O Clamor da Mãe terra (LS 2)

Essa Ficha dá início às reflexões contidas no Capítulo I da Encíclica Laudato Si(LS). Nele, o Papa Francisco apresenta uma análise da realidade sobre as questões ambientais e humanas e adverte sobre a eminência de um colapso dos recursos naturais, gerado pela forma predatória como o homem tem tratado a terra. Esse é o momento do “ver”. O texto destaca que as principais causas da atual crise ecológica, que traz sérios prejuízos à sobrevivência, decorrem da busca de crescimento econômico ilimitado baseado na exploração do planeta com recursos naturais cada vez mais limitados. Convida a todos para deter a atenção ao que está acontecendo com a casa comum, e faz um apelo à tomada de consciência, no sentido de repensar a sociedade e o agir sobre a terra a partir dos seguintes pontos: poluição, mudanças climáticas, escassez da água, perda da diversidade, deterioração da qualidade de vida humana, degradação social e desigualdade planetária. E questiona: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão crescendo?” As três primeiras realidades críticas abordadas na LS: poluição, mudanças climáticas, e a questão da água, serão os temas abordados dessa segunda Ficha de estudo.

laudato_si A Campanha da Fraternidade de 2011 da CNBB (Fraternidade e a Vida no Planeta  “A criação geme em dores de parto” Rm 8,22), nos recorda que a terra é gestadora dos seres vivos, dos seres humanos, homem e mulher, e que sem ela a vida seria impossível. Em razão disso, é chamada Mãe Terra. São Francisco também a comparou com uma mãe que acolhe os filhos em seus braços, os quais, através de gestos e atitudes de gratidão, louvor, esperança e responsabilidade, compartilham a existência. A Mãe Terra, movida pela ação de Deus, pela energia de suas entranhas e pela boa convivência,  entre os seres vivos de todos os ecossistemas, vegetais, animais e minerais, constitui o meio ambiente, onde todas as formas de vida se adaptaram ao clima e às adversidades naturais de cada região. Do equilíbrio da atmosfera,  de uma temperatura adequada, dependem a vida humana e toda a biodiversidade.

O modelo de desenvolvimento existente, pautado na exploração dos recursos naturais produz poluição, aquecimento e mudanças climáticas. Isso provoca desequilíbrio no  ecossistema, compromete a vida de várias espécies e traz sérias repercussões na sobrevivência de populações autóctones e dependentes da natureza, promove a desigualdade e, consequentemente, a concentração de riqueza e poder, sem falar da degradação e da destruição do meio ambiente e das condições de vida sobre a Terra. Essa realidade denuncia uma injustiça e uma perversidade contra a Mãe Terra e contra seus filhos que foram  e continuam  sendo explorados, os quais pedem clemência e justiça, pois sendo de todos e para todos, a Terra deve ser respeitada e vista em função  de um desenvolvimento benéfico, que promova a sustentabilidade e o bem comum.

No que diz respeito à poluição, o Papa lembra que ela é resultado da mentalidade do fácil acesso aos bens e da cultura do descarte que,  além de poluir, colabora para que a Terra, nossa Casa Comum, se transforme cada vez mais num imenso depósito de lixo. A falta de uma cultura voltada para o bem comum faz com que as pessoas efetuem seus descartes sem responsabilidade, deixando seus lixos nas ruas, nos terrenos vazios, nos riachos e na natureza. Além dos resíduos domésticos  há os  comerciais, os clínicos, os eletrônicos e os  industriais, que podem ser tóxicos e/ou radioativos e produzirem um efeito de bioacumulação nos organismos dos moradores de áreas limítrofes. E junta-se a isso, os poluentes atmosféricos causados pelo transporte, pelas descargas de substâncias que contribuem para a acidificação do solo e da água, pelos fertilizantes, inseticidas, fungicidas, pesticidas e agrotóxicos em geral que, ao serem inalados, produzem efeitos maléficos à saúde, particularmente dos mais pobres, provocando milhões de mortes prematuras.

Quanto ao clima, o Papa lembra que, ao queimar as fontes de energias fósseis (carvão, petróleo, gás), a indústria produtivapapa-franciscolibera cada vez  mais o gás carbônico na forma de dióxido de carbono, que ao se juntar com outros gases, na atmosfera, como o gas metano e o óxido nitroso, produzem poluentes gasosos que comprometem o equilíbrio natural. Eles diminuem a capacidade dos seres vivos de absorverem gases saudáveis e comprometem a quantidade de gases que retem o calor da atmosfera. Além disso, isso provoca o aumento da temperatura da Terra e as mudanças climáticas como: a poluição do ar, as secas e estiagens, as chuvas abundantes com enchentes, as inundações e deslizamentos de terra, os furacões, as ondas de calor intensas, o derretimento de gelo das calotas polares, o aumento no nível da água dos oceanos, a desertificação, as queimadas e os incêndios florestais etc. Considerando que também outros fatores, como: vulcanismo, ciclo solar, variações da órbita e do eixo terrestre, têm contribuído para o aumento da temperatura global, estudos científicos indicam que a maior parte do aquecimento das últimas décadas é devido à alta concentração de gases com efeito de estufa, emitidos sobretudo por causa da atividade humana, principalmente pelo desflorestamento para finalidade agrícola.

