Conversas sobre o Ofício Divino das Comunidades – III

Na série «Conversas sobre o ODC”, entrevistamos para este número, a agente de pastoral mineira, Sônia Rios, coordenadora da Comunidade do Divino Espírito Santo, membro da equipe de liturgia e participa da Rede Celebra, em Belo Horizonte. Ela relata a experiência mineira com o ODC.

Uma experiência em Belo Horizonte – MG

Continuando a série «Conversas sobre o ODC”, entrevistamos para este número, a agente de pastoral mineira, Sônia Rios. Ela foi coordenadora da Comunidade do Divino Espírito Santo, membro da equipe de liturgia e participa da Rede Celebra, em Belo Horizonte. Sônia nos relata a primeira experiência do ODC naquela arquidiocese e seu testemunho ressoa o que muitas comunidades que celebram o Oficio experimentam.

Entrevistas
Ofício Divino das Comunidades

RL: Quando foi que a Comunidade do Divino Espírito Santo começou a celebrar o ODC?

Sônia: Nossa Comunidade pertencia à Paróquia São Francisco, mas a distância era longa e tínhamos um obstáculo que era uma movimentada avenida de Belo Horizonte. Ela nos separava do restante da paróquia. O povo sentia muita falta de se reunir para celebrar a fé. De vez em quando, algum padre vinha celebrar conosco, mas ainda assim buscávamos um caminho… O ODC começou a ser celebrado em nossa comunidade no ano de 1992. Com a chegada das irmãzinhas de Jesus, de Foucault, começamos a reunir para a reza do oficio. Ele foi fundamental para assegurarmos nosso jeito próprio de celebrar e de viver a fé. O jeito de celebrar o Ofício influenciava inclusive nossas celebrações da Palavra e da Eucaristia: os cantos, a partilha, as preces, os serviços… Na época celebrávamos nas casas, pois ainda não tínhamos igreja. Tudo era muito familiar e informal. As pessoas pediam que fôssemos rezar em suas casas, tínhamos ensaios semanais para o Oficio e para o Dia do Senhor. Por ocasião de alguma necessidade como enterros, mutirões, bênçãos de casa e nas visitas aos doentes sempre fazíamos o oficio.

RL: Existe algum acontecimento especial que marca esta experiência do ODC em sua comunidade?

Sônia: Uma coisa bonita foi quando fizemos a filmagem do vídeo da Rede Celebra. Naquela ocasião descobrimos que mais gente rezava o oficio. Nos reunimos com o pessoal da paróquia São Francisco das Chagas e dos Sagrados Corações de um outro bairro. Preparamo-nos para os trabalhos de filmagem com ensaios e formação. Muita gente animada e comprometida se empenhou bastante, pois sabiam que era uma forma de ajudar outros a conhecer e a praticar a oração das horas. Uma trazia o forro mais bonito que tinha em casa para enfeitar a mesa. Outra trazia o antigo ferro à brasa para servir de braseiro do incenso. Tinha também quem trazia as flores, o incenso e as velas. Era tudo muito participado. Foi também um momento de parada para escutar o que o ODC significava na vida das pessoas: a reza em família, o encontro com a fé celebrada de forma viva na própria cultura, a força que brota da oração dos salmos nos momentos difíceis. A Palavra de Deus estava sendo cantada nos salmos, do jeito que a Igreja ensina e como a gente entende e gosta. Era a nossa música, os nossos gestos, os nossos símbolos. Essas coisas vieram à tona quando nos reunimos para fazer aquela gravação. O resultado foi aquele vídeo bonito que está espalhado pelo Brasil afora.

RL: Houve também dificuldades no percurso?

Sônia: Muitas! Às vezes, depois que construímos nossa Igreja, o pessoal nem sempre a encontrava aberta para a celebração. Na indecisão de saber para onde ir, por causa das distâncias, do horário e outros inconvenientes, as pessoas se assentavam no passeio e rezavam. Nada impedia a turma de fazer o oficio. Era ao mesmo tempo um prazer e um compromisso. Era uma vez por semana, mas era feito com gosto e com responsabilidade. Às vezes tinha só três pessoas. Mas elas não deixavam de rezar por isso. Outra dificuldade era lidar com pessoas que chegavam e não entendiam a importância de se rezar conforme o ODC nos propunha. Queriam inserir outros cantos, escolher salmos à revelia, inventar gestos. O pessoal resistiu muito a isso. Não por fechamento, mas por entender que o caminho era outro. Sem saber formular, a gente intuía que a questão era rezar com a Igreja, conforme a Tradição ensinou. Obedecer ao esquema do Oficio tinha o sentido de ouvir a voz de Jesus, na voz da comunidade. Por isso, as nossas preferências importavam menos. Eu interpreto assim… Quando faltava o violeiro, Sr. Jonas, o pessoal também ficava meio desanimado. Mas um padre, amigo nosso, disse que não tinha problema, pois ainda tínhamos o principal instrumento: a nossa voz. Tem também dificuldades econômicas. O livro está caro para as pessoas mais pobres. Nos aniversários a gente procura presentear com o Oficio, mas isso resolve pouco. Para ser mais das comunidades, precisaria também ser mais barato.

RL: Você disse que o ODC influenciou as celebrações da Comunidade do Divino? Como você percebe isso?

Sônia: De muitos modos. Primeiro, a gente passou a perceber que nem tudo precisa ser missa. Todos gostam da missa e a gente sabe que não se pode viver sem ela. A questão é que outras formas de celebrar da liturgia ficam obscurecidas e a missa, que deveria ser o ponto alto das nossas ações, inclusive litúrgicas, fica desvalorizada. Um exemplo são os tríduos da festa do Divino (Pentecostes). A gente introduziu em algum dos dias o Oficio. Isso já foi uma mudança significativa. Outra coisa importante que percebo é a valorização da Palavra de Deus. As pessoas escutam mais, aprendem que Deus está falando com a gente, mesmo na celebração da Palavra ou na missa dominical. Eu acho que isto é fruto do Oficio! Tem também os símbolos e os ritos. As pessoas gostam do incenso, dos gestos de se inclinar e levantar as mãos no “Glória ao Pai”, cumprimentar os irmãos e irmãs no convite da abertura. Também a novena da Arquidiocese, já por três anos, traz o esquema completo do Oficio da Novena de Natal. Já não é mais uma coisa estranha para nós, mas uma confirmação de que estamos no caminho certo.

