros celebravam com roupa civil, embora fosse domingueira (isto é importante teologicamente: não vem das vestes sacerdotais dos judeus usadas do templo).Quando a moda mudou com os bárbaros, a Igreja ficou com as mesmas; as tradicionais se tornam normativas ; houve muitas modificações, a seguir . A diferenciação se dá sobretudo entre os sec. IV e IX.

1.2- As vestes atuais vem de duas vestes romanas:                                                                                                        a) uma veste interior:  seja longa:   veste talar (talon) usada dentro de casa ou mesmo fora: vai dar na – veste talar; alva; batina.                                                             seja curta: até os joelhos com ou sem manga – vai dar na – dalmática e sobrepeliz (suprapelicia, roquete)

Veste liturgica

 

 

 

b) uma veste superior: manto vai dar na – casula e  capa

1.3- Vestes dos ministros inferiores: também tem tradição aí

a) AT: cantores: 2 Cr 20,21 – Séc. XIII cantores com capa pluvial com capuz    (cf. os corais de hoje.)

b) leitores alva – sobrepeliz

1.4- Brigas por causa de roupa: Altos e baixos na história:

– reforma protestante: os crentes, as seitas etc.

– Vaticano II : simplificação

1.5- Por quê as vestes mudam na história – Por causa de:

a) concepções doutrinais                                                                                (estatuto e função)

b) modificações rituais:                                                                                 (elevação do pão e do cálice)

c) moda: (os gostos mudam)

2 –As vestes dos ministros depois de Vaticano II :

Princípios e Normas (IGMR nº 297, 310; Cerimonial dos Bispos nº 56-67)

2.1 Princípios: duas razões principais

2.1.1. sinal da função exercida; a veste diversa distingue as funções diversas

2.1.2. arte: contribuir para a beleza da ação sagrada

2.2 A veste comum de todos;  a alva;

específica: padre: casula e estola; diácono: dalmática e estola a tiracolo; alva túnica demais ministros ( leitores) etc.: “os acólitos, leitores e demais ministros, em lugar da alva, podem usar outras vestimentas aprovadas”(CB 65)

“Os ministros inferiores ao diácono podem trajar alva ou outra veste legitimamente aprovada em cada região”(IGMR 301)

– só podem tomar lugar no presbitério “com vestes”

3. As Orientações da CNBB a respeito ( para celebrações da Palavra) CNBB, Doc. 52 série azul, nº 49

A diversidade de ministérios na celebração é significada exteriormente pela diversidade das vestes, que são sinais distintivos da função própria de cada ministro. Na celebração da Palavra podem-se adotar vestes litúrgicas confeccionadas segundo a sensibilidade e o estilo próprio das culturas locais. Por sua vez, a diversidade de cores tem por finalidade exprimir de modo mais eficaz, o caráter dos mistérios da fé que se celebram e o sentido da dinâmica da vida cristã ao longo do ano litúrgico.”

4. A experiência da Mustardinha: tradição romana e inculturação

A verdadeira tradição romana valoriza a dimensão ritual simbólica: a acentuação gestual, do ritual, que faz apelo a todos os sentidos: ouvir (Palavra, música, instrumentos) o ver (cores diversificadas, muitos ministros para muitas funções) o sentir (incenso) o agir: procissões diversas: entrada / Evangelho Ofertas Comunhão.

Na perspectiva da inculturação, valorizar a tradição romana inculturada levando em conta valores de origem africana. É preciso valorizar todas as culturas. Procuramos valorizar a cultura africana na estética : desenhos das grades, vestes e dança ( que integra as diversas culturas).

4.1. Padre: Túnica alva para o Padre de origem zairense segundo as cores litúrgicas.. Motivo: a alva-túnica do Brasil vinha sem as cores litúrgicas.

