Vestes Litúrgicas

  1. 1- História das vestes litúrgicas

1.1. Origem: as vestes civis do império romano. Até sec. V, os ministros celebravam com roupa civil, embora fosse domingueira (isto é importante teologicamente: não vem das vestes sacerdotais dos judeus usadas do templo).Quando a moda mudou com os bárbaros, a Igreja ficou com as mesmas; as tradicionais se tornam normativas ; houve muitas modificações, a seguir . A diferenciação se dá sobretudo entre os sec. IV e IX.

1.2- As vestes atuais vem de duas vestes romanas:                                                                                                        a) uma veste interior:  seja longa:   veste talar (talon) usada dentro de casa ou mesmo fora: vai dar na – veste talar; alva; batina.                                                             seja curta: até os joelhos com ou sem manga – vai dar na – dalmática e sobrepeliz (suprapelicia, roquete)

Veste liturgica

 

 

 

b) uma veste superior: manto vai dar na – casula e  capa

1.3- Vestes dos ministros inferiores: também tem tradição aí

a) AT: cantores: 2 Cr 20,21 – Séc. XIII cantores com capa pluvial com capuz    (cf. os corais de hoje.)

b) leitores alva – sobrepeliz

1.4- Brigas por causa de roupa: Altos e baixos na história:

– reforma protestante: os crentes, as seitas etc.

– Vaticano II : simplificação

1.5- Por quê as vestes mudam na história – Por causa de:

a) concepções doutrinais                                                                                (estatuto e função)

b) modificações rituais:                                                                                 (elevação do pão e do cálice)

c) moda: (os gostos mudam)

2 –As vestes dos ministros depois de Vaticano II :

Princípios e Normas (IGMR nº 297, 310; Cerimonial dos Bispos nº 56-67)

2.1 Princípios: duas razões principais

2.1.1. sinal da função exercida; a veste diversa distingue as funções diversas

2.1.2. arte: contribuir para a beleza da ação sagrada

2.2 A veste comum de todos;  a alva;

específica: padre: casula e estola; diácono: dalmática e estola a tiracolo; alva túnica demais ministros ( leitores) etc.: “os acólitos, leitores e demais ministros, em lugar da alva, podem usar outras vestimentas aprovadas”(CB 65)

“Os ministros inferiores ao diácono podem trajar alva ou outra veste legitimamente aprovada em cada região”(IGMR 301)

– só podem tomar lugar no presbitério “com vestes”

3. As Orientações da CNBB a respeito ( para celebrações da Palavra) CNBB, Doc. 52 série azul, nº 49

A diversidade de ministérios na celebração é significada exteriormente pela diversidade das vestes, que são sinais distintivos da função própria de cada ministro. Na celebração da Palavra podem-se adotar vestes litúrgicas confeccionadas segundo a sensibilidade e o estilo próprio das culturas locais. Por sua vez, a diversidade de cores tem por finalidade exprimir de modo mais eficaz, o caráter dos mistérios da fé que se celebram e o sentido da dinâmica da vida cristã ao longo do ano litúrgico.”

4. A experiência da Mustardinha: tradição romana e inculturação

A verdadeira tradição romana valoriza a dimensão ritual simbólica: a acentuação gestual, do ritual, que faz apelo a todos os sentidos: ouvir (Palavra, música, instrumentos) o ver (cores diversificadas, muitos ministros para muitas funções) o sentir (incenso) o agir: procissões diversas: entrada / Evangelho Ofertas Comunhão.

Na perspectiva da inculturação, valorizar a tradição romana inculturada levando em conta valores de origem africana. É preciso valorizar todas as culturas. Procuramos valorizar a cultura africana na estética : desenhos das grades, vestes e dança ( que integra as diversas culturas).

4.1. Padre: Túnica alva para o Padre de origem zairense segundo as cores litúrgicas.. Motivo: a alva-túnica do Brasil vinha sem as cores litúrgicas.

4.2. Ministros leigos: procuramos uma veste específica para leigos e leigas, e diferenciada segundo as funções de serviços: ministro da comunhão, animador (a), leitor -a, e demais (participantes da dança litúrgica, das ofertas) segundo a tradição romana ritual que valoriza os sinais e conforme as funções. Corresponde a dados de hoje como: Valorização do corpo, a volta ao sagrado e ao religioso.

Chegamos a um modelo que se insere na tradição das vestes romanas, (sobrepeliz amplo) as influencias nordeste as ( cf. batas do Ceará e da Bahia), Por questões econômicas: procuramos uma veste: igual para homem e mulher; e de tamanho único. É melhor quando a mulher usa saia bastante comprida em vez de calça; usa colares por cima da veste; Para o homem, manga curta ou comprida, gola da camisa por cima da veste. O lugar e as vestes dos ministros (extraído da ficha sobre os ministérios litúrgicos).

No presbitério tomam lugar os ministros ordenados, os ministros instituídos e os ministros leigos que servem ao altar ou aos ministros ordenados. Para estes são previstas vestes diferenciadas conforme a função exercida (IGMR2000 335). “A alva é a veste comum a todos os ministros ordenados e instituídos de qualquer grau”(IGMR2000 336). Para o sacerdote celebrante a veste própria é a casula sobre a alva e a estola ou a alva-casula; para o diácono a dalmática em celebrações mais solenes. Os acólitos, os leitores e os outros ministros leigos podem trajar alva ou outra veste legitimamente aprovada pela Conferência dos Bispos em cada região”(ibid. 339). No Brasil, há algum tempo, sentiu-se o desejo de que os ministros leitores, ministros da comunhão e outros ministros que servem ao altar e tomam lugar no santuário usassem uma veste adequada. Torna-se cada vez mais freqüente o uso de batas brancas com faixas coloridas ou inteiramente coloridas usadas por homens e mulheres ou mesmo crianças ao lado de alvas ou das tradicionais vestes dos “coroinhas”.

Os demais ministros que servem ao povo tomam lugar de acordo com a finalidade do seu ministério e não precisam usar vestes especiais. No entanto, é normal o uso de vestes adequadas específicas para o ministério da dança ou expressão corporal.

Documento 43

A pedido de Dom Clemente Isnard, então responsável pelo setor de Liturgia da CNBB, redator das Orientações pastorais sobre a celebração Eucarística, 2ª parte do Documento 43 série azul da CNBB Animação da vida litúrgica no Brasil (1989)

Conversas sobre o Ofício divino das Comunidades – V

Em continuidades a série de conversas sobre o Ofício Divino das Comunidades, desta vez destacamos a experiência na comunidade de Taizé.

A contribuição da Comunidade de Taizé

Nossa conversa sobre o Oficio Divino das Comunidades vai agora focar a atenção sobre a experiência de Taizé. Essa comunidade ecumênica tem participação fundamental na sua elaboração. As primeiras experiências de um oficio popular, realizadas no Brasil pelo Pe. Geraldo Leite, teve nela sua inspiração. Pe. Geraldo passou nove meses convivendo com a simplicidade e a beleza dos ofícios na comunidade de Taizé, (França), e foi esta experiência que o animou a começar, no Brasil, precisamente em Ponte dos Carvalhos, um Oficio Divino com o povo.

ODC
Ofício Divino das Comunidades

O Irmão Michel da Comunidade de Taizé, que viveu no Brasil e fundou uma comunidade, em Alagoinhas (BA), com sua longa trajetória de celebrar o oficio com o povo, participou do processo de elaboração do Oficio Divino das Comunidades, dando sua colaboração bem precisa e muito valiosa. Ambos já fizeram sua páscoa e participam do incessante louvor na casa do Pai, mas suas contribuições continuam vivas no Ofício Divino das Comunidades e, são transmitidas agora pelo irmão Bruno, da mesma comunidade de Alagoinhas. De modo muito sincero, ele diz: “não falo muito “. Mas suas respostas curtas dão o que pensar… Ousamos, comentá-las, para aprofundarmos a contribuição que ele oferece neste bate-papo. Em nossos comentários não queremos repetir simplesmente o que ele diz em suas breves respostas, mas refletir com ele alguns aspectos importantes sobre a prática do Oficio Divino das Comunidades.

(Para fins de distinção, transcrevemos as respostas de Frei Bruno, seguida pelo comentário, em itálico).

RL: Qual a contribuição da liturgia de Taizé na elaboração do Oficio Divino das Comunidades (ODC)?

Irmão Bruno: Como toda liturgia, o Oficio Divino é um corpo vivo. Veicula verdades perenes e circunstanciais. Necessita adaptar gênero literário e vocabulário para que as mentalidades do tempo presente possam se situar como realidade viva, corpo orante. Ir. Michel passou esta intuição.

— A intuição do Irmão Michel, segundo as palavras de Irmão Bruno, não se refere a um livro apenas, e ao que ele contém. Está falando da celebração, dos cantos, dos gestos, dos símbolos como o incenso, a música e o espaço com todos os elementos. Está falando das pessoas: as histórias que elas carregam, as situações que vivem, os sonhos que nutrem. O Oficio Divino das Comunidades como corpo vivo tem a ver com a Igreja, que é Corpo orante de Cristo ressuscitado, o vivente, que continua o seu louvor nas expressões particulares do Brasil com sua diversidade regional e traz para a celebração as suas feições mais próprias. Por sua qualidade de corpo, está ligado ao restante dos membros (ao nosso país com toda sua riqueza humana e à Igreja universal que abraça tudo o que traduz a fé).

