Deus criou a Terra para a Vida (LS – 5)

Essa Ficha aborda os dois primeiros tópicos do 2º Capítulo da LS, “O Evangelho da Criação”, que dão inicio ao momento do julgar a realidade apresentada nas fichas anteriores, à luz da fé, apresentando o olhar teológico sobre a ecologia.

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Essa Ficha aborda os dois primeiros tópicos do 2º Capítulo da LS, “O Evangelho da Criação”, que dão inicio ao momento do julgar a realidade apresentada nas fichas anteriores, à luz da fé, apresentando o olhar teológico sobre a ecologia. Eles revelam o esforço do Papa Francisco em fazer  a  Igreja  dialogar com o mundo, tal como propôs a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, ao mostrar que a fé não se opõe à ciência, antes, ela revela o olhar cristão sobre as questões que afetam a ecologia. Através das ciências bíblicas e da teologia da criação, o Papa faz uma releitura das narrações bíblicas e articula três elementos: a dignidade de cada pessoa humana; a pessoa como ser relacional com Deus, com o próximo e com a terra; e a responsabilidade de cada pessoa diante da criação, para destacar que a vocação do ser humano dada por Deus não foi a de se constituir senhor da natureza, mas como cuidador das maravilhas criadas, para que ele e seus semelhantes tenham vida plena.

A luz que a fé oferece

Para a complexa crise ecF.108ológica e as suas múltiplas causas (cf. Fichas de estudo editadas anteriormente LS1, LS2, Ls3 e LS4) o Papa sugere que é preciso reconhecer que as soluções não podem vir de uma única maneira de interpretar e transformar a realidade. É preciso recorrer às diversas riquezas culturais dos povos, à arte e à poesia, à vida interior e à espiritualidade, e às tradições religiosas, especialmente à judaico cristã. Aponta que, para construir verdadeiramente uma ecologia que permita reparar tudo o que tem sido destruído no planeta, é preciso somar a contribuição das ciências, das diversas formas de sabedoria das culturas e das religiões e, por isso, ele  apresenta  a teologia cristã,  que ilumina e ajuda a compreender os desafios relacionados à ecologia. No Evangelho de Mateus 5, 13, Jesus chama  os discípulos de “sal da terra e luz do mundo”! Assim, o olhar do cristão sobre a Ecologia também deve ter uma motivação que nasce da fé comprometida, que testemunha a natureza como obra de Deus, o único senhor do Mundo. Não há outro.

A sabedoria das narrações bíblicas

Na releitura do Livro de Gênesis e do Novo Testamento, o Papa  compreende a criação como obra trinitária, cumprida pelo Pai, através do Filho, no sopro do Espírito Santo. Todo o universo, criado por Deus e também habitado pela sua presença, está destinado à salvação. A Encíclica oferece uma visão global da tradição judaico-cristã, na qual três elementos importantes da teologia da criação podem ser verificadas nas narrativas bíblicas.

O primeiro, ensina que cada ser humano possui dignidade porque é criado por amor, feito à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26), concebido no seu coração como alguém querido, amado e necessário, capaz de se conhecer e comunicar, de se possuir e de livremente se doar.

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O segundo elemento é a capacidade do ser humano de entrar em comunhão, com Deus, com outras pessoas (CIC 357) e com a terra, como um ser relacional que se constrói justamente na busca do sentido de sua vida em Deus, no outro e na sua interação com a natureza. Porém, estas três relações vitais foram rompidas pelo pecado, quando o homem interpretou o “dominar a terra” no sentido de fazer-se senhor absoluto dela, explorando  e destruindo ao seu bel prazer, não percebendo que Deus o convidara para “cultivar e guardar” a natureza. Isso transformou a relação ser humano e natureza num conflito (Gn 3, 17-19), devido à  pretensão do ser humano de ocupar o lugar de Deus, e na recusa de reconhecer-se como criatura limitada. Hoje, o pecado manifesta-se com toda a sua força de destruição nas guerras, nas várias formas de violência e abuso, no abandono dos mais frágeis, nos ataques contra a natureza. Lembrando o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, da Igreja Ortodoxa, o Papa Francisco destaca que a destruição da biodiversidade  é “um crime contra a natureza, contra nós mesmos e um pecado contra Deus” (LS, 8).