RL: Existe alguma dificuldade entre a oração pessoal e a reza do Oficio?

Sõnia: Nenhuma dificuldade. No ofício a gente começa com oração pessoal, rezando em silêncio, para se preparar para a celebração. Muitos membros da comunidade rezam o oficio em casa, antes de dormir, ou no amanhecer. Dona Odete rezava com suas netas. As crianças adoravam… Ela já faleceu, mas deixou a semente do Oficio no coração da sua família. Tem também o momento das preces. Nelas encontramos preces prontas que expressam o que a gente quer dizer, ou então o pessoal faz as suas próprias preces no espaço dado às intenções particulares. Além disso, é muito bom sermos socorridos com as palavras do salmo quando a gente não sabe o que rezar. Eles ficam impregnados na gente. Sem querer a gente acaba colocando isso para fora quando conversa com Deus. Num curso que fizemos sobre o Oficio, isso foi falado a respeito de Jesus. Ele rezava os salmos como um bom judeu. Por isso, respondia com salmos, na cruz rezou um salmo… Acho que está acontecendo a mesma coisa com a gente. Entramos na escola de oração de Jesus. Dona Odete costumava dizer: “O que mais gosto do oficio é o salmo, pois aí, na mesma hora que a gente fala, Deus responde com as próprias palavras do salmo”.

RL: O ofício tem a ver com o sacerdócio dos cristãos?

Sônia: Lembro-me que a gente canta no final da abertura: “povo de sacerdotes, a Deus louvação”. Fico pensando que se trata do sacerdócio de Jesus do qual a gente participa como fiel e batizado. O que se chama por aí de sacerdócio comum dos fiéis. Não se trata do sacerdócio dos padres, mas de todo o povo. O nosso louvor se torna serviço sacerdotal porque se une à oração de Jesus, o único sacerdote. A gente se volta para o Pai na pessoa de Jesus, em louvor e adoração, nos unindo a ele na ressurreição e no seu sacrifício, que entre nós se faz louvor. O culto da vida não fica sem o amparo do culto da Comunidade. As mães e os pais de família, os jovens e as crianças, vão entendendo que no seu dia-a-dia tem de agradar a Deus como no Oficio rezado na Igreja. E na comunidade reunida, a gente entende que a labuta da semana, as coisas da vida, precisam ser oferecidas a Deus, para se tornarem santas, do jeito que Ele gosta. Eu penso que o sacerdócio é assim…

 Fonte: Revista de Liturgia Ano 37 – 218

Esta é nossas terceira conversa sobre o ODC, para conferir as anteriores clique nos tópicos abaixo:

1- Conversa I – com o Pe. Marcio Pimentel

2- Conversa II – com Penha Carpenedo

Conversas sobre o Ofício Divino das Comunidades – II

Nas conversas sobre o Ofício Divino das Comunidades estamos editando uma serie de entrevistas com as pessoas que trabalharam na elaboração do livro. A entrevistada nesta conversa II é a Penha Carpenedo.

Vamos continuar nossa conversa, em forma de entrevista, dando a palavra à Penha Carpanedo, que fez parte da equipe que elaborou o Oficio Divino das Comunidades (ODC), e apresentou dissertação de mestrado sobre a sua inculturação. Ela partilha conosco o resultado do seu encontro, com grupos e comunidades, celebrando e aprofundando a teologia e a espiritualidade do Oficio Divino das Comunidades.

Conversas
ODC – Ofício Divino das Comunidades

RL: Desde o surgimento do Oficio Divino das Comunidades (ODC), até agora, como você sente evoluir a inculturação da Liturgia das Horas no Brasil?

Penha: O Oficio Divino das Comunidades possibilita uma oração cotidiana conforme a tradição da Igreja, de rezar com salmos e outros cânticos bíblicos, no ritmo das horas e dos tempos do ano litúrgico, com uma linguagem acessível às nossas comunidades. Depois de 20 anos desde a primeira edição, tornou-se uma referência reconhecida nas comunidades eclesiais do nosso país. E de certa forma ele cresceu com a prática das comunidades.

RL: Quais elementos destacaria na proposta ritual do ODC como inculturadas?

Penha: Destaco dois elementos que me parecem fundamentais:

O primeiro é a preocupação de adequar a linguagem dos textos, os ritos e o estilo da celebração ao modelo eclesial (teologia e prática) assumido por nossas comunidades a partir do Concílio Vaticano II e de Medellin. Parte-se do princípio que a inculturação da liturgia não é uma tarefa isolada, mas tem a ver com a inserção da Igreja no mundo, com a sua missão. Como bem formulou o liturgista filipino, Anscar Chupungco, a inculturação “não é apenas problema antropológico, mas também teológico, pois tange tudo o que toca o relacionamento entre Deus e o seu povo”. Esta preocupação perpassa todo o Oficio. Aparece nos hinos, nas orações, nas preces, nas introduções aos salmos etc. Aparece especialmente na Recordação da vida, introduzida para explicitar a relação entre o mistério pascal vivido no dia a dia e a celebração litúrgica.

Outro importante destaque é a inclusão de elementos da piedade popular, realizando concretamente a ‘mútua fecundação’ entre liturgia e religião popular. E não apenas incorporando elementos externos, mas procurando corresponder à piedade e ao “fervor espiritual” do povo; aos “anseios de oração e de vida cristã”, tão característicos da piedade popular.

RL: Poderia dar exemplos de repercussões da piedade popular no ODC?