RL: Os refrãos meditativos no Oficio Divino das Comunidades são amplamente utilizados. Como você avalia esta utilização?

Irmão Bruno: O Oficio Divino das Comunidades existe em várias versões: a edição básica e edições menores também para jovens, adolescentes e crianças, nas quais os mantras são muito valorizados… Estes refrãos meditativos cantados são da ordem da oração do coração. A contribuição de Taizé virou patrimônio de toda a Igreja. Taizé escolheu letras da Bíblia ou dos santos. Taizé não tem primazia, porém tem grande aceitação.

— “A ordem do coração” sobressai no texto do Irmão Bruno… Os mantras talvez exprimam esse segredo da comunidade de Taizé: pequenos textos cantados repetidamente, sem o muito falar das nossas celebrações. A circularidade do canto, a cadência, a palavra ressoada e o clima orante que se estabelece, conduz o corpo-Igreja para o coração do Mistério e para o íntimo das pessoas, fazendo todos e cada um experimentar a verdade da fé, na comunhão dos irmãos e irmãs e na própria experiência de Deus. Taizé aponta a direção do coração, lá onde os segredos se escondem e o mistério faz livre e gratuita morada. A ordem do coração supera as lógicas do raciocínio, da presunção, da oração orgulhosa que não agrada a Deus. A ordem do coração permanece na soleira do templo, onde o humilde se esvazia de si mesmo diante do mistério (Lc 18,9-14). A lógica do coração admite a ritualidade dos humildes, as palavras dos santos, pequenos trechos da Bíblia, em busca da “serena alegria”… É patrimônio da Igreja! Taizé deu ao Oficio Divino das Comunidades o que tinha de melhor: mais que os mantras e os seus cantos, deu o espírito de gratuidade na oração.

RL: Quais as semelhanças e diferenças entre os ofícios de Taizé e as celebrações do Oficio Divino das Comunidades?

Irmão Bruno: Pela sua natureza ecumênica, ladainhas e introduções, os dois ofícios são reflexo de catolicidade. Embora a estrutura seja, grosso modo, a mesma, Taizé não .coloca a memória do dia, porque salienta mais o lado da contemplação. Taizé privilegia o silêncio após a Palavra.

— Irmão Bruno indica outra maneira de entender a catolicidade: universalidade, O que é universal é de todos e não é propriedade de ninguém. No Oficio Divino das Comunidades, assim como nos ofícios de Taizé, o componente ecumênico da oração abraça o que é universal e o que escapa dos rótulos e partidarismos. As ladainhas e introduções (aberturas), por sua repetição e popularidade são acessíveis e encantam muito! O silêncio após a Palavra tem a primazia: espaço para deixar falar Aquele que é inominável. A memória do dia cede lugar à contemplação, com ênfase na oração pessoal dentro da oração comunitária. Não nega a importância da recordação da vida, tão valorizada no Oficio Divino das Comunidades, mas talvez mostra um lado desconhecido e temido pela nossa mentalidade religiosa ocidental. Em tempos de pós-modernidade, que tanto valoriza o sentir e o experimentar, é preciso redescobrir o caminho certo da experiência subjetiva como oportunidade de conduzir ao mistério de Cristo, enquanto experiência objetiva da fé.

RL: Qual a contribuição do ODC para a Igreja do Brasil

Irmão Bruno: Após o Concílio Vaticano II e a redescoberta da participação ativa do povo de Deus na liturgia, vejo o Oficio Divino das Comunidades como a resposta mais ajustada, principalmente pelos salmos e músicas (mérito de Jocy Rodrigues, Geraldo Leite, Reginaldo Veloso e outros).

— A participação dos fiéis, fruto do Movimento litúrgico que se afirma no Concílio, rompeu com séculos de separação e distanciamento entre o povo e a liturgia da Igreja. Embora estejamos longe de mensurar o seu alcance, poder participar das ações litúrgicas, ativamente e com conhecimento de causa, representa grande avanço. No Oficio Divino das Comunidades todos(as) cantam, todos(as) se elevam a Deus, todos(as) têm acesso à liturgia, o que faz dele uma resposta mais ajustada ao nosso mundo plural e com tanta diversidade…

RL: Quais elementos ecumênicos você destaca no ODC?

Irmão Bruno: O Oficio Divino das Comunidades não cuidou apenas dos aspectos ecumênicos, mas incorporou elementos que se referem ao macro-ecumenismo, como por exemplo, preces de outras tradições e religiões.

— De fato, no Oficio Divino das Comunidades os elementos ecumênicos se fazem presentes: a oração do Senhor em versão ecumênica, o sentido cristológico, trinitário e bíblico da oração, a inclusão de hinos de outras tradições cristãs e denominações, o cuidado e a opção pela linguagem inclusiva e popular. O irmão Bruno volta a atenção para o aspecto macro-ecumênico, também chamado hoje de “inter-religioso”. O Oficio Divino das Comunidades incorpora elementos religiosos de outras tradições; basta tomarmos como exemplo os ofícios para circunstâncias especiais, quando, diante de situações de fronteira e de limite, falam menos as diferenças e mais a busca pela vida, pela paz e pela sobrevivência. Tudo isso depõe a favor do Oficio Divino das Comunidades como oração de todos(as) e aberta a todos(as).

RL: A tradição monástica contribuiu para a liturgia do Oficio Divino das Comunidades? Como?

Irmão Bruno: As comunidades monásticas foram guardiãs desta tradição da Igreja ao longo dos séculos e mantiveram a forma mais primitiva da oração comunitária. O Oficio Divino das Comunidades não propõe ao povo todos os ofícios dos monges, mas as duas horas principais, como acontecia nas comunidades eclesiais dos primeiros séculos.

— O Irmão Bruno nos remete aos primórdios dos ofícios da Igreja: os ofícios monásticos e os ofícios de catedral. Os primeiros, com suas diversas horas, organizados para as comunidades de homens e mulheres com a vida dedicada e consagrada à oração. A segunda forma, os ofícios de catedral ou de paróquia, eram especialmente marcada pela oração da manhã e da tarde, com a presença de todo o povo de Deus: famílias, jovens e crianças, também os monges e monjas, presbíteros e bispo… Infelizmente, o segundo modelo praticamente se perdeu na Igreja ocidental, mas está renascendo com iniciativas como as de Taizé, desde o movimento litúrgico, e a Liturgia das Horas do Concílio Vaticano II, que em nossas comunidades chega na forma do Oficio Divino das Comunidades, onde o povo toma parte na oração em momentos especiais do dia, do ano litúrgico e de circunstâncias especiais.

 

 Fonte: Revista de Liturgia – 220 – Ano 37/2010

Vivência sobre os livros litúrgicos

Formação realizada em 09 de abril de 2016

VIVÊNCIAS – Um dos caminhos metodológicos utilizado no aprendizado litúrgico que confronta teoria e prática.Acompanhando a 2 anos este grupo composto por 36 pessoas estamos realizando uma série de vivências

Vivencia sobre os livros litúrgicos
Vivencia sobre os livros litúrgicos

com o propósito de aprofundamento dos conhecimentos teóricos adquiridos no curso de liturgia ministrado no IESMA .

Vivencia sobre os livros litúrgicos
Vivencia sobre os livros litúrgicos

 

Formação litúrgica sobre os livros liturgicos
Formação litúrgica sobre os livros litúrgicos

Conversa sobre o Ofício Divino das Comunidades – IV

Nossa entrevistada desta vez é Ione Buyst já bem conhecida de nossos/ as leitores/as. Tendo participado do processo de elaboração do Oficio das Comunidades deste os inícios, e tendo contribuído com a reflexão teológica a partir de sua prática, Ione enfatiza o Oficio Divino enquanto ação litúrgica, com sua dimensão simbólico-sacramental, como fonte de vida espiritual.

RL: O Oficio Divino das Comunidades (ODC) é uma rica experiência da Liturgia das Horas no Brasil. Esta experiência certamente é uma contribuição ímpar para a reforma da Liturgia. Quais aspectos você aponta como ganhos nesta caminhada?

Oficio Divino das comunidades
Oficio Divino das comunidades

Ione: O Concílio Vaticano II fez a chamada revolução copernicana da liturgia, em termos de eclesiologia, reafirmando claramente que as ações litúrgicas são ações da Igreja, povo santo e sacerdotal. Toda, a reforma conciliar tem este objetivo: possibilitar e facilitar a participação deste povo na liturgia. Finalmente, toda a liturgia, também a liturgia das horas, seria devolvida ao povo de Deus, para que através dela pudesse mergulhar no mistério de Cristo, viver na comunhão do Pai e do Filho e do Espírito Santo, como fermento, como sacramento de união de toda a humanidade. Então, o primeiro ganho que o Oficio Divino das Comunidades oferece à reforma da liturgia é de contribuir com uma liturgia das horas inculturada, mais próxima e ao alcance do povo brasileiro; desta forma possibilita que se realize a proposta do Vaticano II de restaurar a liturgia das horas como oração do povo de Deus, e não apenas do clero e de membros de congregações religiosas.