4.2. Ministros leigos: procuramos uma veste específica para leigos e leigas, e diferenciada segundo as funções de serviços: ministro da comunhão, animador (a), leitor -a, e demais (participantes da dança litúrgica, das ofertas) segundo a tradição romana ritual que valoriza os sinais e conforme as funções. Corresponde a dados de hoje como: Valorização do corpo, a volta ao sagrado e ao religioso.

Chegamos a um modelo que se insere na tradição das vestes romanas, (sobrepeliz amplo) as influencias nordeste as ( cf. batas do Ceará e da Bahia), Por questões econômicas: procuramos uma veste: igual para homem e mulher; e de tamanho único. É melhor quando a mulher usa saia bastante comprida em vez de calça; usa colares por cima da veste; Para o homem, manga curta ou comprida, gola da camisa por cima da veste. O lugar e as vestes dos ministros (extraído da ficha sobre os ministérios litúrgicos).

No presbitério tomam lugar os ministros ordenados, os ministros instituídos e os ministros leigos que servem ao altar ou aos ministros ordenados. Para estes são previstas vestes diferenciadas conforme a função exercida (IGMR2000 335). “A alva é a veste comum a todos os ministros ordenados e instituídos de qualquer grau”(IGMR2000 336). Para o sacerdote celebrante a veste própria é a casula sobre a alva e a estola ou a alva-casula; para o diácono a dalmática em celebrações mais solenes. Os acólitos, os leitores e os outros ministros leigos podem trajar alva ou outra veste legitimamente aprovada pela Conferência dos Bispos em cada região”(ibid. 339). No Brasil, há algum tempo, sentiu-se o desejo de que os ministros leitores, ministros da comunhão e outros ministros que servem ao altar e tomam lugar no santuário usassem uma veste adequada. Torna-se cada vez mais freqüente o uso de batas brancas com faixas coloridas ou inteiramente coloridas usadas por homens e mulheres ou mesmo crianças ao lado de alvas ou das tradicionais vestes dos “coroinhas”.

Os demais ministros que servem ao povo tomam lugar de acordo com a finalidade do seu ministério e não precisam usar vestes especiais. No entanto, é normal o uso de vestes adequadas específicas para o ministério da dança ou expressão corporal.

Documento 43

A pedido de Dom Clemente Isnard, então responsável pelo setor de Liturgia da CNBB, redator das Orientações pastorais sobre a celebração Eucarística, 2ª parte do Documento 43 série azul da CNBB Animação da vida litúrgica no Brasil (1989)

Conversas sobre o Ofício divino das Comunidades – V

Em continuidades a série de conversas sobre o Ofício Divino das Comunidades, desta vez destacamos a experiência na comunidade de Taizé.

A contribuição da Comunidade de Taizé

Nossa conversa sobre o Oficio Divino das Comunidades vai agora focar a atenção sobre a experiência de Taizé. Essa comunidade ecumênica tem participação fundamental na sua elaboração. As primeiras experiências de um oficio popular, realizadas no Brasil pelo Pe. Geraldo Leite, teve nela sua inspiração. Pe. Geraldo passou nove meses convivendo com a simplicidade e a beleza dos ofícios na comunidade de Taizé, (França), e foi esta experiência que o animou a começar, no Brasil, precisamente em Ponte dos Carvalhos, um Oficio Divino com o povo.

ODC
Ofício Divino das Comunidades

O Irmão Michel da Comunidade de Taizé, que viveu no Brasil e fundou uma comunidade, em Alagoinhas (BA), com sua longa trajetória de celebrar o oficio com o povo, participou do processo de elaboração do Oficio Divino das Comunidades, dando sua colaboração bem precisa e muito valiosa. Ambos já fizeram sua páscoa e participam do incessante louvor na casa do Pai, mas suas contribuições continuam vivas no Ofício Divino das Comunidades e, são transmitidas agora pelo irmão Bruno, da mesma comunidade de Alagoinhas. De modo muito sincero, ele diz: “não falo muito “. Mas suas respostas curtas dão o que pensar… Ousamos, comentá-las, para aprofundarmos a contribuição que ele oferece neste bate-papo. Em nossos comentários não queremos repetir simplesmente o que ele diz em suas breves respostas, mas refletir com ele alguns aspectos importantes sobre a prática do Oficio Divino das Comunidades.