Penha: As repercussões da piedade popular podem ser percebidas no próprio estilo do oficio. A ritualidade e a singeleza da celebração, com seu tom coloquial, sem muitas palavras explicativas, centrada no mistério pascal de Jesus, com seus salmos, hinos e orações em linguagem acessível, encontra eco na piedade do povo, com sua capacidade contemplativa e sua atitude de confiança em Jesus. Além disso, um exemplo concreto são as aberturas: com seu conteúdo bíblico e estrutura dos benditos populares em formato de repetição, traduzem com muita propriedade o sentido teológico do invitatório.

Respeitando sua forma responsorial, possibilita o diálogo e conduz à oração. A repetição foi bastante valorizada na elaboração dos diversos elementos que compõem o ODC, libertando a oração do papel e dando razão ao aspecto oral da piedade popular. É um dos elementos que mais agrada o povo e realmente convida a entrar na oração. Outro exemplo são os hinos – “cai a tarde o sol se esconde”, “pecador agora é tempo” e outros mais — tomados do repertório popular. Poderíamos ainda falar da dimensão relacional, de aliança, que cria um clima orante, comum à liturgia e à piedade popular.

RL: Em que medida esta ritualidade tão presente na prática celebrativa do ODC responde à exigência de inculturação.

Penha: Sendo o Oficio Divino uma ação litúrgica como as demais celebrações da Igreja, tem dimensão comunitária e sacramental, pois se compreende como ação simbólica que expressa a salvação de Deus (oficio divino), mediante sinais sensíveis, que significam e que realizam o que significam (cf. SC 7). E quando é que um sinal é sensível? Quando atinge a pessoa em sua corporeidade, culturalmente situada. No ODC não há muitas indicações e detalhes a respeito dos gestos, símbolos e ritos. Entretanto, na prática, foi nascendo um estilo de celebração coerente com o jeito de celebrar de nossas comunidades, como resultado da relação entre liturgia e modelo eclesial e da ‘mútua fecundação’ entre liturgia e religiosidade popular.

Nas celebrações do ODC se valoriza a gestualidade, o movimento, o cuidado com o espaço e com os diversos elementos que o compõem, o bom desempenho dos ministérios (presidência, leitores/as, cantores/as, acólitos/as…) A verdade dos sinais tem como exigência, entre outras coisas, a incultaração, para que o povo possa se reconhecer na oração e de fato possa acompanhar as palavras com a mente atenta e participar com consciência, ativa e frutuosamente (cf. SC 11).

RL: A inculturação leva a situar o ODC numa cultura e num tempo, isso não limita a experiência litúrgica?

Penha: O Concílio Vaticano II estabeleceu princípios teológicos e pastorais que estão na base de toda a reforma da Igreja e da Liturgia. Um destes princípios é o da adaptação aos tempos modernos e às culturas de cada povo. Compreendeu que para ser universal precisa ser capaz de adequar-se ao particular, naturalmente sem perder a referência da tradição. O ODC reproduz de maneira simples e inculturada, acessível ao povo de nossas comunidades, os mesmos elementos e estrutura da Liturgia das Horas, a mesma teologia e espiritualidade.

O ganho é imenso: a oração da Igreja se torna popular, e a oração do povo se enriquece com a herança da tradição bíblica e eclesial. Pensemos por exemplo na música. Grande parte das músicas tem sua inspiração nas raízes melódicas da nossa cultura. Muitas foram recolhidas do repertório musical produzido a partir da reforma do Concílio Vaticano II, que representa grande conquista em busca da música ritual em ritmo e estilo brasileiros. O próprio Geraldo Leite, um dos autores das músicas do ODC, escreveu:

“Nossa música é toda uma mistura de melancolia e esperança, de ritmos e saudades, de alegria e de dores, de África e de Brasil”. As composições não estão sujeitas aos modismos, pois são de grande qualidade melódica e textual, permanecendo válidas pela sua autenticidade. Portanto, a inculturação não representa limitação, mas enriquecimento mútuo, pois descobre na cultura local o que existe de mais precioso e valoroso.

RL: Como a experiência inculturada da Liturgia das Horas pode colaborar na vivência espiritual do mistério de Cristo em nossas comunidades?

Penha: Com séculos de separação entre espiritualidade e liturgia é preciso aprender de novo a viver a liturgia como fonte de espiritualidade (cf. SC 14); é preciso aprender a participar, prestando atenção nas palavras ditas ou cantadas, nas palavras que acompanham as ações simbólicas; é preciso aprender de novo a guardar no coração o que recebemos de Deus na assembléia litúrgica para viver existencialmente em nosso cotidiano. Ao mesmo tempo vamos redescobrindo que a liturgia, para além da razão, vai misteriosamente moldando e transformando o coração das pessoas e a vida de comunidade.

Não tenho dúvida de que o ODC caminha nesta direção. Reproduzindo a Liturgia das Horas, valendo-se da linguagem do nosso universo simbólico, o ODC constitui uma experiência vital do mistério pascal, e desta maneira torna-se alimento da oração e da devoção pessoal conforme pedia a Constituição sobre a liturgia (Cf. SC 90) e como recomendou Paulo VI, na Constituição Apostólica Laudis Canticum: que a celebração do Oficio pudesse “adaptar-se, quanto possível, às necessidades de uma oração viva e pessoal” (cf. n. 8).

 

Fonte: Revista de Liturgia – 217 – Janeiro/Fevereiro.2010

Conversas sobre Ofício Divino da Comunidades – I

Artigos com uma série de entrevistas: “Conversas sobre o Oficio Divino das Comunidades “. Em cada número, uma pessoa ligada à elaboração do Oficio ou à Pastoral nos dará um testemunho ou uma reflexão em torno deste assunto.

Iniciamos, nesta edição, uma série de entrevistas: “Conversas sobre o Oficio Divino das Comunidades “. Em cada número, uma pessoa ligada à elaboração do Oficio ou à Pastoral nos dará um testemunho ou uma reflexão em torno deste assunto. A intenção é trazer à tona a experiência da Liturgia das Horas na forma do Oficio Divino das Comunidades, cuja prática oferece importantes elementos para a teologia e espiritualidade da Liturgia das Horas e para a sua inculturação.