RL: Muitas pessoas alegam que o povo se alimenta das devoções e, por isso, não teria necessidade do ofício divino. O que pensar sobre isso?

Ione: De fato, a vida de oração do povo brasileiro continua sendo forjada e alimentada por inúmeras devoções mais do que pela palavra de Deus e pelas celebrações litúrgicas: novenas, vias-sacras, terço, procissões, romarias, cumprimento de promessas, adoração do Santíssimo, orações aos santos e santas…, porque foi isso que, desde a evangelização do continente, foi proposto e divulgado. A maioria dos católicos nunca ouviu falar de liturgia das horas, ou de ofício divino, como até algumas décadas atrás também não tinha acesso à Bíblia. No entanto, o povo de Deus tem direito a conhecer o oficio divino, como herança deixada por Jesus e pelas primeiras comunidades cristãs. Tem direito de se alimentar deste oficio que é pura palavra de Deus escutada e meditada.

Mas é preciso garantir que o ofício divino não venha a ser engolido ou absorvido na tendência devocional de se usar as práticas religiosas para obter de Deus bênçãos, curas e outros benefícios. Até mesmo a celebração eucarística corre este risco de ser vivida como devoção mais do que como sacramento. Daí a necessidade de uma boa formação bíblica, teológico-litúrgica e espiritual juntamente com a introdução pedagógica da prática do ofício, para que leve a uma participação consciente no mistério celebrado.

RL: É possível falar de sacramentalidade do ODC? Em que sentido?

Ione: Sem dúvida. Como liturgia das horas inculturada, o Ofício Divino das Comunidades é ação memorial, celebração da aliança de Deus com o seu povo, no ritmo antropológico de alternância entre o dia e a noite, que marca profundamente nossa existência. O sol que morre e ressuscita a cada dia torna-se no ofício divino símbolo de Cristo morto e ressuscitado, Sol da justiça, Sol que não tem ocaso, Luz do mundo, que orienta e ilumina diariamente nossa vida pessoal e social com seus altos e baixos, com seus êxitos e fracassos, com suas esperanças e desilusões, na saúde e na doença, nos momentos de alegria e de tristeza. O ofício acompanha também o ano litúrgico com a celebração de todos os mistérios do Senhor. Fazendo memória de Cristo, de sua morte e ressurreição, somos atingidos pela força transformadora de sua páscoa. Somos levados a fazer de nossa vida uma experiência pascal, a trazer sempre em nosso corpo a morte de Jesus para que também sua vida se manifeste em nossa carne mortal (SC 12, referindo-se a 2Cor 4,10-11), na expectativa do Dia sem fim, do Reino de Deus realizado em plenitude. E é bom lembrar que aí está a fonte da espiritualidade cristã: na participação no mistério de Cristo, a partir da participação na liturgia, a partir da experiência ritual.

RL: Poderíamos dizer que a espiritualidade tem forte relação também com a ritualidade?

Ione: Como toda a liturgia, o ofício divino é uma ação ritual e deve ser vivido como tal; não pode ficar reduzido a uma recitação rotineira e enfadonha de textos. A regra básica da Sacrosanctum Concilium vale também para a celebração do ofício divino: é preciso participar ativa, consciente, plena e frutuosamente. Costumamos falar de celebrar na inteireza do ser realizo as ações rituais com a plena atenção de meu corpo, de minha mente, de minha afetividade…, numa relação de comunhão com Deus, deixando que o Espírito atue em mim. E preciso aprender este jeito de celebrar que conjuga ritualidade e espiritualidade, oração pessoal e comunitária, tradição bíblico-litúrgica e piedade popular, num clima afetivo de comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs…, tão distante do formalismo e da sisudez de muitas liturgias realizadas com pressa, sem sabor e  aparentemente sem amor.

A Constituição do Concílio Vaticano II sobre a liturgia propôs a troca da recitação do breviário pela celebração da liturgia das horas. Porém, fora as comunidades monásticas e algumas congregações religiosas, seminários e casas de formação, a maioria dos usuários da liturgia das horas continuam o estilo do breviário: fazem simplesmente uma leitura de textos, e não uma celebração litúrgica. O Oficio Divino das Comunidades abre um caminho para superar esta grave limitação.

RL: Os elementos da Liturgia das Horas têm os salmos e cânticos como centro gravitacional. No Oficio Divino das Comunidades, como esses elementos são considerados?

Ione: O Oficio Divino das Comunidades oferece 110 salmos e 52 cânticos bíblicos do antigo e do novo testamento em linguagem poética e musical popular. São colocados no início do livro, deixando a cada comunidade ou grupo a liberdade de escolha, de acordo com o tempo disponível e o conhecimento da melodia; o livro oferece ao mesmo tempo indicações de salmos adequados a cada oficio e ainda uma tabela dos salmos seguindo a divisão do saltério em quatro semanas, conforme a Liturgia das Horas. Cada salmo e cântico vem introduzido por uma frase do Novo Testamento que ajuda a ligar o salmo com a experiência de Jesus e um pequeno texto que procura atualizar o salmo ou cântico (Cf. Introdução do livro, p. 12). Alguns salmos e cânticos trazem antífonas ou refrãos. O canto costuma ser acompanhado por instrumentos musicais: violão, pandeiro, tambor, atabaque, flauta, violino, teclado… de acordo com a possibilidade de cada grupo. Introduzimos o hábito de deixar um silêncio após cada salmo ou cântico para meditação pessoal ou para revolver no coração um ou outro verso que tocou mais; no final, várias pessoas dizem esta frase em voz alta, criando assim uma partilha espiritual. Um ou outro grupo aprendeu a fazer oração sálmica, mas o livro não oferece textos para isso. Nos encontros de formação, muitos grupos introduzem lectio divina (leitura orante) com um ou outro salmo ou cântico, para que se tornem mais conhecidos e possam ser saboreados e cantados com mais proveito espiritual.

Merece um destaque o salmo invitatorial inserido na abertura do oficio, que é feita em forma de repetição, facilitando a participação de todos e todas, sem ter necessidade de acompanhar no livro, o que deixa também a mente mais livre para a meditação. O cântico de Zacarias e o cântico de Maria vem muitas vezes acompanhados de leves movimentos de dança, reforçando seu teor festivo.

RL: Gostaria de lembrar outros elementos rituais importantes no Ofício Divino das Comunidades?

Ione: Os ofícios começam com um refrão meditativo (dos cantos de Taizé, ou outros do mesmo estilo), repetido várias vezes, e desembocando em silêncio, facilitando assim a concentração espiritual dos participantes.

Um outro elemento ritual novo, que vem logo depois da abertura, é a recordação da vida. Quem quiser poderá lembrar algum fato importante acontecido na cidade, na região, no mundo… Desta forma nossa oração fica conectada com a realidade, enquanto procuramos discernir nela os sinais dos tempos, sinais do Reino, sinais de morte e ressurreição, sinais do mistério pascal de Jesus Cristo acontecendo na história atual, nos fatos, nos acontecimentos pessoais e sociais. Esta relação da liturgia com a realidade expressa a dimensão profética da liturgia; une luta e louvor; culto e misericórdia; anuncia o mundo que há- de-vir; denuncia e exorciza o espírito do mundo. Expressa a Aliança com o Deus que faz opção pelos pobres e excluídos. E bem de acordo com a prática eclesial latino-americana; vem expressa nos documentos do magistério latino-americano (Medeilín, Puebla, Santo Domingo, Aparecida) e a encontramos resumida numa frase lapidar no documento 43 da CNBB: ‘Páscoa de Cristo na páscoa da gente, páscoa da gente na páscoa de Cristo’. (item 300). Os fatos citados no início do oficio nos acompanham como pano de fundo durante o canto do hino, dos salmos e cânticos bíblicos, durante a leitura bíblica… e podem ser retomados nas preces, como participação na intercessão de Cristo que acompanha com atenção a vida de todas as pessoas, de todos os povos, principalmente dos mais pobres. No oficio da tarde ou da noite, é proposta uma revisão de vida do dia que passou…: onde vimos a salvação acontecer? Onde impedimos a passagem de Deus no meio do povo?…

RL: Existem muitas publicações que acompanham o Oficio Divino. Nestas publicações, alguns elementos novos aparecem e outros são revistos, o que nos leva a pensar que o ODC está em processo evolutivo, ou de amadurecimento de sua proposta. Existem elementos a serem revistos?

 Ione: O Oficio Divino das Comunidades não é uma proposta fechada. Na medida em que se espalha pelo Brasil afora, vai dialogando com a riqueza das muitas tradições e grupos culturais do norte e do sul, do leste e do oeste, dos indígenas e afrodescendentes, de comunidades religiosas, de moradores de rua e de ribeirinhos, de jovens, adolescentes e crianças, grupos de catequese… Assim vão surgindo símbolos, gestos, vestes, novas melodias para as aberturas, para os hinos, salmos e cânticos… Costuma-se adaptar o tamanho do oficio às possibilidades e sensibilidades de cada grupo: mais curto ou mais ampliado. Há ainda a adaptação do oficio para determinadas ocasiões ou circunstâncias especiais, algumas já previstas no livro, outras surgindo de necessidades locais: encontros pastorais, romarias, colheitas, mutirões, bênção de uma casa, ocupações, encerramento da festa do padroeiro ou padroeira, celebração com enfermos… Certos grupos, na medida em que vão amadurecendo, procuram inserir outros elementos da liturgia das horas que não foram inicialmente previstos no Oficio Divino das Comunidades: mais antífonas e responsos, oração sálmica, leituras hagiográficas e patrísticas.