(Para fins de distinção, transcrevemos as respostas de Frei Bruno, seguida pelo comentário, em itálico).

RL: Qual a contribuição da liturgia de Taizé na elaboração do Oficio Divino das Comunidades (ODC)?

Irmão Bruno: Como toda liturgia, o Oficio Divino é um corpo vivo. Veicula verdades perenes e circunstanciais. Necessita adaptar gênero literário e vocabulário para que as mentalidades do tempo presente possam se situar como realidade viva, corpo orante. Ir. Michel passou esta intuição.

— A intuição do Irmão Michel, segundo as palavras de Irmão Bruno, não se refere a um livro apenas, e ao que ele contém. Está falando da celebração, dos cantos, dos gestos, dos símbolos como o incenso, a música e o espaço com todos os elementos. Está falando das pessoas: as histórias que elas carregam, as situações que vivem, os sonhos que nutrem. O Oficio Divino das Comunidades como corpo vivo tem a ver com a Igreja, que é Corpo orante de Cristo ressuscitado, o vivente, que continua o seu louvor nas expressões particulares do Brasil com sua diversidade regional e traz para a celebração as suas feições mais próprias. Por sua qualidade de corpo, está ligado ao restante dos membros (ao nosso país com toda sua riqueza humana e à Igreja universal que abraça tudo o que traduz a fé).

RL: Os refrãos meditativos no Oficio Divino das Comunidades são amplamente utilizados. Como você avalia esta utilização?

Irmão Bruno: O Oficio Divino das Comunidades existe em várias versões: a edição básica e edições menores também para jovens, adolescentes e crianças, nas quais os mantras são muito valorizados… Estes refrãos meditativos cantados são da ordem da oração do coração. A contribuição de Taizé virou patrimônio de toda a Igreja. Taizé escolheu letras da Bíblia ou dos santos. Taizé não tem primazia, porém tem grande aceitação.

— “A ordem do coração” sobressai no texto do Irmão Bruno… Os mantras talvez exprimam esse segredo da comunidade de Taizé: pequenos textos cantados repetidamente, sem o muito falar das nossas celebrações. A circularidade do canto, a cadência, a palavra ressoada e o clima orante que se estabelece, conduz o corpo-Igreja para o coração do Mistério e para o íntimo das pessoas, fazendo todos e cada um experimentar a verdade da fé, na comunhão dos irmãos e irmãs e na própria experiência de Deus. Taizé aponta a direção do coração, lá onde os segredos se escondem e o mistério faz livre e gratuita morada. A ordem do coração supera as lógicas do raciocínio, da presunção, da oração orgulhosa que não agrada a Deus. A ordem do coração permanece na soleira do templo, onde o humilde se esvazia de si mesmo diante do mistério (Lc 18,9-14). A lógica do coração admite a ritualidade dos humildes, as palavras dos santos, pequenos trechos da Bíblia, em busca da “serena alegria”… É patrimônio da Igreja! Taizé deu ao Oficio Divino das Comunidades o que tinha de melhor: mais que os mantras e os seus cantos, deu o espírito de gratuidade na oração.

RL: Quais as semelhanças e diferenças entre os ofícios de Taizé e as celebrações do Oficio Divino das Comunidades?

Irmão Bruno: Pela sua natureza ecumênica, ladainhas e introduções, os dois ofícios são reflexo de catolicidade. Embora a estrutura seja, grosso modo, a mesma, Taizé não .coloca a memória do dia, porque salienta mais o lado da contemplação. Taizé privilegia o silêncio após a Palavra.