ODC Nosso primeiro entrevistado é o Pe. Márcio Pimentel, religioso saletino, membro da Rede Celebra, atuando na pastoral litúrgica da Arquidiocese de Belo Horizonte. Responsável pela formação dos seminaristas aspirantes e postulantes de sua congregação, ele relata nesta entrevista a experiência do ODC em sua comunidade religiosa, no período da formação religiosa e presbiteral. Considerando a Liturgia das Horas um elemento essencial da vida religiosa, mostra como concilia o carisma de sua congregação com a espiritualidade litúrgica. O Oficio Divino das Comunidades encontra cada vez mais espaço nas comunidades religiosas, aproximando a antiga tradição da Oração dos Salmos às demandas do tempo presente e da missão dos religiosos na Igreja e no mundo.

  1. Como se deu a introdução e a opção pela Liturgia das Horas na forma do ODC na etapa em que você atua como formador?

A opção pelo Oficio Divino das Comunidades (ODC) tinha como objetivo eleger um estilo de Liturgia das Horas (LH) que fomentasse nos estudantes o gosto pelo canto dos salmos. Isto possibilitaria a descoberta de sua inigualável riqueza para a espiritualidade cristã e, em especial, para a própria construção do perfil religioso e presbiteral. Mediante a celebração do ODC, eu mesmo pude redescobrir a beleza da Oração cristã e descortinar seu sentido para o meu itinerário vocacional e missionário. Dei-me conta de que a oração dos salmos permitia escapar das armadilhas que nosso ego fabrica em nossas práticas religiosas. Sem perceber, corremos o risco de caminhar rumo a desfiguração de nosso perfil de discípulo, missionário e, sobretudo, humano. Entendemos que o ODC era um caminho que valia a pena compartilhar com aqueles que fazem sua iniciação à vida religiosa e presbiteral saletina no período do aspirantado e postulantado, quando eles cursam a filosofia.

  1. Como o ODC figura no conjunto de celebrações do seminário?

Eu diria que ocupa lugar privilegiado. Costumava referir-me a estes momentos como “significadores” do cotidiano ou, como mais recentemente gosto de dizer, oportunidades para ajustar nossos passos aos ritmos do Evangelho de Jesus. Rezamos o ODC pela manhã, à tarde e à noite: laudes, vésperas e completas. Esta última fazemos segundo a estrutura da versão oficial da LH. As horas maiores seguem a estrutura do ODC, embora utilizemos com freqüência alguns hinos e salmos da versão oficial, pois não vemos oposição entre o ODC e a LH. Temos a oportunidade, portanto de rezar cotidianamente a Oração das Horas segundo o estilo e a forma do ODC. Cada vez fica mais clara a importância e o ganho em optar por ele como eixo da oração cotidiana de nossa comunidade.

  1. Como você vê a recepção do ODC por parte dos formandos?

Certamente há frutos que já colhemos, sobretudo nos quesitos ritualidade e sacra- mentalidade que o ODC recupera. Isto é muito louvável. Ainda reside certo conflito com a mentalidade contemporânea, herdeira da lógica moderna e também pós-moderna. Destaco dois aspectos:

  1. a) a racionalização da oração. Achamos que temos de entender tudo, que deve haver um beneficio mensurável naquilo que fazemos. Praticamente preenchemos, ou tentamos preencher todos os “vazios” para que o Mistério se manifeste e nos recrie. Talvez por isso tenhamos tanta dificuldade com o silêncio… Queremos dominar e submeter aquilo que é maior do que nós. Perdemos na oração a noção de criaturas, O que seria um espaço para a gratuidade, para o deleite da presença de Deus, se torna ocasião para um palavrório sem limites, conscientizações, ideologizações exageradas…
  1. b) a confusão entre objetividade e subjetividade da espiritualidade cristã. Aqui a questão é mais grave: os jovens que chegam às nossas casas, além de, na sua maioria, não terem sido iniciados à fé de modo substancial e consistente, trazem consigo uma espiritualidade movida pela lógica devocional. Nesta prevalece o gosto individual e a fé subjetiva em detrimento da objetividade da fé da Igreja, recebida no batismo, entregue por uma comunidade à qual se adere. Notamos o desconhecimento da bimilenar tradição orante da Igreja e sucumbimos diante da falsa criatividade ou do criativismo exacerbado. A compreensão de liturgia, por exemplo, em ambos os casos não é boa. Ela não é considerada como a nossa resposta ao amor de Deus por nós, no seu trabalho carinhoso em governar e cuidar da humanidade, da história, do cosmos.
  1. Sendo formador de religiosos saletinos, como você avalia as celebrações do ODC no conjunto da formação para a vida religiosa e para o presbiterato?

Urge uma volta à compreensão mais mística da liturgia para que venha à tona a sua importância para a formação religiosa e presbiteral. Algo disso já se processa atualmente, mas temos que caminhar muito. A Liturgia, e aqui enfoco o ODC, é um microcosmo. Ele reflete o mundo e a história que se traça cotidianamente sob outro ângulo, que é a lógica de Deus. Gosto de falar de um “ensaio existencial”. Tudo e todos somos submetidos ao modo do ser de Deus revelado em Jesus. A forma de nos relacionarmos como pessoas humanas e cristãs, a nossa consagração batismal, vinculada e radicalizada num instituto de vida consagrada, e o ministério pastoral que prestamos à Igreja são vividos e antecipados na celebração do trabalho de Deus, a Liturgia. Percebo que falta-nos hoje transparência sacramental e com isso me refiro ao fato de numa celebração, em que “presidimos”, por exemplo, sobrepor-se o sinal, pobre e insuficiente, ao Mistério que este deveria comunicar. Tudo gira em torno do padre. É ele quem aparece, quem é escutado, visto e ovacionado não poucas vezes. Ele é o centro e para ele tudo converge. Como um microcosmo e um ensaio, a celebração sinaliza que algo está errado e fora de lugar: na vida cotidiana, no modo de proceder, na vocação, missão, pastoral, ou mesmo no âmbito celebrativo. Esquecemos de que Deus é Deus. A casa de formação é um lugar privilegiado para redescobrir o lugar do Mistério na condução de nossa vida, sem o quê nos tornarmos ídolos!

