O ser humano, guardião dos bens da criação (LS 6)

Esta Ficha apresenta a segunda reflexão sobre o julgar, presente nos tópicos três e quatro do segundo capitulo da Encíclica Laudato Si. A base dessa reflexão está na teologia da Criação, expressão do mistério do amor de Deus, pois a existência de cada uma das espécimes manifesta a ação criadora de Deus e por meio de cada uma delas Ele continua criando.

cropped-cmliturgo-3-1.jpg Esta Ficha apresenta a segunda reflexão sobre o julgar, presente nos tópicos três e quatro do segundo capitulo da Encíclica Laudato Si. A base dessa reflexão está na teologia da Criação, expressão do mistério do amor de Deus, pois a existência de cada uma das espécimes manifesta a ação criadora de Deus e por meio de cada uma delas Ele continua criando. Seguindo as pegadas da teologia bíblica, soma-se a contribuição da teologia franciscana, que explicita a relação homem e natureza de forma ampla e integral, expressa no Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis e também da teologia cósmica do Pe. Teilhard de Chardin. Ambas demostram que a realização da vocação humana se dá na profunda relação com todas as criaturas e com o universo e no esforço em preservar e reconstruir, onde se fizer necessário, as condições de vida para todos os seres. Agindo dessa forma, o ser humano estará preservando o meio ambiente, as relações e a sua própria vida.

 O mistério do universo

trigoA encíclica destaca a ecologia integral, indicando que segundo a tradição judaico cristã toda a criação é fruto do amor de Deus, segundo a qual cada criatura tem valor e razão de ser. Ela não é fruto do acaso, mas da vontade de Deus que tudo criou e “viu que tudo era bom” (Gn 1, 25).

O homem, como parte integrante da criação e primeiro beneficiário, é chamado a ser guardião da “Casa Comum”, para que possa viver e dar abrigo as outras criaturas. Para cumprir tal responsabilidade Deus dotou-o de inteligência e capacidade para descobrir a sua vocação em relação a cada ser que existe no universo, tal qual cantou São Francisco. Este caminhar vocacional ajudará o homem a se constituir como pessoa aberta à transcendência de Deus, que reconhece o significado e a beleza misteriosa de tudo o que existe no mundo, como expressão da grandiosidade do Criador. Através da liberdade, o homem escolhe construir a “apaixonante e dramática história humana” que o levará “à vida”, à salvação e ao amor, ou, pelo contrário, “à morte”, num percurso de declínio e mútua destruição (Sl 1). Na descoberta de sua vocação, a criatura humana conta com a ajuda da comunidade eclesial para encontrar o caminho para o bem, afastando o mal presente no seu coração (Caritas in Veritate, 687) No Evangelho anunciado por Jesus o mundo é casa comum de todos e para todos e toda criatura humana é chamada a guardá-lo e protegê-lo. Na antecipação do reino, o Discípulo Missionário segue o seu Mestre e Senhor e se coloca a serviço da comunhão e dos menores “quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo” (Mt 20, 25-26) (LS 82).

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Tal reflexão esta embasada na concepção de que a ciência não se opõe à fé, como muitos interpretaram na teologia criacionista (ainda não plenamente superada), que se opunha à Teologia da Criação. São João Paulo II, na Encíclica Fides e Ratio, lembrou que a ciência existe para colaborar com a fé e as duas são importantes para compreender a criação do mundo. Resgatando o pensamento do Pe. Teilhard de Chardin [1], o papa Francisco lembra que as criaturas não existem para o simples bem estar e usufruto do homem, mas como criaturas nascidas do coração de Deus e todas têm a sua razão de ser no mundo; a de contribuir na construção da pessoa humana e junto com todas as demais criaturas caminhar para “a meta comum”, que é Deus, numa plenitude transcendente onde Cristo ressuscitado tudo abraça e ilumina.