— Irmão Bruno indica outra maneira de entender a catolicidade: universalidade, O que é universal é de todos e não é propriedade de ninguém. No Oficio Divino das Comunidades, assim como nos ofícios de Taizé, o componente ecumênico da oração abraça o que é universal e o que escapa dos rótulos e partidarismos. As ladainhas e introduções (aberturas), por sua repetição e popularidade são acessíveis e encantam muito! O silêncio após a Palavra tem a primazia: espaço para deixar falar Aquele que é inominável. A memória do dia cede lugar à contemplação, com ênfase na oração pessoal dentro da oração comunitária. Não nega a importância da recordação da vida, tão valorizada no Oficio Divino das Comunidades, mas talvez mostra um lado desconhecido e temido pela nossa mentalidade religiosa ocidental. Em tempos de pós-modernidade, que tanto valoriza o sentir e o experimentar, é preciso redescobrir o caminho certo da experiência subjetiva como oportunidade de conduzir ao mistério de Cristo, enquanto experiência objetiva da fé.

RL: Qual a contribuição do ODC para a Igreja do Brasil

Irmão Bruno: Após o Concílio Vaticano II e a redescoberta da participação ativa do povo de Deus na liturgia, vejo o Oficio Divino das Comunidades como a resposta mais ajustada, principalmente pelos salmos e músicas (mérito de Jocy Rodrigues, Geraldo Leite, Reginaldo Veloso e outros).

— A participação dos fiéis, fruto do Movimento litúrgico que se afirma no Concílio, rompeu com séculos de separação e distanciamento entre o povo e a liturgia da Igreja. Embora estejamos longe de mensurar o seu alcance, poder participar das ações litúrgicas, ativamente e com conhecimento de causa, representa grande avanço. No Oficio Divino das Comunidades todos(as) cantam, todos(as) se elevam a Deus, todos(as) têm acesso à liturgia, o que faz dele uma resposta mais ajustada ao nosso mundo plural e com tanta diversidade…

RL: Quais elementos ecumênicos você destaca no ODC?

Irmão Bruno: O Oficio Divino das Comunidades não cuidou apenas dos aspectos ecumênicos, mas incorporou elementos que se referem ao macro-ecumenismo, como por exemplo, preces de outras tradições e religiões.

— De fato, no Oficio Divino das Comunidades os elementos ecumênicos se fazem presentes: a oração do Senhor em versão ecumênica, o sentido cristológico, trinitário e bíblico da oração, a inclusão de hinos de outras tradições cristãs e denominações, o cuidado e a opção pela linguagem inclusiva e popular. O irmão Bruno volta a atenção para o aspecto macro-ecumênico, também chamado hoje de “inter-religioso”. O Oficio Divino das Comunidades incorpora elementos religiosos de outras tradições; basta tomarmos como exemplo os ofícios para circunstâncias especiais, quando, diante de situações de fronteira e de limite, falam menos as diferenças e mais a busca pela vida, pela paz e pela sobrevivência. Tudo isso depõe a favor do Oficio Divino das Comunidades como oração de todos(as) e aberta a todos(as).

RL: A tradição monástica contribuiu para a liturgia do Oficio Divino das Comunidades? Como?

Irmão Bruno: As comunidades monásticas foram guardiãs desta tradição da Igreja ao longo dos séculos e mantiveram a forma mais primitiva da oração comunitária. O Oficio Divino das Comunidades não propõe ao povo todos os ofícios dos monges, mas as duas horas principais, como acontecia nas comunidades eclesiais dos primeiros séculos.

— O Irmão Bruno nos remete aos primórdios dos ofícios da Igreja: os ofícios monásticos e os ofícios de catedral. Os primeiros, com suas diversas horas, organizados para as comunidades de homens e mulheres com a vida dedicada e consagrada à oração. A segunda forma, os ofícios de catedral ou de paróquia, eram especialmente marcada pela oração da manhã e da tarde, com a presença de todo o povo de Deus: famílias, jovens e crianças, também os monges e monjas, presbíteros e bispo… Infelizmente, o segundo modelo praticamente se perdeu na Igreja ocidental, mas está renascendo com iniciativas como as de Taizé, desde o movimento litúrgico, e a Liturgia das Horas do Concílio Vaticano II, que em nossas comunidades chega na forma do Oficio Divino das Comunidades, onde o povo toma parte na oração em momentos especiais do dia, do ano litúrgico e de circunstâncias especiais.