Fonte: Revista de Liturgia – Ano 37 – 219

Funções e Ministérios

Esclarecimentos sobre as funções e ministérios exercidos na celebração eucarística.

FUNÇÕES E MINISTÉRIOS LITÚRGICOS NA MISSA

Pe. Jacques Trudel, S.J.

“Na assembléia reunida para a Missa, cada um tem o direito e o dever de contribuir com sua participação, de modo diferente segundo a diversidade de função e de oficio. Por isso todos, ministros ou fiéis, no desempenho de sua função, façam tudo e só aquilo que lhes compete, de tal sorte que, pela própria organização da celebração, a Igreja apareça tal como é constituída em suas diversas funções e ministérios.”(IGMR 58)

O QUE É?

Para conseguir uma boa celebração litúrgica bem participada e frutuosa, são necessárias muitas pessoas com funções litúrgicas específicas a serviço da assembléia. Vaticano II reconheceu o valor de ministério litúrgico a esses diversos serviços e pediu que se respeitassem as funções de cada um. Assim ao padre pertence presidir, mas não proclamar as leituras, função própria do leitor, nem o evangelho se houver diácono etc.:

  1. “Também os ajudantes, leitores, comentadores e componentes da “Schola Cantorum” desempenham um verdadeiro ministério litúrgico.” (SC 29)
  1. “Nas celebrações litúrgicas, cada qual, ministro ou fiel, ao desempenhar a sua função, faça tudo e só aquilo que pela natureza da coisa ou pelas normas litúrgicas lhe compete (SC 28)

A Instrução Geral do Missal Romano – IGMR divide o Capítulo III, Funções e Ministérios na Missa, em três secções (58-73).

  1. Funções e ministérios de ordem sacra do Bispo, presbítero ou diácono. Pelo seu ministério próprio à frente do povo de Deus, “o Bispo ou o presbítero tem a função presidencial na Eucaristia.” (N92) e “o diácono ocupa o primeiro lugar entre aqueles que servem na celebração eucarística” (N94).
  1. Função e papel do povo de Deus: “cada um tem o direito e o dever de contribuir com sua participação”(58).

III. Ministérios particulares, com duas categorias principais de ministérios

  1. MINISTÉRIOS A SERVIÇO DO ALTAR E DA PROCLAMAÇÃO DA PALAVRA – os ministros tomam lugar no presbitério.

O ministério de leitor e acólito instituídos (N 98-99)Na reforma das “ordens menores”, em 1972” , a Igreja latina decidiu manter os ministérios de leitor e acólito instituídos(IGMR 65-66) como ministérios inferiores aos da ordem sacra, obrigatórios para todo candidato à ordenação, como preparação para os futuros ministérios da Palavra e do Altar. Esses ministérios poderiam ser confiados, também, a fiéis leigos homens como ministério, em si, permanente.

  • O leitor é instituído para o ministério da leitura da Palavra de Deus na liturgia (exceto o Evangelho) Pode propor as intenções para a oração universal e, faltando o salmista, proferir o salmo entre as leituras (98). É encarregado de preparar outros leitores leigos temporários e instruir na fé crianças e adultos para receberem dignamente os sacramentos.
  • O acólito (ajudante) é instituído “para o serviço do altar e auxiliar o sacerdote e o diácono”(65). Prepara o altar e os vasos, é ministro extraordinário para a comunhão e encarregado de preparar outros ajudantes leigos temporários que exercem algum ministério, como os que levam o livro, a cruz, as velas, o turíbulo para incenso ou outras funções semelhantes.

Para nós, que não temos ministros leigos instituídos, a instituição recorda a seriedade das funções e a importância de alguém capacitado que cuide da formação e treinamento dos leitores e ajudantes, acólitos coroinhas leigos.

As demais funções de ministros leigos

  • Leitores: “Na falta de leitor instituído, sejam delegados outros leigos, realmente capazes de exercerem esta função e cuidadosamente preparados, para proferir as leituras da sagrada Escritura, para que os fiéis, ao ouvirem as leituras divinas, concebam no coração um suave e vivo afeto pela sagrada Escritura.” (N 101) As leituras são distribuídas entre diversos leitores.
  • Salmista: Ao Salmista, no ambão, pertence a salmodia do salmo após a primeira leitura: “deve saber salmodiar e ter boa pronúncia e dicção” (67); na sua falta, um leitor assume o salmo.
  • Acólitos ou ajudantes diversos: “Não havendo acólito instituído, podem ser destinados ministros leigos para o serviço do altar e ajudar ao sacerdote e ao diácono, que levem a cruz, as velas, o turíbulo, o pão, o vinho e a água, ou também sejam delegados como ministros extraordinários para a distribuição da sagrada Comunhão.” (68 / N 100). Notar as numerosas funções de tantos outros ministros leigos adultos, jovens ou crianças. . Ministros extraordinários da comunhão: função própria do sacerdote e diácono, com um número de comungantes muito grande, o sacerdote pode delegar fiéis leigos para ministrar a comunhão: 1º acólitos instituídos, 2º outros fiéis delegados habitualmente 3º em caso de necessidade, delegar fiéis idôneos só para o caso particular (N162).
  • Ministro competente – Cerimoniário – mestre de cerimônia, eventualmente « afim de que as ações sagradas sejam devidamente organizadas exercidas com decoro, ordem e piedade pelos ministros (69) e os fiéis leigos»(N 106).
  1. MINISTÉRIOS LEIGOS A SERVIÇO DA PARTICIPAÇÃO DO POVO DE DEUS.

O Missal menciona(68 e N 105):

  • O comentarista (68 a) desempenha a sua função em pé em lugar adequado voltado para os fiéis (pode até ser no presbitério), “não, porém, no ambão” (N105b) reservado para a proclamação da Palavra, intervenções breves cuidadosamente preparadas, sóbrias e claras.
  • Ministério da música: cantores, regente do canto do povo, os diversos músicos (63/N103).
  • A equipe de acolhida: acolhe os fiéis quando chegam; acompanha aos seus lugares (68b).
  • Os que fazem as coletas (68 c)
  • O sacristão “dispõe com cuidado os livros litúrgicos, os paramentos e outras coisas necessárias na celebração da Missa” (N105a).
  • A equipe de liturgia: “A preparação prática de cada celebração litúrgica, seja feita de comum acordo por todos aqueles a quem diz respeito, seja quanto aos ritos, seja quanto ao aspecto pastoral e musical, sob a direção do reitor da igreja e ouvidos também os fiéis naquilo que diretamente lhes concerne. Contudo, ao sacerdote que preside a celebração, fica sempre o direito de dispor sobre aqueles elementos que lhe competem (73;N 111).

É possível confiar algumas dessas funções litúrgicas “ a leigos idôneos com uma bênção litúrgica ou uma designação temporária” (N 107), como se faz, entre nós, para ministros extraordinários da eucaristia que recebem um mandato temporário.

  1. OUTRAS FUNÇÕES LITÚRGICAS NÃO MENCIONADAS NA IGMR
  • Os componentes da dança litúrgica embora devidamente autorizada, talvez porque depende dos usos culturais regionais.
  • O Coordenador da celebração; cuida do conjunto da liturgia para que se realize como prevista na preparação orienta os ministros, as procissões, prepara os objetos necessário, etc. Atua nos bastidores como espécie de contra-regra.
  • Participação dos fiéis: na procissão das ofertas: “Convém que a participação dos féis se manifeste através da oferta do pão e vinho para a celebração da Eucaristia, ou de outras dádivas para prover às necessidades da igreja e dos pobres”(N140).

“Os fiéis não se recusem a servir com alegria ao povo de Deus, sempre que solicitados para algum ministério particular ou função na celebração.” (62)

COMO FAZER?

Conhecer o seu ministério. No teatro, os atores procuram conhecer e ensaiar a fundo o seu papel. Do mesmo modo, cada ministro deveria conhecer profundamente o seu papel, a sua função. Estudar o que diz o Missal a respeito nas rubricas, conhecer o sentido do seu serviço no conjunto da liturgia, treinar através de laboratórios litúrgicos ou de outro modo para melhorar o desempenho. Evitar chamar a atenção sobre si, mas, através dos sinais visíveis dos ministérios, levar os fiéis, pela sua atuação, a encontrarem-se com o mistério de Deus em Cristo.

As vestes dos ministros leigos que tomam assento no presbitério. “Os acólitos, os leitores e os outros ministros leigos podem trajar alva ou outra veste legitimamente aprovada pela Conferência dos Bispos em cada região”(N 339). No Brasil, aos poucos, animadores/comentaristas, leitores, ministros da comunhão e outros ministros que servem ao altar começam a usar uma veste própria, branca ou colorida, inculturada, usada por homens e mulheres ou mesmo crianças, ao lado das alvas ou das tradicionais vestes dos “coroinhas”.É, também, normal que os componentes da dança litúrgica ou expressão corporal usem também uma veste diferenciada. Os demais ministérios fora do presbitério não costumam usar veste própria.