  1. O ODC é um caminho mistagógico para a formação?

O ODC é uma porta para o Mistério. Creio nisto, sobretudo porque o único Mistério que celebramos é a Páscoa de Cristo Jesus. O ODC nos possibilita entrar em comunhão profunda com o Espírito de Cristo. Se quisermos estar ligados a ele devemos beber da fonte que ele bebeu, rezar como ele rezou, orar aquilo que ele orou. Sabemos que a base da oração de Jesus são os salmos. Não dá para entrarmos em relação com Jesus sem estarmos imbuídos de seu Espírito.

No fato-fundante do Instituto dos Missionários Saletinos, existe um forte princípio sobre a oração baseado na pergunta da Virgem na sua aparição em Salete, França:

“Fazei bem as suas orações, meus filhos?”, O cuidado com o “fazer bem as orações” aqui se expressa em nosso zelo para com o ODC, que é uma conquista de cada dia. O carisma do Instituto é a reconciliação. Não dá para ser embaixadores da reconciliação, conforme o Apóstolo (2Cor 5,20), se nos esquecemos de nosso mergulho na morte e ressurreição do Senhor.

Não dá para viver e proclamar “a nova criatura” se não estamos suficientemente vinculados ao Novo Adão. Somente cantando sua Palavra, permitindo que ela se torne nossa palavra na meditação de cada versículo sálmico, que ressoem e dialoguem com aquilo que recordamos da vida e a re-signifiquem; somente silenciando para que o nosso vazio seja preenchido pela novidade do Evangelho, é que nossa existência ganhará o tom e a cor do Reinado de Deus. Assim como os salmos no ODC ganham vida e beleza advindas da métrica poética que nos é peculiar, dos ritmos regionais que os embalam, das sutilezas melódicas do modalismo redescoberto em nossas composições, nossa vida é embelezada pela voz do Verbo que através deles ressoa.

 

Há Páscoa hoje?!

uma reflexão sobre o sentido da Páscoa.

Reflexão de Carlos Ericeira
Reflexão de Carlos Ericeira

Estamos presenciando um tempo com sinais marcantes; o desequilíbrio da natureza, a crescente desvalorização da vida, a corrupção despudorada, o desabafo populacional, manifestações, lutas, massacres e um crescente e ecoante pedido de basta. Como encaramos estes sinais? Que reações eles provocam em nós?

Anualmente falamos de ‘páscoa’ que estoura em apelos comerciais, que inflama as prateleiras com deliciosos ovos de chocolate e coelhinhos de pelúcia. Mas, e a Páscoa[1]? Aquela que imprimi em nossa alma uma mudança, uma certeza de que por além das sombrias nuvens da madrugada desponta o Sol da justiça; aquela que dissipa as trevas da morte fazendo germinar no amanhecer um novo dia, uma nova historia onde tudo será melhor. A Páscoa, que mortifica as dores, as mazelas, as misérias, conduzido-nos para a ressurreição, a que ressurge com raios de paz, igualdade, honestidade, humanidade e santidade.

logo do blog CMLITURGO
logo do blog CMLITURGO

Celebramos a Páscoa anualmente (semanalmente), como mistério encarnado[2], padecente e glorioso[3] que em todo o mundo revela os vestígios de sua força, de sua luz.  Há sim, uma certeza confirmada no tempo e na história deste profundo mistério do Pai, revelado no filho pela ação do Espírito e é esta certeza que faz  surgir do meio do deserto de cada um de nós e da aridez de nossa vida social uma fonte de água viva[3] que jorra esperança, compromisso, solidariedade e a busca por um mundo mais humano e feliz.

Há Páscoa hoje e sempre em cada novo homem e mulher liberto de seus vícios; em cada lei que tira o povo da opressão, da miséria e falta de dignidade; em cada lugar que se liberta dos que exploram os bens e recursos em benefícios próprio; em cada ser humano que doa a sua vida pelo bem comum de toda a humanidade. Haverá sempre páscoa se cada um(a) que assumir sua co-responsabilidade com o mundo que Deus criou para vivermos em  harmonia e comunhão.

Cordialmente em Cristo,

Diac. Carlos Ericeira

 

[1] O termo “Páscoa” deriva, através latim Pascha e do grego bíblico Πάσχα Paskha, do hebraico פֶּסַח (Pesaḥ ou Pesach, a Páscoa judaica) que significa passagem.  [2] cf. Fl 2, 6-7    [3] cf. Lc. 9, 18-24  [4] Cf. Jo 7, 37-39

Ciclo Pascal, o tempo essencial no ano litúrgico

O ciclo pascal é o centro do ano litúrgico, portanto, essencial na vivencia da fé de cada cristão(ã). alguns esclarecimentos e sugestões ajudam as equipes de celebração na hora de preparar as celebrações.