 

 Fonte: Revista de Liturgia – 220 – Ano 37/2010

Conversa sobre o Ofício Divino das Comunidades – IV

Nossa entrevistada desta vez é Ione Buyst já bem conhecida de nossos/ as leitores/as. Tendo participado do processo de elaboração do Oficio das Comunidades deste os inícios, e tendo contribuído com a reflexão teológica a partir de sua prática, Ione enfatiza o Oficio Divino enquanto ação litúrgica, com sua dimensão simbólico-sacramental, como fonte de vida espiritual.

RL: O Oficio Divino das Comunidades (ODC) é uma rica experiência da Liturgia das Horas no Brasil. Esta experiência certamente é uma contribuição ímpar para a reforma da Liturgia. Quais aspectos você aponta como ganhos nesta caminhada?

Oficio Divino das comunidades
Oficio Divino das comunidades

Ione: O Concílio Vaticano II fez a chamada revolução copernicana da liturgia, em termos de eclesiologia, reafirmando claramente que as ações litúrgicas são ações da Igreja, povo santo e sacerdotal. Toda, a reforma conciliar tem este objetivo: possibilitar e facilitar a participação deste povo na liturgia. Finalmente, toda a liturgia, também a liturgia das horas, seria devolvida ao povo de Deus, para que através dela pudesse mergulhar no mistério de Cristo, viver na comunhão do Pai e do Filho e do Espírito Santo, como fermento, como sacramento de união de toda a humanidade. Então, o primeiro ganho que o Oficio Divino das Comunidades oferece à reforma da liturgia é de contribuir com uma liturgia das horas inculturada, mais próxima e ao alcance do povo brasileiro; desta forma possibilita que se realize a proposta do Vaticano II de restaurar a liturgia das horas como oração do povo de Deus, e não apenas do clero e de membros de congregações religiosas.

RL: Muitas pessoas alegam que o povo se alimenta das devoções e, por isso, não teria necessidade do ofício divino. O que pensar sobre isso?

Ione: De fato, a vida de oração do povo brasileiro continua sendo forjada e alimentada por inúmeras devoções mais do que pela palavra de Deus e pelas celebrações litúrgicas: novenas, vias-sacras, terço, procissões, romarias, cumprimento de promessas, adoração do Santíssimo, orações aos santos e santas…, porque foi isso que, desde a evangelização do continente, foi proposto e divulgado. A maioria dos católicos nunca ouviu falar de liturgia das horas, ou de ofício divino, como até algumas décadas atrás também não tinha acesso à Bíblia. No entanto, o povo de Deus tem direito a conhecer o oficio divino, como herança deixada por Jesus e pelas primeiras comunidades cristãs. Tem direito de se alimentar deste oficio que é pura palavra de Deus escutada e meditada.

Mas é preciso garantir que o ofício divino não venha a ser engolido ou absorvido na tendência devocional de se usar as práticas religiosas para obter de Deus bênçãos, curas e outros benefícios. Até mesmo a celebração eucarística corre este risco de ser vivida como devoção mais do que como sacramento. Daí a necessidade de uma boa formação bíblica, teológico-litúrgica e espiritual juntamente com a introdução pedagógica da prática do ofício, para que leve a uma participação consciente no mistério celebrado.

RL: É possível falar de sacramentalidade do ODC? Em que sentido?