Essas mudanças climáticas são um problema global, com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas e, atualmente, constituem um dos maiores desafios para a humanidade, e provavelmente, seus impactos recairão nas próximas décadas sobre os países em vias de desenvolvimento. Elas afetam a vida de muitas pessoas, cujos meios de subsistência como a agricultura, a pesca e a caça dependem, exclusivamente, das reservas naturais, pois animais e vegetais nem sempre conseguem adaptar-se a grandes mudanças e, geralmente, são condenados à extinção afetando os recursos produtivos dos mais pobres dessas regiões afetadas, que migram com grande incerteza quanto ao futuro da sua vida e dos seus filhos. A temperatura da Terra já está com um grau acima daquela do período pré-industrial, por isso o acordo da 21ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, de Paris (Dez 2015), COP 21, chegou a um consenso entre as 192 nações de fazer de tudo para não ultrapassar dois graus na temperatura mundial. Isso significa que será preciso esforços de cada nação, e entre seus governos, para controlar o aumento da temperatura média, contribuindo com ações mais efetivas no enfrentamento das causas.

laudato 22O terceiro ponto abordado pela encíclica é a séria questão da água e a sua qualidade disponível aos mais pobres, que frequentemente são acometidos por doenças relacionadas a ela. Esse foi o foco da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016 (Casa Comum: nossa responsabilidade”: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” Am 5,24) que abordou o tema do saneamento básico. A água potável, fruto da obra perfeita de Deus, sempre esteve disponível para o consumo de toda a humanidade, porém, devido à falta de respeito do homem com a natureza, que contaminou as nascentes e rios, e a alteração no ciclo das águas causada pelas mudanças climáticas,  atualmente, em muitos lugares, a procura de água excede a oferta, e traz graves consequências. Grandes cidades sofrem a falta de água e, além disso, sua escassez provoca o aumento no custo dos alimentos e de vários produtos que dependem de seu consumo. Em alguns lugares, cresce a tendência para se privatizar esse recurso natural, tornando-o uma mercadoria sujeita às leis do mercado. O Papa Francisco lembra, profeticamente, que o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, e que o clima é um bem comum, um bem de todos e para todos, e que ambos proporcionam condições essenciais para a vida.

Toda essas realidades levantadas na LS, pelo Papa Francisco, causam inquietação, e exige de todos uma tomada de consciência, do quanto cada um deve assumir para si, não só espiritualmente como também na prática, a responsabilidade  pessoal daquilo que acontece ao mundo, pois cada um, não só pode como deve fazer a sua parte, conscientizar-se e ajudar os outros a serem melhores no que diz respeito ao cuidado com a Casa Comum, no seu meio e junto aos seus.

É preciso ouvir o clamor da Mãe Terra, junto ao clamor dos seus filhos e filhas, que estão sofrendo com os impactos climáticos e ambientais mais evidentes como: dos povos que estão perdendo o seu território com o aumento do nível do mar, como é o caso de países constituídos em ilhas; dos que veem desaparecer rapidamente geleiras e neves nos altos das cordilheiras, como é o caso dos povos dos Andes, na América do Sul; dos migrantes refugiados, pela destruição de suas cidades, pela guerra de poderes; dos novos migrantes climáticos devido às secas prolongadas e desertificação, procurando lugar para viver com mínima dignidade; das pessoas que vivem em áreas de risco nas cidades, para onde foram empurradas pelos grileiros, grandes proprietários, donos de agronegócios;  das comunidades inteiras de indígenas do Peru ao Brasil, dizimadas por doenças e pelo desmatamento, com tribos prestes a desaparecer frente ao avanço do capital e da mercantilização da vida; dos que sofrem ou morrem pelas ondas de calor, como na Índia e no Oriente Médio (Irã e Iraque); do povo brasileiro, com as fortes estiagens no Sudeste e as piores secas no Nordeste. E ainda, as vítimas da corrupção e da violência ligadas ao progresso assentado no produtivismo, na exploração da Amazônia, na mineração indiscriminada, na construção das hidrelétricas que expulsa os ribeirinhos, de barragens improvisadas  (caso de Mariana-MG); tudo isso contribuindo para a destruição da ordem e da harmonia na criação e da integridade da casa comum, instalando o colapso ambiental.

Na LS, a humanidade é chamada a reconhecer que é parte da família universal e a viver em comunidade com nossa Mãe Terra. Cabe aos seres humanos tomarem consciência da necessidade de mudança nos estilos de vida, nas formas de  produzir e de consumir, para combater praticas que produzem o aquecimento  e, repensar o custo desse progresso sob o qual vivemos, bem como as empresas que lucram com isso. O sistema industrial de produção e consumo precisa adotar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos e para as gerações futuras. Isso exige limitar o uso de recursos não renováveis, moderando o consumo, maximizando o aproveitamento, reutilizando e reciclando materiais. Torna-se urgente o desenvolvimento de políticas capazes de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE), substituindo os combustíveis fósseis por fontes alternativas de energia renováveis como a solar, a eólica, do movimento das águas, dos lixos e resíduos orgânicos (biomassa).

Reflete sobre a comunicação pela ação litúrgica.
Reflete sobre a comunicação pela ação litúrgica.

Segundo a Carta da Terra: é preciso reduzir, reusar e reciclar, reflorestar, respeitar e rejeitar o apelo ao consumo e tudo que possa poluir o ar a fim de impedir o aquecimento global, afinal toda a comunidade de vida deve ser “cuidada com compreensão, compaixão e amor” (Carta da Terra 1,2), afinal, “as gerações que nos sucederão têm o direito a receber um mundo habitável e não um planeta de ar contaminado” (Documento da Conferência de Aparecida,n.471).

 

 Para Refletir:

  1. Que sinais de desequilíbrio a Mãe Terra está emitindo nos dias de hoje?
  2. De que forma a reflexão sobre o aquecimento global e a questão da água apresentadas pelo Papa Francisco contribuem para o cuidado da “Casa Comum”?

Orientações para a Interação:

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b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários logo abaixo deste texto.

Aguarde a publicação da próxima ficha:                       A insustentabilidade do atual modelo de desenvolvimento (LS3).

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