Por fim, o terceiro elemento da teologia da criação é a responsabilidade humana diante da criação, que consiste em cultivar, ato de servir e trabalhar a terra, que implica respeitá-la, não explorá-la sem medida, com o compromisso de torná-la um lugar habitável e agradável para todos. No mesmo sentido, guardar significa velar por, ou seja, preocupar-se com, e isso, perante uma terra que é de Deus, implica que o ser humano, dotado de inteligência e liberdade, precisa respeitar as leis da  natureza e os delicados equilíbrios entre as relações dos seres deste mundo. Deve tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para sua sobrevivência, mas com o dever de protegê-la, cuidá-la, administrá-la e preservá-la, numa relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza, e assim garantir o potencial da sua fertilidade para as gerações futuras.

A Encíclica mostra e ensina que a responsabilidade está relacionada o cuidado que o ser humano deve ter nas relações consigo, com o outro, com Deus e com a terra, e da percepção de sua vocação. A narração teológica do conflito entre Caim e Abel (Gn 4,9-12) demonstra como o descuido no relacionamento com o próximo pode destruir os outros relacionamentos. Diante da maldade generalizada presente  no coração humano, da qual  Caim se constitui como um importante exemplo (Gn 6,13), Deus decide abrir um caminho de salvação através de Noé, que ainda se mantinha íntegro e justo, e dá à humanidade a possibilidade de um recomeço, pois, basta existir pelo menos um ser humano bom para que haja esperança. Quando as relações são negligenciadas, quando a justiça deixa de habitar a terra, a Bíblia diz que a vida de todos está em perigo.  É nessa perspectiva que os vários códigos de leis devem ser interpretados, pois eles foram criados para proteger a vida dos indefesos, inclusive dos menores seres vivos (Dt 22,4.6; Ex 23,12). Isso pode ser verificado nas Escrituras Sagradas, sobre a lei do Shabbat (Gn 2,2-3; Ex 16,23; 20,10), e sobre o jubileu, um ano de perdão universal (Lv 25,10). Essa legislação assegurava o equilíbrio e a equidade nas relações e ao mesmo tempo um reconhecimento de que a dádiva da terra com os seus frutos pertence a todo o povo e que devia ser partilhado, especialmente com os pobres, as viúvas, os órfãos e os estrangeiros.

laudato 22Nessa mesma perspectiva, o livro dos Salmos e da Sabedoria recordam que todos os seres vivos têm um valor próprio diante de Deus, e que o ser humano é chamado a respeitar a terra e a louvar a Deus, o sábio Criador, porque eterno é o seu amor (Sl 136/135,6). Também nos escritos dos profetas, que anunciavam a vontade de Deus e denunciavam a injustiça dos homens pois, para eles, o Deus que criou o mundo é o mesmo que salva da escravidão do pecado e convida o povo a viver na liberdade e na justiça, recordando o projeto do amor a todas as criaturas e apontando que cada uma tem o seu valor e o seu significado (Is 40,28-b29; Jr 32,17.21).

O Papa utiliza dessas narrações do Antigo Testamento, para demonstrar a convicção atual de que tudo está inter-relacionado e que o autêntico cuidado com a própria vida e com as relações com os outros, com Deus e com a natureza são inseparáveis da fraternidade, da justiça e da fidelidade.

Para Refletir:

1)   Em que sentido esta Ficha pode nos ajudar a compreender  melhor o lugar da criatura humana na criação de Deus?

2)  Como cristãos, nossa fé tem nos impulsionado a cuidar e melhorar  nossas relações com Deus, com a natureza e com os irmãos? Como?

Orientações para a Interação:

a) Você poderá discutir este texto, presencialmente, com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários no final da página.

Aguarde a publicação da próxima ficha: – O ser humano, guardião dos bens da criação (LS6)

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