Ione: Sem dúvida. Como liturgia das horas inculturada, o Ofício Divino das Comunidades é ação memorial, celebração da aliança de Deus com o seu povo, no ritmo antropológico de alternância entre o dia e a noite, que marca profundamente nossa existência. O sol que morre e ressuscita a cada dia torna-se no ofício divino símbolo de Cristo morto e ressuscitado, Sol da justiça, Sol que não tem ocaso, Luz do mundo, que orienta e ilumina diariamente nossa vida pessoal e social com seus altos e baixos, com seus êxitos e fracassos, com suas esperanças e desilusões, na saúde e na doença, nos momentos de alegria e de tristeza. O ofício acompanha também o ano litúrgico com a celebração de todos os mistérios do Senhor. Fazendo memória de Cristo, de sua morte e ressurreição, somos atingidos pela força transformadora de sua páscoa. Somos levados a fazer de nossa vida uma experiência pascal, a trazer sempre em nosso corpo a morte de Jesus para que também sua vida se manifeste em nossa carne mortal (SC 12, referindo-se a 2Cor 4,10-11), na expectativa do Dia sem fim, do Reino de Deus realizado em plenitude. E é bom lembrar que aí está a fonte da espiritualidade cristã: na participação no mistério de Cristo, a partir da participação na liturgia, a partir da experiência ritual.

RL: Poderíamos dizer que a espiritualidade tem forte relação também com a ritualidade?

Ione: Como toda a liturgia, o ofício divino é uma ação ritual e deve ser vivido como tal; não pode ficar reduzido a uma recitação rotineira e enfadonha de textos. A regra básica da Sacrosanctum Concilium vale também para a celebração do ofício divino: é preciso participar ativa, consciente, plena e frutuosamente. Costumamos falar de celebrar na inteireza do ser realizo as ações rituais com a plena atenção de meu corpo, de minha mente, de minha afetividade…, numa relação de comunhão com Deus, deixando que o Espírito atue em mim. E preciso aprender este jeito de celebrar que conjuga ritualidade e espiritualidade, oração pessoal e comunitária, tradição bíblico-litúrgica e piedade popular, num clima afetivo de comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs…, tão distante do formalismo e da sisudez de muitas liturgias realizadas com pressa, sem sabor e  aparentemente sem amor.

A Constituição do Concílio Vaticano II sobre a liturgia propôs a troca da recitação do breviário pela celebração da liturgia das horas. Porém, fora as comunidades monásticas e algumas congregações religiosas, seminários e casas de formação, a maioria dos usuários da liturgia das horas continuam o estilo do breviário: fazem simplesmente uma leitura de textos, e não uma celebração litúrgica. O Oficio Divino das Comunidades abre um caminho para superar esta grave limitação.

RL: Os elementos da Liturgia das Horas têm os salmos e cânticos como centro gravitacional. No Oficio Divino das Comunidades, como esses elementos são considerados?

Ione: O Oficio Divino das Comunidades oferece 110 salmos e 52 cânticos bíblicos do antigo e do novo testamento em linguagem poética e musical popular. São colocados no início do livro, deixando a cada comunidade ou grupo a liberdade de escolha, de acordo com o tempo disponível e o conhecimento da melodia; o livro oferece ao mesmo tempo indicações de salmos adequados a cada oficio e ainda uma tabela dos salmos seguindo a divisão do saltério em quatro semanas, conforme a Liturgia das Horas. Cada salmo e cântico vem introduzido por uma frase do Novo Testamento que ajuda a ligar o salmo com a experiência de Jesus e um pequeno texto que procura atualizar o salmo ou cântico (Cf. Introdução do livro, p. 12). Alguns salmos e cânticos trazem antífonas ou refrãos. O canto costuma ser acompanhado por instrumentos musicais: violão, pandeiro, tambor, atabaque, flauta, violino, teclado… de acordo com a possibilidade de cada grupo. Introduzimos o hábito de deixar um silêncio após cada salmo ou cântico para meditação pessoal ou para revolver no coração um ou outro verso que tocou mais; no final, várias pessoas dizem esta frase em voz alta, criando assim uma partilha espiritual. Um ou outro grupo aprendeu a fazer oração sálmica, mas o livro não oferece textos para isso. Nos encontros de formação, muitos grupos introduzem lectio divina (leitura orante) com um ou outro salmo ou cântico, para que se tornem mais conhecidos e possam ser saboreados e cantados com mais proveito espiritual.