Por: Diac. Carlos Magno Ericeira

È um dever da santa mãe Igreja celebrar todo o mistério de Cristo (encarnação, nascimento, paixão, morte, ressurreição e ascensão), por isso a cada semana (no domingo ) nos reunimos para fazer memória da sagrada obra da salvação. Este mesmo itinerário é percorrido em um ciclo anual que tem seu ponto culminante na solenidade da Páscoa e se desdobra para ‘oferecer aos fiéis as riquezas das obras e merecimentos de seu Senhor’ .
O Ciclo da páscoa compreende a quaresma , semana santa (com o tríduo pascal), e o tempo da páscoa (que encerra-se com o Pentecostes), sua sistematização é datada do primeiro ao quarto século da era Cristã e é a partir dele que se desenvolve todo o ano litúrgico. Cada momento tem sua característica própria e o conjunto ‘revela todo o mistério de Cristo’, por isso, a insistência por parte da Igreja, da promoção em uma participação para que os fiéis em contato com estes mistérios sejam repletos da graça da salvação.
Todo o Ano litúrgico é regido por este evento, Páscoa; e diante de tantas desvirtualizações e principalmente do forte apelo consumista do tempo atual, é bom retomarmos alguns significados em torno desta palavra:
Páscoa (verbo grego paschein – padecer, sofrer), festa que o povo da antiga aliança celebrava em torno da mesa, onde comendo o cordeiro pascal (pesah) faziam memória da passagem da escravidão para a liberdade (cf. Ex 12, 21-23.27b.29-39), tradição herdada por Jesus e que posteriormente por Ele foi redimensionada em um sentido pascal de sua passagem para o mundo do Pai (cf. 1 Cor 11,23-26). Com sua sua glorificação e ascensão nossos pais e mães da fé se reuniam para fazer a memória e gradualmente a tradição apostólica ao longo da história estruturou as celebrações para que as comunidades pudessem tornar celebre este momento, a Ceia do Senhor, (momento em que o Senhor pelo o pão e vinho partilhados sinaliza a cumplicidade e reciprocidade que o leva a entrega-se total até o fim e derramar seu sangue por nós) antecipa sacramentalmente sua morte e ressurreição e institui o sacramento da eucaristia, do sacerdócio e do mandamento do Amor. “Desejei ardentemente comer convosco esta ceia pascal antes de sofrer” (Lc. 22,15)
Páscoa, expressão da tristeza e do luto que a cruz (do latim cruce) = instrumento de tortura, dor, angústia, escândalo e sofrimento) representava no tempo de Jesus, mas, que pela a sua ação salvifica se tornou sinal de esplendor, vitória e júbilo. Cruz que ao ser venerada e meditada ganha profundo e salutar significado, mas não nos deixa inertes, pelo contrário, revela um sentido sobrenatural para o sofrimento humano e a infinita misericórdia do Pai, “Completo na minha carne – diz o Apóstolo Paulo, ao explicar o valor salvífico do sofrimento — o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja.: e São João Paulo II exorta em sua carta apostólica “tal é o sentido do sofrimento: verdadeiramente sobrenatural e ao mesmo tempo humano; é sobrenatural, porque se redica no mistério divino da Redenção do mundo; e é também profundamente humano, porque nele o homem se aceita a si mesmo, com a sua própria humanidade, com a própria dignidade e a própria missão.” (n 31) .
Páscoa que nos celebramos todo ano e ano todo, mas, que tem dia, período, ciclo, antes, durante e depois.
Viver o Ciclo da Páscoa na Igreja é viver um tempo especial que condensa o passado o presente e futuro, com um ANTES (a preparação) – (Quarenta dias de Jesus no deserto (Mt 4.2; Lc 4.1ss); Quarenta dias de Moisés no Sinai (Êx 34.28); Quarenta anos do povo no deserto (Ex 16.35); Elias em direção ao Horeb (1Rs 19.8); Quarenta dias de chuva no Dilúvio (Gn 7); Um DURANTE (a festa) (A Santa Ceia (Mt 26.17-30); O Lava-pés (Jo 13.1-17); Jesus no Getsêmani (Mt 26.36-46; Mc 14.26-31); O julgamento, sepultamento e a crucificação (Mt 27; Mc 15; Lc 23; Jo 19), A ressurreição no primeiro dia da semana.(Mt 28.1-20; Mc 16.1-8; Lc 24.1-12; Jo 20.1-18; At 1.14); E um DEPOIS (Cânticos Pascais (Sl 113 ao 118 e Ex 12); Festa das semanas (Êx 34.22; Lv 23.15); Jesus promete o Consolador (Jo 16.7); Jesus ressuscitado sopra seu Espírito (Jo 20.22); A chegada do Espírito Santo no dia de Pentecostes (At 2).
Nós conduz a experienciar pela sua Palavra sagrada, pelo seu dinamismo, vigor, força e pela sua ação celebrativa toda a plenitude que o Cristo sol da justiça que se deixar revelar ao romper da aurora do primeiro dia o dia do Senhor.

pascoaContudo as celebrações neste tempo(domingo da ressurreição ao domingo de Pentecostes) devem ganhar ares de ‘alegria e exaltação’ como se fossem um ‘grande domingo’ . Para ajudar as equipes de preparação das celebrações vejamos algumas sugestões;
a) Destacar o sentimento de festa, com flores, incensos, toalhas brancas e etc.
b) Durante os 50 dias o círio pascal deverá estar no centro (local de destaque) das celebrações como sinal do Cristo vivo e ressuscitado, poderá ser entronizado e aceso de forma solene enquanto a assembleia canta um refrão meditativo, outra sugestão é que durante a profissão de fé, nas preces e ou na bênção final a comunidade pode ser convidada a aproxima-se ou estender a mão em sua direção.
c) Valorizar a fonte batismal, permanecendo em destaque com água abundante, devidamente ornamentada (se possível próximo do círio). O rito da água, neste tempo mais quem um sentido penitencial faz memória do batismo e pode, as vezes, tomar o lugar na profissão de fé.
d) A ultima semana é dedicada como tempo de oração pela unidade dos cristãos e merece uma atenção quer na preparação como também na hora da celebração, momento propício para retomar reflexões e fazer ligações com a Campanha da Fraternidade e o ano jubilar da misericórdia.
e) Cabe as equipes de liturgia (ministros e ministérios) procurar fazer a ligação dos diversos momentos vividos na comunidade (dia das mães, casamentos, mês de Maria…. etc) com o tempo pascal sem que um ofusque o outro. Para tal as reuniões de preparação, vivencias e estudos (leituras) com a utilização de sugestões e indicações contidas nos documentos, Introduções dos livros litúrgicos (missal, lecionários…) roteiros e demais subsídios poderão iluminar esta importante tarefa das equipes de celebração.