Algumas orientações

– Procurar que os que desenvolvem um ministério relacionado com a Palavra e o altar, tomem assento no santuário.

– Evitar que os ministros extraordinários da comunhão apareçam só na hora da comunhão. Tenham veste própria de bom gosto, tomem lugar no presbitério e ajudem na celebração, recebendo, por exemplo, os dons dos fiéis na hora das ofertas para apresentar ao que preside.

– Evitar que um só leitor ou leitora faça a 1ª e a 2ª leitura ou então leia o salmo. De preferência, procurar quem possa salmodiar o salmo do ambão.

–        Procurar constituir uma equipe que acolha as pessoas fora da igreja. Para facilitar o contato, pode distribuir as folhas de canto ou outro material. Acolher, de maneira especial, os visitantes novos na comunidade, inclusive indicando um bom lugar; colocar-se à disposição para dar a conhecer a comunidade (ter um material sobre os horários e serviços na comunidade) etc. Os ministros da comunhão podem eventualmente fazer parte dessa equipe de acolhida.

Perguntas

“Convém, na medida do possível, que a celebração, sobretudo nos domingos e festas de preceito, se realize com canto e conveniente número de ministros” (N115) Como está a situação dos ministérios litúrgicos na sua comunidade? Há um número conveniente? Há outros ministérios não mencionados aqui? E nas celebrações da Palavra?

  1. Como vocês desenvolvem o ministério da acolhida? Quem participa? Como ? Com que resultados?
  1. Que ministros sentem no presbitério? Usam todos vestes ou não? Que critérios vocês usam para isso?
  1. Quem ajuda no altar? Adultos ? Jovens?
  1. Existe um ministério de “coroinhas”? Qual a formação e a organização? Que critérios vocês têm para reservar só para meninos ou, também, aceitar meninas?

Conversas sobre o Ofício Divino das Comunidades – III

Na série «Conversas sobre o ODC”, entrevistamos para este número, a agente de pastoral mineira, Sônia Rios, coordenadora da Comunidade do Divino Espírito Santo, membro da equipe de liturgia e participa da Rede Celebra, em Belo Horizonte. Ela relata a experiência mineira com o ODC.

Uma experiência em Belo Horizonte – MG

Continuando a série «Conversas sobre o ODC”, entrevistamos para este número, a agente de pastoral mineira, Sônia Rios. Ela foi coordenadora da Comunidade do Divino Espírito Santo, membro da equipe de liturgia e participa da Rede Celebra, em Belo Horizonte. Sônia nos relata a primeira experiência do ODC naquela arquidiocese e seu testemunho ressoa o que muitas comunidades que celebram o Oficio experimentam.

Entrevistas
Ofício Divino das Comunidades

RL: Quando foi que a Comunidade do Divino Espírito Santo começou a celebrar o ODC?

Sônia: Nossa Comunidade pertencia à Paróquia São Francisco, mas a distância era longa e tínhamos um obstáculo que era uma movimentada avenida de Belo Horizonte. Ela nos separava do restante da paróquia. O povo sentia muita falta de se reunir para celebrar a fé. De vez em quando, algum padre vinha celebrar conosco, mas ainda assim buscávamos um caminho… O ODC começou a ser celebrado em nossa comunidade no ano de 1992. Com a chegada das irmãzinhas de Jesus, de Foucault, começamos a reunir para a reza do oficio. Ele foi fundamental para assegurarmos nosso jeito próprio de celebrar e de viver a fé. O jeito de celebrar o Ofício influenciava inclusive nossas celebrações da Palavra e da Eucaristia: os cantos, a partilha, as preces, os serviços… Na época celebrávamos nas casas, pois ainda não tínhamos igreja. Tudo era muito familiar e informal. As pessoas pediam que fôssemos rezar em suas casas, tínhamos ensaios semanais para o Oficio e para o Dia do Senhor. Por ocasião de alguma necessidade como enterros, mutirões, bênçãos de casa e nas visitas aos doentes sempre fazíamos o oficio.

RL: Existe algum acontecimento especial que marca esta experiência do ODC em sua comunidade?

Sônia: Uma coisa bonita foi quando fizemos a filmagem do vídeo da Rede Celebra. Naquela ocasião descobrimos que mais gente rezava o oficio. Nos reunimos com o pessoal da paróquia São Francisco das Chagas e dos Sagrados Corações de um outro bairro. Preparamo-nos para os trabalhos de filmagem com ensaios e formação. Muita gente animada e comprometida se empenhou bastante, pois sabiam que era uma forma de ajudar outros a conhecer e a praticar a oração das horas. Uma trazia o forro mais bonito que tinha em casa para enfeitar a mesa. Outra trazia o antigo ferro à brasa para servir de braseiro do incenso. Tinha também quem trazia as flores, o incenso e as velas. Era tudo muito participado. Foi também um momento de parada para escutar o que o ODC significava na vida das pessoas: a reza em família, o encontro com a fé celebrada de forma viva na própria cultura, a força que brota da oração dos salmos nos momentos difíceis. A Palavra de Deus estava sendo cantada nos salmos, do jeito que a Igreja ensina e como a gente entende e gosta. Era a nossa música, os nossos gestos, os nossos símbolos. Essas coisas vieram à tona quando nos reunimos para fazer aquela gravação. O resultado foi aquele vídeo bonito que está espalhado pelo Brasil afora.

RL: Houve também dificuldades no percurso?

Sônia: Muitas! Às vezes, depois que construímos nossa Igreja, o pessoal nem sempre a encontrava aberta para a celebração. Na indecisão de saber para onde ir, por causa das distâncias, do horário e outros inconvenientes, as pessoas se assentavam no passeio e rezavam. Nada impedia a turma de fazer o oficio. Era ao mesmo tempo um prazer e um compromisso. Era uma vez por semana, mas era feito com gosto e com responsabilidade. Às vezes tinha só três pessoas. Mas elas não deixavam de rezar por isso. Outra dificuldade era lidar com pessoas que chegavam e não entendiam a importância de se rezar conforme o ODC nos propunha. Queriam inserir outros cantos, escolher salmos à revelia, inventar gestos. O pessoal resistiu muito a isso. Não por fechamento, mas por entender que o caminho era outro. Sem saber formular, a gente intuía que a questão era rezar com a Igreja, conforme a Tradição ensinou. Obedecer ao esquema do Oficio tinha o sentido de ouvir a voz de Jesus, na voz da comunidade. Por isso, as nossas preferências importavam menos. Eu interpreto assim… Quando faltava o violeiro, Sr. Jonas, o pessoal também ficava meio desanimado. Mas um padre, amigo nosso, disse que não tinha problema, pois ainda tínhamos o principal instrumento: a nossa voz. Tem também dificuldades econômicas. O livro está caro para as pessoas mais pobres. Nos aniversários a gente procura presentear com o Oficio, mas isso resolve pouco. Para ser mais das comunidades, precisaria também ser mais barato.

RL: Você disse que o ODC influenciou as celebrações da Comunidade do Divino? Como você percebe isso?

Sônia: De muitos modos. Primeiro, a gente passou a perceber que nem tudo precisa ser missa. Todos gostam da missa e a gente sabe que não se pode viver sem ela. A questão é que outras formas de celebrar da liturgia ficam obscurecidas e a missa, que deveria ser o ponto alto das nossas ações, inclusive litúrgicas, fica desvalorizada. Um exemplo são os tríduos da festa do Divino (Pentecostes). A gente introduziu em algum dos dias o Oficio. Isso já foi uma mudança significativa. Outra coisa importante que percebo é a valorização da Palavra de Deus. As pessoas escutam mais, aprendem que Deus está falando com a gente, mesmo na celebração da Palavra ou na missa dominical. Eu acho que isto é fruto do Oficio! Tem também os símbolos e os ritos. As pessoas gostam do incenso, dos gestos de se inclinar e levantar as mãos no “Glória ao Pai”, cumprimentar os irmãos e irmãs no convite da abertura. Também a novena da Arquidiocese, já por três anos, traz o esquema completo do Oficio da Novena de Natal. Já não é mais uma coisa estranha para nós, mas uma confirmação de que estamos no caminho certo.

RL: Existe alguma dificuldade entre a oração pessoal e a reza do Oficio?

Sõnia: Nenhuma dificuldade. No ofício a gente começa com oração pessoal, rezando em silêncio, para se preparar para a celebração. Muitos membros da comunidade rezam o oficio em casa, antes de dormir, ou no amanhecer. Dona Odete rezava com suas netas. As crianças adoravam… Ela já faleceu, mas deixou a semente do Oficio no coração da sua família. Tem também o momento das preces. Nelas encontramos preces prontas que expressam o que a gente quer dizer, ou então o pessoal faz as suas próprias preces no espaço dado às intenções particulares. Além disso, é muito bom sermos socorridos com as palavras do salmo quando a gente não sabe o que rezar. Eles ficam impregnados na gente. Sem querer a gente acaba colocando isso para fora quando conversa com Deus. Num curso que fizemos sobre o Oficio, isso foi falado a respeito de Jesus. Ele rezava os salmos como um bom judeu. Por isso, respondia com salmos, na cruz rezou um salmo… Acho que está acontecendo a mesma coisa com a gente. Entramos na escola de oração de Jesus. Dona Odete costumava dizer: “O que mais gosto do oficio é o salmo, pois aí, na mesma hora que a gente fala, Deus responde com as próprias palavras do salmo”.