 A mensagem de cada criatura na harmonia de toda a criação

O papa destaca que para a teologia bíblica, a vida de todas as criaturas é uma mensagem de Deus pelo ser humano e ele próprio uma mensagem para os outros seres. “Todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. Alcançar essa compreensão se insere num caminho espiritual de contemplação que poucos experimentaram. Citando os bispos do Japão, o papa destaca que “Sentir cada criatura que canta o hino da sua existência é viver jubilosamente no amor de Deus e na esperança”. De outro lado, ao compreender a mensagem de Deus deixada em cada criatura, o homem se reconhece também como mensagem divina para as outras pessoas e também para os outros seres. Escolher uma vida em Deus é fazer-se sinal de comunhão e serviço a todas as criaturas de Deus. Para ilustrar esse pensamento o Papa Francisco inseriu na encíclica o cântico de São Francisco de Assis. Ao se refletir sobre este cântico, percebe-se a sensibilidade de São Francisco de Assis com a natureza e o universo, que também T. Chardin vivenciou, em sua produção teológica e na vida. Ambos deixaram se mover pelo encanto do universo como obra do amor de Deus, olhando amorosamente o mundo e todos os seres que nele habitam. Desenvolveram a espiritualidade da escuta e da atenção, do cuidado e da sensibilidade, do respeito e do amor por tudo que existe, fazendo Deus transparecer em todas as coisas. Por isso, a partir deles devemos repensar nossa relação com a criação, com a natureza, pois motiva um novo olhar sobre a Terra, mãe que acolhe, abriga e nos faz irmãos. E com São Francisco poderemos cantar o “Louvado Sejais Senhor!” pela “Igreja em saída”, cinquenta anos após o Concílio Vaticano II, em que o Papa Francisco abre a porta do Ano Santo da Misericórdia e Solidariedade, uma oportunidade para assumir e enfrentar os desafios ecológicos do nosso tempo.

No documento “A Igreja e a Questão Ecológica” os bispos brasileiros destacaram que a natureza, é também o lugar da manifestação de Deus, “o lugar da sua presença” ainda que não em plenitude. Descobrir esta presença estimula o desenvolvimento das “virtudes ecológicas”, que o Papa tem recomendado insistentemente, como modo de viver a espiritualidade cristã. Entre elas podemos citar: simplicidade, humildade, respeito e sobriedade no uso dos bens da natureza, contemplação e paz interior, alegria e serenidade, reverência, louvor e gratidão ao Criador pelos bens da criação, cuidar da criação com pequenas ações diárias e participação na construção do bem comum, ternura nas relações, solidariedade e partilha, compaixão, amor e perdão, corresponsabilidade coletiva, a auto limitação e a justa medida, virtudes que toda criatura humana deve cultivar para reconhecer o seu lugar verdadeiro e próprio, o de ser criatura, uma mensagem de Deus para todos os outros seres. Oxalá, a criatura alcance essa percepção de mensagem e mensageiro de Deus.

Nota

[1] Pierre de Teilhard de Chardin (1881-1955), foi um padre jesuíta francês, de formação científica (paleontólogo e geólogo), filósofo e teólogo que rompeu fronteiras entre a ciência e a fé, com sua teoria evolucionista. Em 1922 foi acusado de negar o dogma do pecado original e foi proibido de ensinar teologia. Transferido para a China, continuou suas pesquisas, sempre destacando que a fé não contradizia a ciência. Somente em 1981, 26 anos depois de sua morte, a Igreja reconheceu seu valor, incorporando seus escritos no magistério eclesial, seu pensamento permeia um dos documentos mais importantes do Concílio Vaticano II, a Gaudium et Spes; também a Encíclica Fides e Ratio demonstra a importância da ciência para a fé. O papa Bento XVI também fez referências à sua teologia e o Papa Francisco a cita explicitamente na LS.

 

 

 Para Refletir

1) Qual o sentido da vida humana na Teologia da Criação? Como resgatá-lo em meio aos desafios ecológicos da atualidade?

2) Reflita sobre o Cântico da Criaturas, de São Francisco. Qual a frase que mais chama a sua atenção?

Orientações para a Interação:

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Aguarde a publicação da próxima ficha: – Jesus Cristo o verdadeiro sentido da comunhão universal (LS-7)

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