Tríduo Pascal, tempo salutar para uma profunda vivência do âmago da fé

Por: Diac. Carlos Magno Ericeira




Celebrando a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus que o Cristo realizou quando, morrendo, destruiu a nossa morte e ressuscitando renovou a vida. O tríduo pascal[1], momento do ano litúrgico em que se traz presente e se realiza o mistério da páscoa do Cristo, constitui-se o centro[2] do próprio ano, mas, também de toda a vida e fé das comunidades cristãs. Este inicia-se com a missa vespertina da ceia do Senhor (quinta-feira santa), tem seu cume na solene vigília “mãe de todas as santas vigílias”[3] (sábado) e encerra-se na tarde do domingo da ressurreição (cf. CNBB 43 pag. 48), três momentos entrelaçados e inseparáveis de uma mesma realidade que a Igreja celebra, saboreando na vitória de Jesus a nossa própria vitória.
Momento anual tão esperado na vida de cada cristão e das comunidades, portanto, precisa ser bem celebrado, mas, para que isto ocorra é necessário uma compreensão (mesmo que mínima) de seu sentido e valor; Retomar detalhes históricos, indicações dos documentos, estudos dos textos bíblicos, sugestões litúrgicas e homiléticas ajudam na contextualização e possibilitam a comunidades e equipes litúrgicas solenizar o período central do Ano litúrgico, por outro lado, os que irão desempenhar serviços e ministérios, façam uma prévia preparação (com vivências, leitura orante e laboratórios) que os introduza no mistério celebrado e assim possam mais plenamente conduzir a Igreja reunida em assembleia a participação plena, ativa e frutuosa.
Dentro deste contexto, façamos uma breve memória e vejamos algumas sugestões que possam iluminar a realização deste especial momento em nossas comunidades:
Páscoa (verbo grego paschein – padecer, sofrer), festa que o povo da antiga aliança celebrava em torno da mesa, onde comendo o cordeiro pascal (pesah) faziam memória da passagem da escravidão para a liberdade (cf. Ex 12, 21-23.27b.29-39), tradição herdada por Jesus e que posteriormente por Ele foi redimensionada em um sentido pascal de sua passagem para o mundo do Pai (cf. 1 Cor 11,23-26). Com sua sua glorificação e ascensão nossos pais e mães da fé se reuniam para fazer a memória e gradualmente a tradição apostólica ao longo da história estruturou as celebrações para que as comunidades pudessem tornar celebre este momento, a Ceia do Senhor, (momento em que o Senhor pelo o pão e vinho partilhados sinaliza a cumplicidade e reciprocidade que o leva a entrega-se total até o fim e derramar seu sangue por nós) antecipa sacramentalmente sua morte e ressurreição e institui o sacramento da eucaristia, do sacerdócio e do mandamento do Amor. “Desejei ardentemente comer convosco esta ceia pascal antes de sofrer” (Lc. 22,15)
Páscoa, expressada na tristeza e no luto que a cruz (do latim cruce) = instrumento de tortura, dor, angústia, escândalo e sofrimento) representava no tempo de Jesus, mas, que pela a sua ação salvifica se tornou sinal de esplendor, vitória e júbilo. Cruz que ao ser venerada e meditada ganha profundo e salutar significado, mas não nos deixa inertes, pelo contrário, revela um sentido sobrenatural para o sofrimento humano e a infinita misericórdia do Pai, “Completo na minha carne – diz o Apóstolo Paulo, ao explicar o valor salvífico do sofrimento — o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja.: e São João Paulo II exorta em sua carta apostólica “tal é o sentido do sofrimento: verdadeiramente sobrenatural e ao mesmo tempo humano; é sobrenatural, porque se redica no mistério divino da Redenção do mundo; e é também profundamente humano, porque nele o homem se aceita a si mesmo, com a sua própria humanidade, com a própria dignidade e a própria missão.” (n 31)[4].
É nesta perspectiva que entramos na sexta e a cruz entra em nossas assembleias para ser aclamada e adorada.
Páscoa, da vigilância, da real transformação, conversão e revelação, onde nós (cristãos e cristãs) ritualmente realizamos o que vivenciamos e com Cristo atravessamos das trevas a luz, da morte a vida. “noite que não conheces trevas, espantas todo sono e nos leva a velar com os anjos; noite pascal, por todo o ano esperada” (Santo Asterio de Amaséia) momento em que a comunidade na sua intimidade, simplicidade e fraternidade é introduzida no evento que a constitui e a fundamenta – a ressurreição de Jesus Cristo. “Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremos e nele exultemos” (Sl 118)
Algumas sugestões para dinamizar a celebração
Quinta-feira santa – O local assume um tom festivo, com flores, velas, insenços, etc. Onde for oportuno pode-se retomar o costume judaico do acendimento das velas e para sinalizar esta pertença usa-se a menorá (candelabro de sete velas) e come-se ervas amargas. É importante dar a celebração uma dimensão de refeição e ceia, por isso se for oportuno sem que cause distorções e ou inconvenientes na comunidade, aconselha-se que: a) organize-se a nave da Igreja em sentido circular para favorecer que as pessoas possam se reunir em tono da mesa (altar); b) atendendo ao que é recomendado na SC 55, a comunhão sob duas espécie, especialmente neste dia, seja prevista com tudo o que for necessário para realizá-la inclusive se possível com a utilização de pães ázimos no lugar das hóstias; c) de forma sóbria e serena, pensar e organizar o altar para adoração eucarística, esta por sua vez não deve se prolongar pela noite inteira para nao se sobrepor a vigília (ponto alto) e nem cansar demasiadamente as pessoas.
Sexta-feira santa – aqui a liturgia assume o tom do despojamento e simplicidade, o altar desnudo é sinal de luto e dor da comunidade, o silêncio ocupa o lugar mais importante na mística da celebração. Para a dinâmica da celebração é importante além de garantir os elementos acima propostos, uma boa leitura da paixão com distribuição de tarefas e ensaios prévios; cuidados com a oração universal obedecendo os intervalos e os momentos de silêncio e para a adoração da cruz prever um crucifixo grande coberto, ladeados por dois ministros com velas.
Vigília Pascal – Dar a esta noite uma dimensão cósmica, universal com abertura ecumênica, alargando as fronteiras e comunhão especialmente com as outras Igrejas e culturas. É importante pensar bem e preparar os diversos elementos e momentos destas celebração: a) para a liturgia da luz e do fogo, preparar a fogueira, prever o círio e velas para todos os participantes; b) a cruz poderá neste dia ser coberta de flores e intronizada durante a proclamação pascal (exultet); c) na liturgia da palavra com vivencias previas e mantendo na integra o seu conteúdo é possível agregar recursos narrativos e cênicos; d) onde for acontecer a celebração dos sacramentos de iniciação prever o que for necessário, porém, mesmo que não haja seria enriquecedor organizar uma solene entrada da água a ser colocada na pia batismal antes da renovação do batismo; e) A vigília também tem uma dimensão de refeição e se for oportuno é bom reforçar os elementos da ceia com pães azimos e comunhão sob duas espécies e após a celebração um ágape fraterno.
Domingo da Ressurreição – primeiro dia da semana, (= dominus, dia do Senhor). Dia primordial para os cristãos “o dia do Senhor, o dia da Ressurreição, o dia dos cristãos, é nosso dia. Por isso é chamado dia do Senhor: porque é neste dia quando o Senhor subiu vitorioso junto ao Pai. Se os pagãos o chamarem dia do sol, também o fazemos com gosto; porque hoje amanheceu a luz do mundo, hoje apareceu o sol de justiça cujos raios trazem a salvação” (CIC, 1166).
(CIC 2175)[5] – “O Domingo distingue-se expressamente do sábado, ao qual sucede cronologicamente, cada semana, e cuja prescrição ritual substitui, para os cristãos. Leva à plenitude, na Páscoa de Cristo, a verdade espiritual do Sábado judaico e anuncia o repouso eterno do homem em Deus. Com efeito, o culto da lei preparava o mistério de Cristo, e o que nele se praticava prefigurava, de alguma forma, algum aspecto de Cristo (1Cor 10,11)”.
Assim para todos os domingos (páscoa anual e semanal) a celebração terá ares de festa com as características próprias de seu tempo.
Eis o tempo! Celebrá-lo em Espírito e verdade é para nós mas que uma simples memória histórica é ver acontecer “á Páscoa do Cristo na Páscoa da gente….” é expressar a misericórdia do Pai e acreditar em um mundo renovado, ré-justiçado e ressuscitado, onde, o equilíbrio natural e social da ‘casa comum’ se transfigure em um mundo de irmãos. Feliz Páscoa para todo o universo!