RL: O ofício tem a ver com o sacerdócio dos cristãos?

Sônia: Lembro-me que a gente canta no final da abertura: “povo de sacerdotes, a Deus louvação”. Fico pensando que se trata do sacerdócio de Jesus do qual a gente participa como fiel e batizado. O que se chama por aí de sacerdócio comum dos fiéis. Não se trata do sacerdócio dos padres, mas de todo o povo. O nosso louvor se torna serviço sacerdotal porque se une à oração de Jesus, o único sacerdote. A gente se volta para o Pai na pessoa de Jesus, em louvor e adoração, nos unindo a ele na ressurreição e no seu sacrifício, que entre nós se faz louvor. O culto da vida não fica sem o amparo do culto da Comunidade. As mães e os pais de família, os jovens e as crianças, vão entendendo que no seu dia-a-dia tem de agradar a Deus como no Oficio rezado na Igreja. E na comunidade reunida, a gente entende que a labuta da semana, as coisas da vida, precisam ser oferecidas a Deus, para se tornarem santas, do jeito que Ele gosta. Eu penso que o sacerdócio é assim…

 Fonte: Revista de Liturgia Ano 37 – 218

Esta é nossas terceira conversa sobre o ODC, para conferir as anteriores clique nos tópicos abaixo:

1- Conversa I – com o Pe. Marcio Pimentel

2- Conversa II – com Penha Carpenedo

Conversas sobre o Ofício Divino das Comunidades – II

Nas conversas sobre o Ofício Divino das Comunidades estamos editando uma serie de entrevistas com as pessoas que trabalharam na elaboração do livro. A entrevistada nesta conversa II é a Penha Carpenedo.

Vamos continuar nossa conversa, em forma de entrevista, dando a palavra à Penha Carpanedo, que fez parte da equipe que elaborou o Oficio Divino das Comunidades (ODC), e apresentou dissertação de mestrado sobre a sua inculturação. Ela partilha conosco o resultado do seu encontro, com grupos e comunidades, celebrando e aprofundando a teologia e a espiritualidade do Oficio Divino das Comunidades.

Conversas
ODC – Ofício Divino das Comunidades

RL: Desde o surgimento do Oficio Divino das Comunidades (ODC), até agora, como você sente evoluir a inculturação da Liturgia das Horas no Brasil?

Penha: O Oficio Divino das Comunidades possibilita uma oração cotidiana conforme a tradição da Igreja, de rezar com salmos e outros cânticos bíblicos, no ritmo das horas e dos tempos do ano litúrgico, com uma linguagem acessível às nossas comunidades. Depois de 20 anos desde a primeira edição, tornou-se uma referência reconhecida nas comunidades eclesiais do nosso país. E de certa forma ele cresceu com a prática das comunidades.

RL: Quais elementos destacaria na proposta ritual do ODC como inculturadas?

Penha: Destaco dois elementos que me parecem fundamentais:

O primeiro é a preocupação de adequar a linguagem dos textos, os ritos e o estilo da celebração ao modelo eclesial (teologia e prática) assumido por nossas comunidades a partir do Concílio Vaticano II e de Medellin. Parte-se do princípio que a inculturação da liturgia não é uma tarefa isolada, mas tem a ver com a inserção da Igreja no mundo, com a sua missão. Como bem formulou o liturgista filipino, Anscar Chupungco, a inculturação “não é apenas problema antropológico, mas também teológico, pois tange tudo o que toca o relacionamento entre Deus e o seu povo”. Esta preocupação perpassa todo o Oficio. Aparece nos hinos, nas orações, nas preces, nas introduções aos salmos etc. Aparece especialmente na Recordação da vida, introduzida para explicitar a relação entre o mistério pascal vivido no dia a dia e a celebração litúrgica.

Outro importante destaque é a inclusão de elementos da piedade popular, realizando concretamente a ‘mútua fecundação’ entre liturgia e religião popular. E não apenas incorporando elementos externos, mas procurando corresponder à piedade e ao “fervor espiritual” do povo; aos “anseios de oração e de vida cristã”, tão característicos da piedade popular.

RL: Poderia dar exemplos de repercussões da piedade popular no ODC?

Penha: As repercussões da piedade popular podem ser percebidas no próprio estilo do oficio. A ritualidade e a singeleza da celebração, com seu tom coloquial, sem muitas palavras explicativas, centrada no mistério pascal de Jesus, com seus salmos, hinos e orações em linguagem acessível, encontra eco na piedade do povo, com sua capacidade contemplativa e sua atitude de confiança em Jesus. Além disso, um exemplo concreto são as aberturas: com seu conteúdo bíblico e estrutura dos benditos populares em formato de repetição, traduzem com muita propriedade o sentido teológico do invitatório.

Respeitando sua forma responsorial, possibilita o diálogo e conduz à oração. A repetição foi bastante valorizada na elaboração dos diversos elementos que compõem o ODC, libertando a oração do papel e dando razão ao aspecto oral da piedade popular. É um dos elementos que mais agrada o povo e realmente convida a entrar na oração. Outro exemplo são os hinos – “cai a tarde o sol se esconde”, “pecador agora é tempo” e outros mais — tomados do repertório popular. Poderíamos ainda falar da dimensão relacional, de aliança, que cria um clima orante, comum à liturgia e à piedade popular.

RL: Em que medida esta ritualidade tão presente na prática celebrativa do ODC responde à exigência de inculturação.

Penha: Sendo o Oficio Divino uma ação litúrgica como as demais celebrações da Igreja, tem dimensão comunitária e sacramental, pois se compreende como ação simbólica que expressa a salvação de Deus (oficio divino), mediante sinais sensíveis, que significam e que realizam o que significam (cf. SC 7). E quando é que um sinal é sensível? Quando atinge a pessoa em sua corporeidade, culturalmente situada. No ODC não há muitas indicações e detalhes a respeito dos gestos, símbolos e ritos. Entretanto, na prática, foi nascendo um estilo de celebração coerente com o jeito de celebrar de nossas comunidades, como resultado da relação entre liturgia e modelo eclesial e da ‘mútua fecundação’ entre liturgia e religiosidade popular.

Nas celebrações do ODC se valoriza a gestualidade, o movimento, o cuidado com o espaço e com os diversos elementos que o compõem, o bom desempenho dos ministérios (presidência, leitores/as, cantores/as, acólitos/as…) A verdade dos sinais tem como exigência, entre outras coisas, a incultaração, para que o povo possa se reconhecer na oração e de fato possa acompanhar as palavras com a mente atenta e participar com consciência, ativa e frutuosamente (cf. SC 11).

RL: A inculturação leva a situar o ODC numa cultura e num tempo, isso não limita a experiência litúrgica?

Penha: O Concílio Vaticano II estabeleceu princípios teológicos e pastorais que estão na base de toda a reforma da Igreja e da Liturgia. Um destes princípios é o da adaptação aos tempos modernos e às culturas de cada povo. Compreendeu que para ser universal precisa ser capaz de adequar-se ao particular, naturalmente sem perder a referência da tradição. O ODC reproduz de maneira simples e inculturada, acessível ao povo de nossas comunidades, os mesmos elementos e estrutura da Liturgia das Horas, a mesma teologia e espiritualidade.

O ganho é imenso: a oração da Igreja se torna popular, e a oração do povo se enriquece com a herança da tradição bíblica e eclesial. Pensemos por exemplo na música. Grande parte das músicas tem sua inspiração nas raízes melódicas da nossa cultura. Muitas foram recolhidas do repertório musical produzido a partir da reforma do Concílio Vaticano II, que representa grande conquista em busca da música ritual em ritmo e estilo brasileiros. O próprio Geraldo Leite, um dos autores das músicas do ODC, escreveu:

“Nossa música é toda uma mistura de melancolia e esperança, de ritmos e saudades, de alegria e de dores, de África e de Brasil”. As composições não estão sujeitas aos modismos, pois são de grande qualidade melódica e textual, permanecendo válidas pela sua autenticidade. Portanto, a inculturação não representa limitação, mas enriquecimento mútuo, pois descobre na cultura local o que existe de mais precioso e valoroso.

RL: Como a experiência inculturada da Liturgia das Horas pode colaborar na vivência espiritual do mistério de Cristo em nossas comunidades?

Penha: Com séculos de separação entre espiritualidade e liturgia é preciso aprender de novo a viver a liturgia como fonte de espiritualidade (cf. SC 14); é preciso aprender a participar, prestando atenção nas palavras ditas ou cantadas, nas palavras que acompanham as ações simbólicas; é preciso aprender de novo a guardar no coração o que recebemos de Deus na assembléia litúrgica para viver existencialmente em nosso cotidiano. Ao mesmo tempo vamos redescobrindo que a liturgia, para além da razão, vai misteriosamente moldando e transformando o coração das pessoas e a vida de comunidade.