Merece um destaque o salmo invitatorial inserido na abertura do oficio, que é feita em forma de repetição, facilitando a participação de todos e todas, sem ter necessidade de acompanhar no livro, o que deixa também a mente mais livre para a meditação. O cântico de Zacarias e o cântico de Maria vem muitas vezes acompanhados de leves movimentos de dança, reforçando seu teor festivo.

RL: Gostaria de lembrar outros elementos rituais importantes no Ofício Divino das Comunidades?

Ione: Os ofícios começam com um refrão meditativo (dos cantos de Taizé, ou outros do mesmo estilo), repetido várias vezes, e desembocando em silêncio, facilitando assim a concentração espiritual dos participantes.

Um outro elemento ritual novo, que vem logo depois da abertura, é a recordação da vida. Quem quiser poderá lembrar algum fato importante acontecido na cidade, na região, no mundo… Desta forma nossa oração fica conectada com a realidade, enquanto procuramos discernir nela os sinais dos tempos, sinais do Reino, sinais de morte e ressurreição, sinais do mistério pascal de Jesus Cristo acontecendo na história atual, nos fatos, nos acontecimentos pessoais e sociais. Esta relação da liturgia com a realidade expressa a dimensão profética da liturgia; une luta e louvor; culto e misericórdia; anuncia o mundo que há- de-vir; denuncia e exorciza o espírito do mundo. Expressa a Aliança com o Deus que faz opção pelos pobres e excluídos. E bem de acordo com a prática eclesial latino-americana; vem expressa nos documentos do magistério latino-americano (Medeilín, Puebla, Santo Domingo, Aparecida) e a encontramos resumida numa frase lapidar no documento 43 da CNBB: ‘Páscoa de Cristo na páscoa da gente, páscoa da gente na páscoa de Cristo’. (item 300). Os fatos citados no início do oficio nos acompanham como pano de fundo durante o canto do hino, dos salmos e cânticos bíblicos, durante a leitura bíblica… e podem ser retomados nas preces, como participação na intercessão de Cristo que acompanha com atenção a vida de todas as pessoas, de todos os povos, principalmente dos mais pobres. No oficio da tarde ou da noite, é proposta uma revisão de vida do dia que passou…: onde vimos a salvação acontecer? Onde impedimos a passagem de Deus no meio do povo?…

RL: Existem muitas publicações que acompanham o Oficio Divino. Nestas publicações, alguns elementos novos aparecem e outros são revistos, o que nos leva a pensar que o ODC está em processo evolutivo, ou de amadurecimento de sua proposta. Existem elementos a serem revistos?

 Ione: O Oficio Divino das Comunidades não é uma proposta fechada. Na medida em que se espalha pelo Brasil afora, vai dialogando com a riqueza das muitas tradições e grupos culturais do norte e do sul, do leste e do oeste, dos indígenas e afrodescendentes, de comunidades religiosas, de moradores de rua e de ribeirinhos, de jovens, adolescentes e crianças, grupos de catequese… Assim vão surgindo símbolos, gestos, vestes, novas melodias para as aberturas, para os hinos, salmos e cânticos… Costuma-se adaptar o tamanho do oficio às possibilidades e sensibilidades de cada grupo: mais curto ou mais ampliado. Há ainda a adaptação do oficio para determinadas ocasiões ou circunstâncias especiais, algumas já previstas no livro, outras surgindo de necessidades locais: encontros pastorais, romarias, colheitas, mutirões, bênção de uma casa, ocupações, encerramento da festa do padroeiro ou padroeira, celebração com enfermos… Certos grupos, na medida em que vão amadurecendo, procuram inserir outros elementos da liturgia das horas que não foram inicialmente previstos no Oficio Divino das Comunidades: mais antífonas e responsos, oração sálmica, leituras hagiográficas e patrísticas.

Fonte: Revista de Liturgia – Ano 37 – 219