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[1] cf. IGMR 19
[2] cf. IGMR 18 – ibid., n106
[3] Santo Agostinho, Sermão 219: PL 38,1088
[4] Carta apostólica “Salvifici Doloris” João Paulo II
[5] CIC – Catecismo da Igreja Católica

CELEBRAR A MISERICORDIA

A partir da bula papal Misericordiae Vultus refletir sobre a dinâmica, vivencia e ação celebrativa do ano jubilar da misericórdia.

 

ano santo
2016 – ANO DA MISERICÓRDIA

O jubileu da Misericórdia necessita antes de mais nada ser celebrado… assim será mais eficazmente vivido e testemunhado como reflexo da misericórdia do Senhor.

Com esse espírito universal através da bula papal Misericordiae Vultus (MV), desde 8 de dezembro de 2015 (inicio solene do Ano Santo) uma sequencia de atividades estão sendo simultaneamente executadas em Roma e nas Igrejas particulares como sinal visível da comunhão de toda a Igreja (MV n.3) terrestre e celeste.

Por isso cada diocese, cada Igreja particular, cada comunidade (pastoral, grupo, movimento) e cada cristão faça o que estiver ao seu alcance para que, sobretudo liturgicamente, o Jubileu seja vivido como um “momento extraordinário de graça e de renovação espiritual” (MV n.3), mas, para que isso seja possível deve haver maior empenho na promoção e realização de celebrações com propriedade, simplicidade e beleza de acordo com os tempos litúrgicos do Ano C.



As “24 horas para o Senhor” (a ser celebrada no Vaticano iniciando na sexta-feira e terminando no sábado anteriores ao IV domingo da quaresma) (MV n.17), é uma iniciativa que pode ser incrementada pelas diceses em resposta ao apelo do Sumo Pontífice para que especialmente neste Ano jubilar os fiés se reunam para rezar juntos nas comunidades.

A sugestão pode ser vivenciada na data proposta ou em outra e nas atividades pode-se contemplar; a oração da liturgia das horas, o terço da misericórdia, a adoração ao Santíssimo Sacramento, o atendimento dos fieis que buscam o sacramento da reconciliação, a leitura e meditação da palavra com o método da Léctio Divina e a participação na celebração da Eucaristia.

Não há um roteiro pronto para tal finalidade, porém, vários subsídios litúrgicos trazem indicações para que as comunidades preparem este e outros momentos, neles (os subsídios) encontramos luzes, sugestões e esclarecimentos; que fomentem o propósito intimo de cada um(a) em mergulhar e vivenciar momentos de intensa oração com os diversos elementos propostos para o Ano Santo, assim, juntamente com as peregrinações às portas santas da misericórdia, celebrações do ano litúrgico, obras espirituais e corporais (MV n.15).

As 24 horas para o Senhor acrescenta-se como um momento salutar neste itinerário que pretende conduzir a todos(as) para experimentar e viver o grande amor de Deus, abrindo o coração aqueles que vivem nas periferias existenciais e se tornando “Misericordiosos como o Pai” (Lc como6,36).

Por: Diac. Carlos Magno Ericeira