Não tenho dúvida de que o ODC caminha nesta direção. Reproduzindo a Liturgia das Horas, valendo-se da linguagem do nosso universo simbólico, o ODC constitui uma experiência vital do mistério pascal, e desta maneira torna-se alimento da oração e da devoção pessoal conforme pedia a Constituição sobre a liturgia (Cf. SC 90) e como recomendou Paulo VI, na Constituição Apostólica Laudis Canticum: que a celebração do Oficio pudesse “adaptar-se, quanto possível, às necessidades de uma oração viva e pessoal” (cf. n. 8).

 

Fonte: Revista de Liturgia – 217 – Janeiro/Fevereiro.2010

Conversas sobre Ofício Divino da Comunidades – I

Artigos com uma série de entrevistas: “Conversas sobre o Oficio Divino das Comunidades “. Em cada número, uma pessoa ligada à elaboração do Oficio ou à Pastoral nos dará um testemunho ou uma reflexão em torno deste assunto.

Iniciamos, nesta edição, uma série de entrevistas: “Conversas sobre o Oficio Divino das Comunidades “. Em cada número, uma pessoa ligada à elaboração do Oficio ou à Pastoral nos dará um testemunho ou uma reflexão em torno deste assunto. A intenção é trazer à tona a experiência da Liturgia das Horas na forma do Oficio Divino das Comunidades, cuja prática oferece importantes elementos para a teologia e espiritualidade da Liturgia das Horas e para a sua inculturação.

ODCNosso primeiro entrevistado é o Pe. Márcio Pimentel, religioso saletino, membro da Rede Celebra, atuando na pastoral litúrgica da Arquidiocese de Belo Horizonte. Responsável pela formação dos seminaristas aspirantes e postulantes de sua congregação, ele relata nesta entrevista a experiência do ODC em sua comunidade religiosa, no período da formação religiosa e presbiteral. Considerando a Liturgia das Horas um elemento essencial da vida religiosa, mostra como concilia o carisma de sua congregação com a espiritualidade litúrgica. O Oficio Divino das Comunidades encontra cada vez mais espaço nas comunidades religiosas, aproximando a antiga tradição da Oração dos Salmos às demandas do tempo presente e da missão dos religiosos na Igreja e no mundo.

  1. Como se deu a introdução e a opção pela Liturgia das Horas na forma do ODC na etapa em que você atua como formador?

A opção pelo Oficio Divino das Comunidades (ODC) tinha como objetivo eleger um estilo de Liturgia das Horas (LH) que fomentasse nos estudantes o gosto pelo canto dos salmos. Isto possibilitaria a descoberta de sua inigualável riqueza para a espiritualidade cristã e, em especial, para a própria construção do perfil religioso e presbiteral. Mediante a celebração do ODC, eu mesmo pude redescobrir a beleza da Oração cristã e descortinar seu sentido para o meu itinerário vocacional e missionário. Dei-me conta de que a oração dos salmos permitia escapar das armadilhas que nosso ego fabrica em nossas práticas religiosas. Sem perceber, corremos o risco de caminhar rumo a desfiguração de nosso perfil de discípulo, missionário e, sobretudo, humano. Entendemos que o ODC era um caminho que valia a pena compartilhar com aqueles que fazem sua iniciação à vida religiosa e presbiteral saletina no período do aspirantado e postulantado, quando eles cursam a filosofia.

  1. Como o ODC figura no conjunto de celebrações do seminário?

Eu diria que ocupa lugar privilegiado. Costumava referir-me a estes momentos como “significadores” do cotidiano ou, como mais recentemente gosto de dizer, oportunidades para ajustar nossos passos aos ritmos do Evangelho de Jesus. Rezamos o ODC pela manhã, à tarde e à noite: laudes, vésperas e completas. Esta última fazemos segundo a estrutura da versão oficial da LH. As horas maiores seguem a estrutura do ODC, embora utilizemos com freqüência alguns hinos e salmos da versão oficial, pois não vemos oposição entre o ODC e a LH. Temos a oportunidade, portanto de rezar cotidianamente a Oração das Horas segundo o estilo e a forma do ODC. Cada vez fica mais clara a importância e o ganho em optar por ele como eixo da oração cotidiana de nossa comunidade.

  1. Como você vê a recepção do ODC por parte dos formandos?

Certamente há frutos que já colhemos, sobretudo nos quesitos ritualidade e sacra- mentalidade que o ODC recupera. Isto é muito louvável. Ainda reside certo conflito com a mentalidade contemporânea, herdeira da lógica moderna e também pós-moderna. Destaco dois aspectos:

  1. a) a racionalização da oração. Achamos que temos de entender tudo, que deve haver um beneficio mensurável naquilo que fazemos. Praticamente preenchemos, ou tentamos preencher todos os “vazios” para que o Mistério se manifeste e nos recrie. Talvez por isso tenhamos tanta dificuldade com o silêncio… Queremos dominar e submeter aquilo que é maior do que nós. Perdemos na oração a noção de criaturas, O que seria um espaço para a gratuidade, para o deleite da presença de Deus, se torna ocasião para um palavrório sem limites, conscientizações, ideologizações exageradas…
  1. b) a confusão entre objetividade e subjetividade da espiritualidade cristã. Aqui a questão é mais grave: os jovens que chegam às nossas casas, além de, na sua maioria, não terem sido iniciados à fé de modo substancial e consistente, trazem consigo uma espiritualidade movida pela lógica devocional. Nesta prevalece o gosto individual e a fé subjetiva em detrimento da objetividade da fé da Igreja, recebida no batismo, entregue por uma comunidade à qual se adere. Notamos o desconhecimento da bimilenar tradição orante da Igreja e sucumbimos diante da falsa criatividade ou do criativismo exacerbado. A compreensão de liturgia, por exemplo, em ambos os casos não é boa. Ela não é considerada como a nossa resposta ao amor de Deus por nós, no seu trabalho carinhoso em governar e cuidar da humanidade, da história, do cosmos.
  1. Sendo formador de religiosos saletinos, como você avalia as celebrações do ODC no conjunto da formação para a vida religiosa e para o presbiterato?

Urge uma volta à compreensão mais mística da liturgia para que venha à tona a sua importância para a formação religiosa e presbiteral. Algo disso já se processa atualmente, mas temos que caminhar muito. A Liturgia, e aqui enfoco o ODC, é um microcosmo. Ele reflete o mundo e a história que se traça cotidianamente sob outro ângulo, que é a lógica de Deus. Gosto de falar de um “ensaio existencial”. Tudo e todos somos submetidos ao modo do ser de Deus revelado em Jesus. A forma de nos relacionarmos como pessoas humanas e cristãs, a nossa consagração batismal, vinculada e radicalizada num instituto de vida consagrada, e o ministério pastoral que prestamos à Igreja são vividos e antecipados na celebração do trabalho de Deus, a Liturgia. Percebo que falta-nos hoje transparência sacramental e com isso me refiro ao fato de numa celebração, em que “presidimos”, por exemplo, sobrepor-se o sinal, pobre e insuficiente, ao Mistério que este deveria comunicar. Tudo gira em torno do padre. É ele quem aparece, quem é escutado, visto e ovacionado não poucas vezes. Ele é o centro e para ele tudo converge. Como um microcosmo e um ensaio, a celebração sinaliza que algo está errado e fora de lugar: na vida cotidiana, no modo de proceder, na vocação, missão, pastoral, ou mesmo no âmbito celebrativo. Esquecemos de que Deus é Deus. A casa de formação é um lugar privilegiado para redescobrir o lugar do Mistério na condução de nossa vida, sem o quê nos tornarmos ídolos!

  1. O ODC é um caminho mistagógico para a formação?

O ODC é uma porta para o Mistério. Creio nisto, sobretudo porque o único Mistério que celebramos é a Páscoa de Cristo Jesus. O ODC nos possibilita entrar em comunhão profunda com o Espírito de Cristo. Se quisermos estar ligados a ele devemos beber da fonte que ele bebeu, rezar como ele rezou, orar aquilo que ele orou. Sabemos que a base da oração de Jesus são os salmos. Não dá para entrarmos em relação com Jesus sem estarmos imbuídos de seu Espírito.

No fato-fundante do Instituto dos Missionários Saletinos, existe um forte princípio sobre a oração baseado na pergunta da Virgem na sua aparição em Salete, França:

“Fazei bem as suas orações, meus filhos?”, O cuidado com o “fazer bem as orações” aqui se expressa em nosso zelo para com o ODC, que é uma conquista de cada dia. O carisma do Instituto é a reconciliação. Não dá para ser embaixadores da reconciliação, conforme o Apóstolo (2Cor 5,20), se nos esquecemos de nosso mergulho na morte e ressurreição do Senhor.

Não dá para viver e proclamar “a nova criatura” se não estamos suficientemente vinculados ao Novo Adão. Somente cantando sua Palavra, permitindo que ela se torne nossa palavra na meditação de cada versículo sálmico, que ressoem e dialoguem com aquilo que recordamos da vida e a re-signifiquem; somente silenciando para que o nosso vazio seja preenchido pela novidade do Evangelho, é que nossa existência ganhará o tom e a cor do Reinado de Deus. Assim como os salmos no ODC ganham vida e beleza advindas da métrica poética que nos é peculiar, dos ritmos regionais que os embalam, das sutilezas melódicas do modalismo redescoberto em nossas composições, nossa vida é embelezada pela voz do Verbo que através deles ressoa.

 

ODC – Ofício Divino das Comunidades

Explicações sobre o Ofício Divino das Comunidades.

Um dos módulos do curso de liturgia trata do ODC – Ofício Divino das Comunidades, assunto abordado no capítulo IV da Sacrosanctum Concilium, para esclarecer um pouco o assunto vamos editar varios artigos; o primeiro que fala da estrutura e depois trataremos de outros aspectos como: histórico, símbolos, gestos e ministérios, etc. Vamos começar a conhecer o Ofício Divino das Comunidades.

ESTRUTURA DO OFÍCIO DIVINO DAS COMUNIDADES

Qualquer celebração comunitária precisa de um mínimo de estrutura. Em todas as religiões há ritos para expressar as suas crenças. No Ofício das Comunidades a estrutura de cada celebração (ofício) é bem simples: inicia-se com uma invocação de Deus através de versos de um salmo; abre-se para a recordação da vida; propõe-se o hino que explicita o sentido do mistério celebrado; depois vem o salmo; uma leitura bíblica, meditação e partilha; cântico evangélico; preces, pai nosso e oração; e a bênção final. Cada um destes elementos mudam de acordo com a hora do dia, o tempo litúrgico e as circunstâncias da vida.

ODCO sentido de cada elemento do rito
1. Chegada – silêncio, oração pessoal (criar um clima de recolhimento com a repetição de um mantra em melodia de salmo).
A Chegada é o momento de preparação imediata que tem como finalidade criar o silêncio para a oração pessoal. Responde à necessidade de cada pessoa “reunir o coração” para que se possa constituir a assembleia em oração… Pode ajudar neste momento: iluminação reduzida, música ambiente, toques de atabaque que leve à concentração, um refrão contemplativo….

2. Abertura – canto feito por repetição (solista e coro).
A Abertura é o começo do ofício com versos bíblicos de invocação de Deus, sem qualquer comentário. Expressa a gratuidade da oração e a iniciativa de Deus.

3. Recordação da vida – pedir que os irmãos e irmãs lembrem fatos, pessoas ou situações que marcaram a semana que passou.
A Recordação da vida é o momento em que afirmamos a relação entre a celebração e a vida, entre a paixão e morte do Senhor e paixão e morte do povo. Em toda a celebração, a vida está como que “latente”, mas na recordação da vida explicitamos mais claramente fatos de alcance e impacto nacional, situações e experiências trazidas pelos participantes, memória dos mártires… que serão depois retomados no salmo, na meditação, nas preces…

4. Hino – canto que marca a hora do dia, o tempo litúrgico corrente ou a festa litúrgica, de santo, do padroeiro.
O Hino é um canto diferente do salmo, cantos que nasceram da experiência da Igreja de ontem ou de hoje. Tem como finalidade expressar a oração da assembleia, a partir do mistério celebrado de acordo com a hora do dia e hora da vida.

5. Salmo – escolher um salmo apropriado para o que querem celebrar. O Salmo é um dos elementos centrais no Ofício Divino. São poemas, cânticos, preces… que acompanharam o povo de Deus a caminho da terra prometida e são ainda hoje muito importantes na espiritualidade judaica. Por um lado eles são símbolos de tudo o que o ser humano carrega em seu coração: alegrias e sofrimentos, angústias e esperanças, docilidade e indignação, amor e ódio… Por outro lado, eles são símbolo que revelam o próprio Deus, atento ao grito dos pobres, pronto a manifestar seu amor e sua compaixão. Os salmos foram a oração de Jesus, de Maria, das primeiras comunidades cristãs. Por isso, na tradição das Igrejas cristãs, um salmo é sempre rezado a partir de Jesus e da sua vitória pascal. Com essa chave, somos convidados a entrar na oração do salmo fazendo dele a nossa própria oração. Depois de cada salmo há um tempo de silêncio e de repetição de alguma palavra que nos tocou. Isso nos permite curtir a palavra de Deus e deixar que ela se torne a palavra da nossa oração.

6. Leitura bíblica – leitura do dia ou do Evangelho do domingo seguinte.
Além dos salmos, escutamos uma leitura bíblica que pode ser dos evangelhos ou de outro livro do antigo ou do novo testamento. Em geral, as comunidades seguem as leituras indicadas na liturgia diária da missa. Se for evangelho é precedido por uma aclamação. Se for outra leitura é seguida de versos bíblicos de meditação. “Deve ser lida e ouvida como verdadeira proclamação da Palavra de Deus.” (IGLH n. 45).

7. Meditação – silêncio, partilha, repetir refrões que chamaram a atenção.

8. Cântico evangélico – para manhã (Lc 1,68-79 – cântico de Zacarias); para fim da tarde ou noite (Lc 1,46-55 – cântico de Maria)
Faz em parte do roteiro do Ofício os três Cânticos Evangélicos, tirados do evangelho de Lucas. No ofício da manhã, canta-se o cântico de Zacarias ao raiar o sol; evoca a memória de Jesus o sol nascente. À tarde, ao findar o dia, entoa-se o Cântico de Maria nos faz agradecer a Deus pela salvação. À noite é a vez do Cântico de Simeão, que proclama a força da luz que brilha para todos os povos. É o ponto alto do ofício, por isso podemos dar ênfase a este momento: com passos de dança acompanhando o ritmo, com incenso…

9. Preces – podem ser espontâneas. Nas Preces unindo-nos à oração de Jesus, exercemos nossa vocação de povo sacerdotal, louvando, agradecendo e intercedendo pelas necessidades da humanidade e urgências do mundo. Na pag. 449 encontramos várias formas de responder as preces (cantada ou rezada).

10. Pai-Nosso – Após as preces a assembleia conclui este momento com a prece do Pai nosso como faziam as comunidades dos primeiros séculos e como é costume até hoje.

11. Oração final – pode ser rezada a oração do dia.

12. Bênção – O ofício termina com a invocação da bênção de Deus sobre a assembleia convidada a prolongar o louvor no ofício que deve continuar em todo o tempo e lugar, em cada gesto de amor e de serviço… Por fim, um refrão que funcione como “saideira”, prolongando a bênção.

Querido amigo(a) está chegando ao fim esta breve explicação com o tema ODC – Ofício Divino das Comunidades em breve estaremos esclarecendo mais com uma série de matérias sobre ODC. Espero que tenha gostado e se quiser rever o material completo ele será editado aqui no blog cmliturgo e também em forma de ficha de estudo no Informativo A Palavra Viva, é só acessar nossa pagina e solicitar através dos nossos contatos.

Dê sua sugestão e vote em nossa enquete sobre que assuntos podemos abordar nas próximas matérias, estou aguardando seus comentários e votos.

Carinhosamente!

Carlos Ericeira

Há Páscoa hoje?!

uma reflexão sobre o sentido da Páscoa.

Reflexão de Carlos Ericeira
Reflexão de Carlos Ericeira

Estamos presenciando um tempo com sinais marcantes; o desequilíbrio da natureza, a crescente desvalorização da vida, a corrupção despudorada, o desabafo populacional, manifestações, lutas, massacres e um crescente e ecoante pedido de basta. Como encaramos estes sinais? Que reações eles provocam em nós?

Anualmente falamos de ‘páscoa’ que estoura em apelos comerciais, que inflama as prateleiras com deliciosos ovos de chocolate e coelhinhos de pelúcia. Mas, e a Páscoa[1]? Aquela que imprimi em nossa alma uma mudança, uma certeza de que por além das sombrias nuvens da madrugada desponta o Sol da justiça; aquela que dissipa as trevas da morte fazendo germinar no amanhecer um novo dia, uma nova historia onde tudo será melhor. A Páscoa, que mortifica as dores, as mazelas, as misérias, conduzido-nos para a ressurreição, a que ressurge com raios de paz, igualdade, honestidade, humanidade e santidade.

logo do blog CMLITURGO
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Celebramos a Páscoa anualmente (semanalmente), como mistério encarnado[2], padecente e glorioso[3] que em todo o mundo revela os vestígios de sua força, de sua luz.  Há sim, uma certeza confirmada no tempo e na história deste profundo mistério do Pai, revelado no filho pela ação do Espírito e é esta certeza que faz  surgir do meio do deserto de cada um de nós e da aridez de nossa vida social uma fonte de água viva[3] que jorra esperança, compromisso, solidariedade e a busca por um mundo mais humano e feliz.

Há Páscoa hoje e sempre em cada novo homem e mulher liberto de seus vícios; em cada lei que tira o povo da opressão, da miséria e falta de dignidade; em cada lugar que se liberta dos que exploram os bens e recursos em benefícios próprio; em cada ser humano que doa a sua vida pelo bem comum de toda a humanidade. Haverá sempre páscoa se cada um(a) que assumir sua co-responsabilidade com o mundo que Deus criou para vivermos em  harmonia e comunhão.

Cordialmente em Cristo,

Diac. Carlos Ericeira

 

[1] O termo “Páscoa” deriva, através latim Pascha e do grego bíblico Πάσχα Paskha, do hebraico פֶּסַח (Pesaḥ ou Pesach, a Páscoa judaica) que significa passagem.  [2] cf. Fl 2, 6-7    [3] cf. Lc. 9, 18-24  [4] Cf. Jo 7, 37-39